Mobilidade social e repressão: um imigrante árabe na política regional

Um estudo de caso no interior de São Paulo, Brasil*

Maria Nicolau**

Na cidade do interior de São João da Boa Vista, São Paulo, pretendo pontuar a atmosfera da história, essa que Chartier nos diz: “que é a poeira das percepções”. [1]

 

O protagonista dessa história é o senhor Miguel Jorge Nicolau, que trilhou caminhos entre o público e o privado, cuja família de imigrantes árabe-libaneses chegou ao Brasil em abril de 1910.

 

Miguel Namen, seu sogro, partiu da cidade de Trípoli, no Líbano, em busca de um lugar para plantar, além de produtos agrícolas, seus ideais políticos. Queria um lugar onde não sofresse mais a intolerância dos poderosos, como acontecia em sua terra natal.

 

Santo do Pinhal e São João da Boa Vista, Miguel Namen começou uma nova história que, como a de muitas outras famílias imigrantes, transformou para sempre a agricultura e a história nacional.

 

A importância dessa família na politica nacional teve inicio desde a vinda dos pais de Miguel Jorge, que se casaram e vieram para o Brasil, e em seguida a vinda do sogro. Jorge Nicolau nasceu em 20 de maio de 1893 e casou-se com Maria Namen, do mesmo lugar, uma aldeia de Kalhat, Trípoli, Líbano, em 27 de fevereiro de 1894. Eles tinham 15 e 16 anos, respectivamente, quando vieram para o Brasil.

 

 

Foto da Família Nicolau. Ano 1923.  Acervo pessoal de Maria Nicolau. (Miguel Jorge Nicolau é o primeiro da esquerda para a direita)

 

O Brasil foi seu porto seguro. Em Santo Antônio do Jardim, cidade das videiras, localizada entre Espírito

 

Ao aportarem em terras brasileiras tornaram-se partícipes da “imigração em cadeia (…) responsável por enormes parcelas de imigração síria e libanesa (…), irmão puxando irmão, filhos, primos, pais, tios avós, conterrâneos, conhecidos, (…)” [2] que chegavam ao país naqueles anos. Tal aventura começara a partir dos relatos do sogro, ou seja, “haviam imigrado com base em decisões razoavelmente bem informadas a respeito de aonde ir, onde encontrar trabalho, e que tipo de trabalho os esperaria (…)”. [3]

 

Após passarem pelos trâmites burocráticos na Casa do Imigrante, dirigiram-se, primeiramente, para Santo Antônio do Jardim, e em seguida, para o interior do estado de São Paulo, uma pequena cidade denominada São João da Boa Vista, onde se estabeleceram.

 

Primeiro moraram no porão de uma padaria e dormiam no borralho [4] muito próximo ao forno. Quando o bebê com seu choro feriu o ar pela primeira vez em 20 de maio de 1911 foi nessa padaria cujo nome era Maximina, dentre o cheiro dos pães assados e do ar abafado daquele porão. Nascia o personagem cuja vida é aqui analisada e fez parte da política regional e foi reprimido, e, que recebeu o nome de Miguel Jorge Nicolau.

 

Após cinco meses, a pequena família se mudou para uma pequena casa de esquina, situada na avenida principal da cidade, onde viveram por 76 anos. Quando se mudaram, o fizeram por questões de conterraneidade, passando a estreitar as relações com familiares já instalados na vizinhança, compondo assim laços de solidariedade cuja economia familiar tornava-se forte, garantia a preservação de sua cultura de origem e resultava, pelo enriquecimento econômico, na inserção social em uma sociedade altamente conservadora, como era a de pequenas cidades provincianas do interior do Brasil.

 

O senhor Jorge abriu um negócio comercial, pequeno, e logo se iniciou nas lidas citadinas enquanto mascateava produtos trazidos do Líbano, importados de outros países ou confeccionados nas fábricas que começavam a ser instaladas na região. Depois de economizar bastante dinheiro e com muitos relacionamentos consolidados por sua rotina de mascate, comprou terras, exercendo também a atividade de lavrador. A montagem de um armazém o liberou da atividade de mascatear, passando assim a se dedicar também ao comércio.

 

Com isto adentrou a dois ramos da economia a produção agrária e o comércio na cidade, enquanto mantinha o quotidiano da vida centrado na família, compondo assim uma base estável e sólida de fixação na nova terra. Não por acaso, conforme afirma o historiador, como muitos outros imigrantes libaneses, dispunham de uma “loja na frente e casa nos fundos”.[5]

 

“Pelas características do negócio de que dependiam para viver, eram praticamente forçados a se socializar, a entrar em contato com as pessoas de uma rua, de um bairro, de um povoado, de uma região rural do interior do Brasil”. [6]

 

A vinda de outros parentes e conterrâneos ampliava a possibilidade de crescerem junto ao núcleo familiar, compondo assim o que se denomina uma colônia de estrangeiros, no caso uma colônia libanesa. Um perto do outro, casas vizinhas, a proximidade cujos laços de solidariedade lhes possibilitavam constituir minorias étnicas com forte inserção social decorrente do rápido enriquecimento econômico e das atividades comerciais que os punha em contato direto com um publico diverso do da comunidade de origem.

