A Gripe espanhola nas memórias de Pedro Nava

Francisco Carlos Ribeiro[1] Olga Brites[2]

Resumo

O artigo tem por objetivo compreender, pelo olhar memorialístico do médico e escritor brasileiro Pedro Nava (1903-1984), como o governo de Venceslau Brás (1914-1918), a medicina daquela época e as pessoas comuns da cidade do Rio de Janeiro, enfrentaram os desafios sanitários provocados pela Gripe Espanhola de 1918. O fio condutor do estudo está centralizado no volume “Chão de ferro”, publicado em 1976, onde Nava conta com detalhes o cotidiano carioca durante a pandemia de 1918. Ao longo de sua inquietante narração, através de palavras e frases que demonstram seu assombro diante daquela triste situação de saúde pública, Pedro Nava, como testemunha da história, apresentou os horrores que assistiu e sofreu em sua adolescência. Com seu habitual vocabulário exuberante, busca sensibilizar seus leitores, talvez na tentativa de conscientizá-los para que as mazelas do passado não voltassem a ocorrer no futuro. Contudo, ao se comparar os acontecimentos de 2019 com os de 1918, percebe-se uma grande semelhança em relação ao despreparo dos governantes e da população em geral sobre como lidar com a pandemia do SARS-CoV-2.

Palavras-chave

Gripe Espanhola; Memórias; Pandemia; Pedro Nava; Saúde Pública.

The Spanish Flu in the Memories of Of Pedro Nava

Abstract

The article aims to understand, through the memoiristic look of the Brazilian physician and writer Pedro Nava (1903-1984), how the government of Venceslau Brás (1914-1918), the medical science of that time and the common people of the city of Rio de Janeiro, faced the health challenges caused by the 1918 Spanish flu. The guiding thread of the study is centralized in the volume “Chão de ferro”, published in 1976, where Nava recollects details of daily life in Rio de Janeiro during the 1918 pandemic, by using words and phrases that demonstrate his distraught at that appalling situation in public health. In his narrative, Pedro Nava becomes an eyewitness who presents the horrors that he witnessed and experienced in his teenage years. With his usual exuberant vocabulary, he seeks to touch his readers, perhaps in an attempt to engage them so that the ills of the past will not happen again. However, when comparing the events of 2019 with those of 1918, a great similarity can be seen in relation to the unpreparedness of government officials and the general population on how to deal with the SARS-CoV-2 pandemic.

Keywords

Spanish flu; Memoirs; Pandemic; Pedro Nava; Public health.


Além da fome, da falta de remédios, de médicos, de tudo,

as folhas noticiavam o número nunca visto dos doentes e

das cifras pavorosas dos obituários.

Pedro Nava.

O presente estudo visa, nesse momento que ainda colhemos consequências da crise sanitária provocada pelo SARS-CoV-2, compreender pelo olhar memorialístico de Pedro Nava (e de algumas pesquisas históricas especializadas), como o governo, a medicina e as pessoas comuns, enfrentaram os desafios da pandemia provocada pela Gripe Espanhola de 1918. Antes, porém, de apresentarmos a temática específica desse artigo, examinaremos abaixo como forma de preâmbulo, uma breve análise sobre as relações entre Memorialismo e História.

Todo memorialista é uma testemunha da História, todavia, sem exercer as atividades de um historiador, pois não trabalha com fontes diversificadas, que demonstrem evidências das diferentes experiências sociais. Pedro Nava em suas memórias, trabalhou como um engenhoso arquiteto de suas lembranças, partindo do que viu, ouviu e sentiu, buscando interpretar e entender o passado que viveu.

Segundo Massaud Moisés, oscilando entre a autobiografia (reconstituição do passado que pressupõe a veracidade dos fatos), o diário (relato e comentário dos fatos de um dia) e a confissão (narrativa em que se extravasa os sentimentos vividos em certas situações), o texto memorialístico se distingue pela redação na primeira pessoa do singular, objetivando assim, certificar o leitor, que a reconstituição dos acontecimentos descritos, foram realmente vivenciados pelo seu autor. Como narrativa pessoal, ele se apresenta com uma vigorosa subjetividade, pois nele, é o autor-lembrador quem seleciona o que vai ser contado, na ordem em que julgar apropriada e com as palavras e expressões que achar adequadas[3].

Caminhão funerário Foto do Acervo Casa Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

 Toda essa subjetividade, porém, deixa o conteúdo memorialístico mais próximo do texto narrativo ficcional, do que em relação ao historiográfico. Isso se deve, porque ao contar suas lembranças, o autor não tem a preocupação de ser fiel a trama do que narra, pois, a fidelidade que busca, está na transmissão de suas percepções do que descreverá[4]. Ele quer tão somente “retratar suas impressões dos fatos e não focar estritamente nesses fatos[5]. Assim, “falseado” pelas nevoas da memória do passado, o texto memorialista “transfigura-se como se parecesse inventado[6], em meio a dinâmica dos vários fluxos e refluxos das lembranças de seu narrador.

Desse modo, no exercício de recordação de suas experiências, o memorialista “nos entrega uma galeria de fantasmas[7] agitados pelo fogo e pelas sombras de sua época. A bruxuleante veracidade de sua narrativa, deve ser procurada mais no vivencial, do que no documental dos acontecimentos. Sob essa perspectiva, o memorialismo funciona “como uma nova forma de [se] viver o passado[8], onde o autor se torna uma espécie de senhor de sua existência, determinando in vitam o material a ser utilizado na construção de sua imagem futura, através da consolidação de suas reminiscências.

Ao fazer o inventário dos arquivos silenciosos[9] de suas memórias, o narrador permite que as lembranças naturais conjugadas as recordações requisitadas transitem pelas alamedas de suas experiências, trazendo de volta “um tempo que já não é mais[10], mas que pode ser recuperado, reconstruído e registrado. Assim, com a ausência do exame de provas documentais, o memorialismo permite a escrita da história, com ou sem certezas absolutas.

É curioso perceber que, ao mesmo tempo em que o memorialista reconstrói seu passado através de sua narrativa, ela por sua vez, também o reconstrói, fazendo-o compreender que os seres humanos são sujeitos de sua trajetória, e não meros produtos dos acontecimentos que ocorrem ao seu redor. É esse entendimento de reconstrução que desperta no historiador, o interesse pelo estudo do memorialismo, para torná-lo sua fonte de investigação.

Foto do Acervo Casa Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

No Brasil, foi o Visconde de Taunay (1843-1899), quem inaugurou o gênero memorialístico com a escrita de suas Memórias, publicadas postumamente em 1908. Depois dele outros escritores também se aventuraram nesse gênero como os romancistas Graciliano Ramos (Memórias do cárcere), José Lins do Rego (Meus verdes anos) e Erico Verissimo (Solo de clarineta). No entanto, foi o médico Pedro Nava, com seus volumes de memórias, Baú de ossos (1972), Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978), Galo das trevas (1981) e O círio perfeito (1983), além do inacabado Cera das almas, quem alcançou até agora, o maior prestígio artístico e literário junto ao público e a crítica.

Nascido em Minas Gerais, Pedro da Silva Nava (1903-1984), foi médico por profissão, mas também ilustrador e escritor por vocação. Juntamente com o amigo Carlos Drummond de Andrade, fez parte de um grupo de jovens ligados ao movimento modernista, que mantinha contato com os vanguardistas Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Mário de Andrade, para quem Nava posteriormente, ilustrou o romance Macunaíma (1928).

Exerceu a carreira médica com profunda dedicação, clinicando em Minas Gerais (Juiz de Fora e Belo Horizonte), São Paulo (Monte Aprazível) e no Rio de Janeiro, onde estabeleceu seu consultório em definitivo. Ao longo dos seus cinquenta anos de trabalho, destacou-se por ter sido o introdutor da reumatologia na medicina brasileira.

Poeta bissexto[11], autor de artigos médicos, professor universitário, Nava esperou chegar aos sessenta e quatro anos, para dar início à redação de suas memórias, e com isso deixar de ser uma simples personalidade literária coadjuvante do modernismo, para se tornar um escritor maduro e respeitado. “Nava parecia aguardar o seu momento, sabendo que era preciso primeiro viver para depois narrar[12].

Não deixa de ser surpreendente, que em fevereiro de 1968, no início de um ano de agudas manifestações populares, que desejavam futuras mudanças políticas e sociais no Brasil (e no mundo), que um médico indo para a fase final de uma carreira bem-sucedida, se voltasse para o passado de sua vida.