 

Quando o primogênito da família completa cinco anos de idade a família já possuía não mais uma pequena propriedade rural, mas uma fazenda, com muitos hectares e, além de uma pequena leiteria, possuíam o armazém, “Flor de Maio”, cuja loja ficava na frente da moradia, sediada nos fundos do mesmo prédio.

 

Apesar da pouca idade o filho Miguel trabalhava na loja, ora ajudando a mãe, ora o pai. Era um “moleque” que trabalhava sobre um caixote para alcançar o balcão e poder atender os fregueses.

 

“Era uma loja de roupa, de cereais, cada parte era uma coisa… Trabalhava lá o Miguel, ele era molequinho ainda e arrumava um caixãozinho para ele subir porque ele não alcançava o balcão, para trabalhar e ajudar. E a dona Maria, fazia tudo, coitada…, ela lavava, ela passava, ela cozinhava, ela trabalhava no balcão, e a família dela morava no Santo Antônio do Jardim.” [7]

 

Em 1923, já rapaz, o vemos assumindo com o pai o gerenciamento da fazenda que haviam adquirido, localizada no sul de Minas Gerais, região circunvizinha ao Vale do Ribeira, núcleo de várias outras fazendas situadas na fronteira e que compunham o núcleo principal da riqueza do país: o gado e o café. Foi desta região, composta pelo interior de São Paulo com o sudeste mineiro que emergiram os principais líderes políticos que dominaram o cenário nacional no período denominado pela historiografia brasileira de primeira república e cuja política ficou conhecida como “café com leite”.

 

Dos oito aos doze anos de idade, Miguel trabalhou muito e dormia muito pouco Se olharmos atentamente a foto que inicia este artigo, podemos observar na expressão facial do menino Miguel, o olhar cansado. Conforme ressalta Chris Orwig, “na fotografia de pessoas, primeiro somos atraídos pelo rosto. Um contato visual, honesto e autêntico cria uma conexão e faz com que o observador olhe uma vez, e então olhe novamente”. [8]

 

Já na pré-adolescência, com seus 12 anos de idade, Miguel era um rapaz alto, ereto, em cujo rosto se inscrevia sobrancelhas negras, com um nariz afilado, bochechas avermelhadas pelo clima da região do sul de Minas, onde trabalhava. Contudo, em seu rosto estava estampado o traço principal dessa labuta sem fim, e, sob as olheiras do cansaço, o olhar determinado.

 

Quem o conheceu naquela época viu seus primeiros passos de transição do campo da Fazenda “Boa Esperança” para a urbanidade de São João da Boa Vista. É nesse contexto que se situa a época em que a fotografia acima foi tirada e que reproduzimos aqui enquanto fonte que nos possibilita “fazer reviver os personagens do passado (…) nas fotografias, assim como trazer um significado àqueles cenários do passado” [9], conforme propõe Kossoy. [10]

 

Tal foto, tirada em um estúdio, conforme era comum na época, nos retrata, não apenas uma família da década de 1920, mas as características da imigração, o trabalho e a sobrevivência destes personagens, seus valores e aspirações. É, portanto, a expressão do “anjo da história”, citado por Walter Benjamin, “seu rosto está dirigido para o passado”.[11]

 

Um sentimento de nostalgia nos invade ao contemplarmos um pedaço de vida que nos diz respeito, como afirma o autor:

 

(…) “quando contemplamos aquelas fotos guardadas, de pessoas queridas, ou nossas próprias fotografias do passado, essa contemplação de um pedaço de vida que nos diz respeito e que foi desperta em nós uma emoção por um reviver de algo que nos pertence. (…) instala-se em nós um conflito irresolvível e angustiante: ao mesmo tempo em que a fotografia do passado nos torna acessível uma parte de nós mesmos, onde, pela emoção, temos acesso ao que foi ela torna-nos presente a experiência dolorosa do irrecuperável. Neste sentido, o convívio prazeroso com essas imagens é mesclado com um sentimento de impotência perante uma finitude: é o prazer e a dor que são vividos simultaneamente, a vida de um passado que se torna presente, a morte de um passado que não volta mais. [12]

 

É importante ressaltar que o “passado que não volta mais” pode ser recuperado, pode ser narrado, pode ser contado, pois no oficio do historiador temos essa possibilidade, conforme apontada por Benjamin [13], embora eivadas de subjetividade.