 Com um estilo hiperbólico, artisticamente elegante e “por demais exuberante[13], Nava conseguiu traçar em sua narrativa, um amplo painel da cultura brasileira do século XX, incluindo tradições familiares e cultura popular. Monumental em seu escopo temporal (quase dois séculos), em suas dimensões físicas (três mil páginas), em sua riqueza vocabular, e principalmente em sua erudição, as memórias de Pedro Nava relatam não só as efemeridades de sua vida, mas também as suas reflexões sobre as circunstâncias históricas em que viveu.

Foto do Acervo Casa Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

E foi nesse emaranhado de reminiscências, que Nava promoveu um retorno temporal aos idos de 1918, quando o Brasil e o mundo, perplexos, sofreram as assustadoras calamidades da gripe espanhola. Seu eu-narrador, não só evocou as pessoas, os sofrimentos e as mortes, mas também a falta de orientação dos governos, das famílias e da própria medicina, para saírem do tortuoso labirinto que a influenza os conduziu.

Acompanhado de um riquíssimo vocabulário, o trabalho memorialístico de Nava, também revelou seu gosto pelo pormenor, com a preocupação de apresentar a complexidade das situações e das pessoas que viu sofrer, tornando “bem vivos os fatos, as situações, as personagens e suas atitudes[14].

O estudo que ora se inicia, está fundamentado no trecho que Pedro Nava destinou a gripe espanhola, no capítulo Rua Major Ávila, do livro Chão de ferro. Quanto a sua estrutura narrativa, a pesquisa seguiu o mesmo itinerário adotado por Nava: a chegada da doença, a velocidade de transmissão, os dramas sociais causados pela pandemia como a fome, a falta de remédios, a estafa dos médicos, o número de mortos, os cemitérios sobrecarregados, até a culminante descrição da tragédia familiar que ele sofreu quando a influenza bateu à porta de sua casa.

As expressões “gripe espanhola”, “influenza espanhola” ou simplesmente “espanhola” surgiram para designar a pandemia que assolou o mundo em 1918. Na época partiu-se da errônea suposição de que a Espanha fosse o berço da doença, ou de que ela tivesse sido o país com o maior número de vítimas no mundo. Hoje, porém, acredita-se que a moléstia tenha se desenvolvido na realidade, nos campos de treinamento militar no interior dos Estados Unidos[15].

No Brasil, as primeiras pessoas que caíram doentes e morreram de influenza foram as que fizeram parte da Missão Médica Brasileira[16], que seguia no navio La Plata para a Europa, a fim de prestar ajuda humanitária nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. O 1º tenente médico da Marinha, Mário Kröeff[17], descreveu em seu relatório de bordo os difíceis momentos em que a Missão enfrentou em seu itinerário rumo a França:

Ao sair de Dakar, mal o barco se fizera ao largo, foi ele de repente, infestado por um mal desconhecido, revelando logo o seu caráter epidêmico. Sentiram-se atacados de forma grave todos os membros de nossa comitiva, os tripulantes e os recrutas senegaleses, que vinham amontoados nos porões, desde o porto anterior. Em pouco o navio já se tornara hospital flutuante, lotado de gente sem diagnóstico, e sem tratamento…[18]

Principiando seu relato a partir daí, Pedro Nava fez uma narração inicial quase cronológica, sobre a gênese da doença entre nós: a saída do La Plata para a Europa (18/08), a infecção dos tripulantes em Serra Leoa (29/08), o sepultamento marítimo dos primeiros mortos (09/09), a chegada ao Rio de Janeiro do navio Demerara com enfermos a bordo (14/09), o envio dos primeiros telegramas do La Plata informando sobre a enfermidade (22/09), o comunicado oficial da presença de influenza entre os membros da Missão (27/09), a criação de um serviço de assistência domiciliar e de socorro a população (30/09), a chegada da embarcação Royal Transport repleta de contaminados, e a adoção oficial das medidas de “profilaxia indiscriminada” nos portos de todo o país (03/10)[19].

         Avançando em sua narrativa, Nava informa que

as providências das autoridades abriram os olhos do povo e [a] este se explicou certas anomalias que vinham sendo observadas na vida urbana; tráfego rareado, cidade vazia e meio morta, casas de diversão pouco cheias, conduções sempre fáceis, as regatas, as partidas de water-polo e futebol quase sem assistentes, as corridas do Derby e do Jockey com os aficionados reduzidos ao terço[20].

Nava admite que só percebeu a existência do “troço”, em uma segunda-feira de meados do mês de outubro, quando ao chegar no colégio, encontrou apenas onze alunos dos quarenta e seis de sua turma de terceiro ano. Relata que no mesmo dia, às duas horas da tarde, o chefe de disciplina interrompeu a aula que assistia, e após trocar algumas palavras com seu professor, declarou que as demais aulas também estavam suspensas. Conta que em seguida, ele orientou a todos os alunos para que voltassem para as suas casas “o mais depressa possível” e “que não [nos] demorássemos na rua” [21]. Por último, informou que, a partir daquele dia, o colégio permaneceria fechado por tempo indefinido.

No mês de setembro de 1918, a cidade do Rio de Janeiro, possuía uma população estimada em 910.710 habitantes, sendo que 697.543 eram moradores da zona urbana e 213.167 dos subúrbios e da zona rural. Segundo estimativas oficiais, a espanhola matou em torno de 15.000 pessoas, dentre os cerca de 600.000 infectados que fez, ou seja 66% da população municipal foi atingida por ela[22].

Rapidamente, o Rio se tornou um vasto hospital, vendo-se a beira de um colapso. A velocidade de contágio fora extremamente rápida, pois o período de incubação era curto, deixando um elevado número de contaminados letais. Os sintomas eram variados, desde uma simples zoeira nos ouvidos, até surdez, cefaleias, hipertermia simples com “calafrios, hemorragias, urinas, vômitos sanguíneos acompanhados por ‘perturbações nos nervos cardíacos, infecções nos intestinos, pulmões e meninges’”[23].

Sobre a velocidade da transmissão, Nava afirma que

era apavorante a rapidez com que ela ia da invasão ao apogeu, em poucas horas, levando a vítima às sufocações, às diarreias, às dores lancinantes, ao letargo, ao coma, à uremia, à sincope e à morte em algumas horas ou poucos dias. Aterrava a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas[24].

Na tentativa de diminuir a transmissão do vírus, o Serviço Sanitário publicou nos principais jornais do país, uma série de anúncios batizados de “conselhos ao povo”, com as seguintes orientações:

Evitar aglomerações, principalmente à noite. Não fazer visitas. Tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta: inalações de vaselina mentolada, gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras. Tomar, como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigramas por dia, e de preferência no momento das refeições. Evitar toda a fadiga ou excesso físico. O doente, aos primeiros sintomas, deve ir para a cama, pois o repouso auxilia a cura e afasta as complicações e contágio. Não deve receber, absolutamente, nenhuma visita. Evitar as causas de resfriamento, é de necessidade tanto para os sãos, como para os doentes e os convalescentes. Às pessoas idosas devem aplicar-se com mais rigor ainda todos esses cuidados[25].

Porém, segundo Nava, com o passar do tempo, o “espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes e impossibilitados de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva[26].

Os jornais denunciavam também a escassez de alimentos, com relatos de ataques aos armazéns, as padarias e as vendas. Grupos de “esfaimados e convalescentes esquálidos, roubando e tossindode famílias inteiras desamparadas[27], enquanto se comentavam dos privilégios da “classe alta e do Governo”, onde poucos eram atingidos pela pandemia.

Diante da possível descrença de algum de seus leitores sobre o que estava narrando, Nava pergunta: “Seria verdade?” Mas, como testemunha da História, ele responde:

Era. Posso testemunhar contando o que passei, o que passamos, na casa em que estava — pura e simplesmente fome. Conheci essa companheira pardacenta. Lembro que depois de um dia de pirão de farinha, de outro engambelado com restos de cerveja, vinho, licores e azeite — do alvorecer do terceiro, sem café da manhã nem nada…[28]

Defronte da morosidade do Governo Federal na administração da crise sanitária, o preço dos alimentos e dos remédios foram inflacionados e superfaturados. A situação passou a ser encarada pela opinião pública, como fruto do descaso, da negligência e da incompetência do presidente Wenceslau Brás[29], e do seu diretor de saúde pública Carlos Seidl[30]. Ambos passaram a ser acusados abertamente de não possuírem uma estratégia de ação para combater a pandemia. “O grau de desorganização a que foi submetida a cidade, impedindo o prosseguimento de sua vida normal, foi usado pela imprensa, levando [os dois, a uma] grande perda de poder social e político[31].

Como resultado desse desgaste, no dia 17 de outubro Seidl pediu em vão a censura dos jornais, e no dia 18 o país assistiu a sua substituição por Carlos Chagas[32], que no dizer de Nava, “fez as únicas coisas possíveis na emergência: dotar a cidade do maior número de leitos para os desamparados[33].

A medicina, em busca de uma resposta para a moléstia, viu seus profissionais se dividirem em uma heterogeneidade de diagnósticos. Na verdade, a sabedoria médica se viu impotente para solucionar a crise sanitária que a desafiava. Segundo Nava, sem um conhecimento aprofundado da fisiopatologia da influenza espanhola, os médicos receitavam codeína (para a dor), terpina (para a expectoração), benzoato de sódio (para a higienização), pós de Dower (para a febre), poção alcoólica de Todd (para a tonificação)[34] e o quinino (para quase tudo).

A quantidade de quinino[35], que se tornou o rei dos medicamentos durante a pandemia, logo passou a ser controlada com maior rigidez, devido ao uso abusivo dessa substância pela população enferma. Muitos “utilizavam altas doses, ocorrendo assim desmaios em plena rua, sendo muitas pessoas confundidas com mortos, e levadas para serem sepultadas ainda vivas, conforme relatos estarrecedores difundidos como verdadeiras lendas urbanas, durante e após a epidemia gripal[36].

A desconfiança da população frente à medicina acadêmica oficial, fez com que ela procurasse as suas próprias soluções para a moléstia. Pedro Nava registra que, a fraqueza muscular e “os colapsos eram tratados a essência de canela, óleo canforado, cafeína… Ou então, com o velho álcool: champanha, vinho do Porto ou a alternância, cada duas horas — ora dum copázio de leite, ora duma palangana [tigela grande] de grog [bebida alcoólica quente feita à base de rum, água e açúcar] [37]. Ocorre, contudo, que muitos médicos se utilizavam dessas mesmas práticas populares de cura.

Percebe-se assim, que em 1918 não houve a predominância de uma prática terapêutica oficial ou popular, mas que “no ápice da epidemia as duas falas tornaram-se aliadas para o tratamento da população[38].

            Pedro Nava, porém, observa que,

fórmulas industriais bestas fizeram verdadeiras fortunas. Os jornais proclamavam as excelências do Contratosse e do Quinium Labarraque. Na busca de uma medicação eficaz, de um preventivo que valesse, apelou-se até para a vacinação jenneriana [vacina contra a varíola]![39]

Durante a pandemia, portanto, se desenvolveu um comércio lucrativo, com a divulgação em jornais de remédios próprios para outras enfermidades, mas indicados como se fossem também adequados para a influenza.

A lógica que dirigia o discurso propagandístico era ditada antes pela busca do lucro do que pela prevenção e cura dos gripados, daí a incorporação nos anúncios tanto do ideário médico oficial quanto o da medicina popular, na expectativa de maximalizar a venda dos produtos apresentados… O que geralmente ocorria era a adaptação de antigos anúncios às necessidades surgidas com a gripe espanhola, procedendo-se à atualização do discurso propagandístico e a consequente redefinição ou extensão das propriedades terapêuticas dos produtos anunciados. Somente a partir dessa operação, que tinha como objetivo seduzir o receptor da mensagem, é que se tornou viável o anúncio como específico para o combate da Influenza de drogas como o Maleitosan que tanto a marca de venda quanto décadas de propagandização haviam popularizado como um remédio próprio para o combate à malária[40].

Os remédios foram tão disputados quanto os alimentos, mas, na opinião crítica de Pedro Nava, a sua falta não agravou muito a situação dos enfermos, pois levando-se em consideração os tratamentos oferecidos pela medicina da época, ninguém sabia direito o que receitar para combater a espanhola.

         Aos olhos da população, está situação de despreparo estava cada vez mais clara, visto que ela percebia que não havia por parte do governo, uma estratégia para socorrer os doentes. Essa falta de condições das instituições de saúde, já era há muito, de conhecimento geral do público, mas, com a pandemia se tornaram ainda mais escancaradas, ululantes e revoltantes.

Os hospitais e as repartições de saúde pública do Rio de Janeiro, funcionavam em uma situação muito precária, mas não somente para os enfermos. Os médicos também tinham sua cota de problemas e sacrifícios pessoais.

Os doutores viviam exaustos. Começavam às cinco da manhã e varavam o dia examinando, receitando, comendo do que havia nos armários dos doentes, entravam trabalhando noite adentro e chegavam em casa meia-noite, uma da madrugada[41].

Como se pode ver no gráfico a seguir, em realidade as verbas destinadas a saúde pública decresciam no país desde 1914.

Gráfico 1

Fonte: Preparado pelos autores, 2020[42].

Percebe-se claramente a falta de compromisso por parte do Governo Federal em relação a saúde pública. Em 1918, o orçamento previsto de 50:000$000, foi insuficiente, pois só no primeiro semestre foi gasto o valor de 66:418$974[43], ou seja, quando a pandemia chegou em setembro, o orçamento já estava estourado.

Segundo o testemunho de Nelson Antônio Freire, contemporâneo de Nava, “a assistência pública não servia para nada, era apenas figurativa. Caso alguém passasse mal no meio da rua ficava dependendo ou da ajuda dos transeuntes, ou passava a vergonha de ser socorrido ou pelo camburão da brigada policial, ou pelo rabecão de alguma funerária[44].

Diante desse cenário, lentamente, as ruas da “cidade maravilhosa” se transformaram em um mar de cadáveres insepultos, pois não havia coveiros suficientes para enterrar todos corpos, como também não havia caixões em número satisfatório para todos os féretros. Nunca se tinha visto tanta violência viral a um só tempo. De uma maneira cirúrgica, Nava também aponta a falência do serviço funerário da capital federal:

As funerárias não davam vazão — havia falta de caixões. Quando ataúde havia, não tinha quem os transportasse e eles iam para o cemitério à mão, de burro sem rabo, arrastados, ou atravessados nos táxis. No fim os corpos iam em caminhões, misturados uns aos outros, diziam que às vezes vivos, junto com os mortos. Havia troca de cadáveres podres por mais frescos, cada qual querendo se ver livre do ente querido que começava a inchar, a empestar[45].

Freire, do mesmo modo, testemunhou em suas lembranças, o impacto psicossocial que a pandemia significou para aquela geração:

Foi uma coisa pavorosa! … O pior de tudo é que estava morrendo gente aos borbotões, e o governo dizia nas ruas e nas folhas, que a gripe era benigna. Certo dia, as folhas noticiaram mais de quinhentos óbitos, e mesmo assim a gripe era benigna, benigna, benigna. As mortes eram tantas que não se dava conta do sepultamento dos corpos.

O serviço [funerário] era lento, e aí tinha hora que o ar começava a empestear; os corpos começavam a inchar e apodrecer. Muitos começaram a jogar os cadáveres em via pública. Quando a assistência pública vinha recolher os cadáveres, havia trocas dos podres por mais frescos, era um cenário mefistofélico…. Na minha rua, da janela, se via um oceano de cadáveres[46].

Para tentar sanar o déficit do número de coveiros, foram contratados sepulteiros amadores (com salários vantajosos), e também recrutados detentos do sistema prisional. Sobre a conduta dos presidiários, boatos alarmantes eram divulgados diuturnamente, aterrorizando ainda mais a população. De acordo com Nava,

descreviam-se os criminosos cortando dedos aos cadáveres, rasgando-lhes as orelhas para roubar os brincos, os anéis, as medalhas e os cordões que tinham sido esquecidos. Às moças mortas, arrancavam as capelas e levantavam as mortalhas para ver as partes. Que curravam as mais frescas antes de enterrá-las…. Referia-se que, se no meio de monturo de mortos aparecia algum agonizante mandado por engano, acabavam-no a golpes de pá na cabeça ou mais simplesmente, enterravam-no vivo… ou queimaram-nos aos montões nos fundos do cemitério[47].

Pedro Nava encerra seu relato sobre naqueles dias de 1918, contando as agruras pessoais pelas quais passou, bem como a tragédia familiar que vivenciou, daquilo que por um tempo foi chamado pelo governo de um “simples resfriado” benigno[48].

Descreve com aflição sua contaminação pela influenza, a febre, o quinino e a dieta absoluta, que consistiu de água e chá o dia inteiro, com direito apenas a “um copo de leite bem açucarado e engrossado com araruta”. Foram dias de alucinações, suor, vômitos e de muita diarreia.

Após sua recuperação, surpreso, tomou conhecimento de que sua prima Nair, que morava na mesma casa que ele, estava esquálida, agonizante… extinguindo-se como um pôr do sol.

A porta da Nair estava aberta, parei, olhei e fiquei aterrado. Não era a moça radiosa que eu conhecia. Aquela pessoa discreta que não gargalhava e que apenas sorria; que não alteava a voz, que cochichava, …; a pele de camélia, os lábios de pétala vermelha, os cabelos prodigiosos – tudo mudara e era como se eu a visse outra, como se outro ente, outra coisa, uma espécie de demônio estivesse entaipado dentro dela…, tomada da influência, seus cabelos tinham perdido o brilho e o suor colava-os às têmporas escavadas; os olhos brilhavam, mas como brasa, da vermelhidão do que fora o seu branco e estavam estranhamente desviados, como num estrabismo; tinha as pálpebras inchadas, as narinas inchadas, as maçãs do rosto carmesins e contrastando com a palidez da testa, do contorno da boca e dos lábios gretados e de cor azulada… Doce moça, repousa em paz[49].

Pedro Nava encerrou aqui seu curto relato sobre a gripe espanhola de 1918. Ao longo de sua expressiva narração, burilou mais frases de assombro do que de indignação ou revolta. Em contida comoção, como testemunha da história, procurou talvez, sensibilizar e advertir as futuras gerações, sobre os horrores do passado que assistiu, para que eles não voltassem a ocorrer novamente.

Entretanto, pelo que se percebe pelos noticiários de hoje, parece que os fantasmas de 1918, não assustaram suficientemente os vivos de 2020-2021. Porém, “aqueles dias, …, ninguém que os tenha vivido poderá jamais esquecê-los[50].

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NOTAS:

[1] Francisco Carlos Ribeiro é Doutor em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Pesquisador do Núcleo de Estudos de História Social da Cidade (Nehsc) da PUC-SP.

[2] Olga Brites é Doutora em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Professora do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

[3] MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Editora Cultrix, 2004, p. 46-47, 83-84, 121-122, 279-280.

[4] GEDOZ, Sueli; COSTA-HUBES, Terezinha da Conceição. A leitura do gênero discursivo memórias literárias a partir de um olhar bakhtiniano. Signum: estudos da linguagem, Londrina, v. 13, n. 2, 2010, p. 264.

[5] SILVA, Sheila dos S. Memorialismo: ficção, história, literatura. Alfenas: Revista (Entre Parênteses), vol. 2, nº 5, 2016, p. 11.

[6] MOISÉS, Massaud. Idem, p. 280.

[7] NERUDA, Pablo. Confesso que vivi. São Paulo: Círculo do Livro, s/d, p.7.

[8] SILVA, Sheila dos S. Idem, p. 14.

[9] LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Ed. UNICAMP, 1996, p. 109.

[10] FERREIRA, Elenice Silva. A memória como objeto de análise e como fonte de pesquisa em História da Educação: uma abordagem epistemológica. Revista Binacional Brasil-Argentina: Diálogos Entre às Ciências, v. 4, 2015, p. 22.

[11] Seu poema O defunto foi incluído por Manuel Bandeira na Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos, publicado no Rio de Janeiro, por Zélio Valverde, em 1946.

[12] AGUIAR, Joaquim A. Espaços da memória: um estudo sobre Pedro Nava. São Paulo: Edusp, 1998, p. 15.

[13] Idem, p. 30.

[14] MARTINS, Nilce Sant’Anna. Aspectos estilísticos de Chão de ferro (Memórias/3), Pedro Nava. Língua e Literatura, vol. 5, 1976, p. 336.

[15] GOULART, Adriana C. Idem, p. 155.

[16] A Missão Médica Brasileira, era formada por 10 diretores de serviço na categoria de tenente-coronel; 20 chefes de enfermaria no grau de capitão, 29 médicos na classe de 1º tenente; 8 auxiliares como 2° tenentes e 15 doutorandos na mesma patente; uma delegação do corpo de saúde do Exército com 5 representantes e outra da Marinha com 6 oficiais; e com um contingente de 31 soldados.

[17] Mário Kröeff(1891-1983) foi pioneiro no combate ao câncer no Brasil. Fundou o Centro de Cancerologia (1938), a Associação Brasileira de Assistência aos Cancerosos (1939), o Serviço Nacional de Câncer (1941), um hospital e asilo para cancerosos, que mais tarde se tornou o Hospital Mário Kröeff (1944) e a Sociedade Brasileira de Cancerologia (1946).

[18] GURGEL, Cristina B. F. M. 1918: A missão médica brasileira na Europa. Boletim da FCM. Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, vol. 9, nº 7, fev. 2014, p. 1.

[19] NAVA, Pedro. Chão de ferro. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 97-98.

[20] NAVA, Pedro. Idem, p. 98.

[21] NAVA, Pedro. Ibidem, p. 98.

[22] GOULART, Adriana C. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 12, jan-abr, 2005, p. 105.

[23] GOULART, Adriana C. Idem, p. 108.

[24] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 99.

[25] BERTUCCI-MARTINS, Liane Maria. Entre doutores e para leigos: fragmentos do discurso médico na influenza de 1918. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, vol. 12, jan-abr, 2005, p. 146.

[26] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 99.

[27] Idem, p. 99.

[28] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 99.

[29] Wenceslau Brás (1868-1966) foi o 9º presidente do Brasil entre 1914 e 1918. Seu mandato foi marcado pelo fim da Guerra do Contestado (1912-1916), a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as Greves Operárias de 1917 e a pandemia da Gripe Espanhola em 1918.

[30] Carlos Seidl (1867-1929) é considerado um dos mais eminentes sanitaristas brasileiros. Foi Diretor Geral de Saúde Pública (Ministro da Saúde) entre 1912 e 1918, pedindo demissão do cargo por ocasião da Gripe Espanhola. No livro A propósito da pandemia de 1918: fatos e argumentos irrespondíveis (1919), ele narra suas experiências pessoais e os problemas que enfrentou durante a pandemia de influenza.

[31] GOULART, Adriana C. Ibidem, p. 120.

[32] Carlos Chagas (1878-1934) foi um médico sanitarista que se destacou com a descoberta do protozoário Trypanosoma cruzi e pela Tripanossomíase americana (conhecida como Doença de Chagas). Durante a gripe espanhola ele e sua família ficaram doentes, mas como diretor de Saúde Pública criou um serviço especial de 27 postos de atendimento à população, e mais 5 hospitais de campanha.

[33] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 99.

[34] Poção de Todd é uma mistura de 5 g de tintura de canela, 40 g de aguardente, 30 g de xarope simples e 75 g de água.

[35] Quinino (C20H24N2O2) é um alcaloide que tem funções antitérmicas, antimaláricas e analgésicas. Ele é extraído da quina, e consiste em um pó branco, inodoro e de gosto amargo, é uma substância utilizada no tratamento de malária e arritmias cardíacas.

[36] DAMACENA NETO, Leandro C. A “medicina popular” durante a epidemia de gripe espanhola de 1918 no município de São Paulo. Arquivo Público do Estado de São Paulo. Revista Histórica Online, vol. 22, 2007, p. 3.

[37] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 99.

[38] DAMACENA NETO, Leandro C. Idem, p. 2.

[39] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 99.

[40] BERTOLLI FILHO, Cláudio. A gripe espanhola em São Paulo: epidemia e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p.162-163.

[41] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 99.

[42] Os valores estão em milhões de contos de réis. Ver: GOULART, Adriana C. Op. cit., p. 136.

[43] GOULART, Adriana C. Op. cit., p. 136.

[44] Idem, p. 106.

[45] NAVA, Pedro. Op. cit., p.100.

[46] GOULART, Adriana C. Op. cit., p. 109.

[47] NAVA, Pedro. Op. cit., p. 100.

[48] Idem, p. 98.

[49] Ibidem, p. 102.

[50] Ibidem, p. 100.

Ariadna Tucma Revista Latinoamericana. Nº 13/14. Marzo 2019 – Diciembre 2022

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