 

Mesmo sem o elo emocional entre as imagens e seu receptor, a subjetividade não pode ser negada, é algo inerente à realidade humana, conforme aponta Kossoy:

 

(…) “paisagens, cenários ou personagens com os quais não tivemos contato, que nos são estranhos, nós vamos trazê-los à vida para entendermos quem foram essas pessoas e o que representam esses cenários. [...] nesta procura de significado mais profundo, está presente, de alguma maneira, um compromisso subjetivo (e emocional), mesmo que os recursos usados para a interpretação sejam dados objetivos. [14]

 

Mas o que a foto não revela é o fato de que Miguel não era apenas um trabalhador da roça. Obteve também formação técnica e contábil, além de outros cursos de administração, a que se acresciam os conhecimentos adquiridos de sua vivência enquanto comerciante na loja de seu pai. Uma das entrevistas, sua parente, assim se refere a esta trajetória de Miguel:

 

“(…) Ele progrediu e ele fez muito. O seu pai abriu um armazém na fazenda, lá em cima do óleo. Trabalhou 4 a 5 anos lá. Ele matava porco, vendia toucinho e vendia os produtos, vendia a mercadoria, trabalhou muito o seu pai (…)”. [15]

 

PTB em São João da Boa Vista

 

O ano de 1937, em que Miguel assiste e vivencia a instauração do Estado Novo e se inicia na vida política, desde que seu pai, o senhor Jorge, ao alimentar como também passa exigir do trabalho suado de Miguel, na roça, na loja e demais lugares. A demanda também tem reflexos no comercio, na lavoura e na agricultura. Posteriormente como contador, é que seu perfil com a política vai se desdobrar [16].

 

O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) é o partido com o qual Miguel vai se identificar e realizar o seu exercício político. Fundado em 15 de maio de 1945, tinha como uma das bandeiras de seu ideário defender o capital nacional com uma agenda favorável ao desenvolvimento do trabalho, o que, segundo tal ideário, correspondia às aspirações da população [17].

 

A principal função social que o PTB cumpriu naquele período, conforme a historiografia aponta, foi por um lado, quebrar a hegemonia do Partido Comunista Brasileiro (PCB) sobre os operários e os trabalhadores em geral. Por outro, contrapor-se à tradicional União Democrática Nacional (UDN) que surgira em 1945 [18] e que aglutinava amplos setores das oligarquias agrárias mais conservadoras do país. A UDN surgiu originalmente como uma frente, ou seja, arregimentava um grande grupo de políticos unidos pela oposição ao regime do Estado Novo de Getúlio Vargas e a toda e qualquer doutrina originária de seu governo [19].

 

A ligação desse descendente de árabes com o PTB levanta suspeita dos fazendeiros tradicionais da região, os antigos coronéis e donos de amplas glebas de terras mineiras e paulistas. Tais personagens, pertencentes à oligarquia rural e alguns dos quais são udenistas, também o desconsideram por questões culturais: “afinal quem era aquele filho de imigrantes turcos e, ainda mais, trabalhador da roça?”, para reproduzirmos uma expressão muito comum naqueles idos de 1950 que, embora fosse também fazendeiro, ficava do lado dos trabalhadores?

 

São esses trabalhadores que vão ocupar o papel de protagonistas, considerando-se suas reivindicações que expressavam as contraposições com a dos fazendeiros que os exploravam.

 

No ano de 1941 tais reivindicações se multiplicavam em decorrência dos salários mal pagos, sem assistência médica ou qualquer outro direito. A não aplicação dos preceitos da Legislação Trabalhista (CLT) era obstada por vários fatores. Um deles diz respeito a um aspecto cultural, pois muitos dos donos das fábricas eram integrantes das oligarquias rurais cuja mentalidade escravocrata considerava tais direitos um absurdo. Estes tinham ainda em sua memória o preceito de que, ao contratarem um trabalhador estavam lhe fazendo um favor, tirando-o da rua e da indigência e, portanto, não precisavam pagar nada a ele. Pelo contrário, o devedor era o assalariado. O fato da CLT não ser extensiva aos trabalhadores do campo, contribuía como mais um incentivo a tal arbítrio.

 

A trajetória de vida de Miguel parece ter sido o que o impulsionou a se engajar com mais tenacidade na defesa dos trabalhadores e não na luta que expressava a mentalidade e os interesses dos donos das terras, das fábricas e do poder político na região.

 

Em seu armazém, onde de tudo se vendia, também constavam os produtos básicos para os trabalhadores, principalmente o arroz. Com a inflação galopante daquele período, o custo do saco desta mercadoria acabava por ficar inacessível aos trabalhadores. Assim, Miguel o vendia por um preço que não incorporava a inflação do mês. As fotos abaixo são um exemplo da fila que se formava mensalmente para a aquisição do arroz e de outras mercadorias conforme se pode ver na foto acima e na de baixo. Era o arroz mais barato da cidade, ao custo de 7,20. O fato de ser também o dono da fazenda que as produzia eliminava o custo do intermediário.

 

Em 1944, já com 33 anos de idade, bem amadurecido e informado, e se relacionando com os grupos políticos de São João da Boa Vista, ele inicia sua vida política propriamente dita. No ano seguinte, o país entrava na era pós Vargas com uma democracia instituída, depois de 15 anos de ditadura.  Nos anos anteriores, Miguel havia construído uma relação política sólida e de amizade com Getúlio Vargas e quando este se candidata à presidência novamente, passa a apoiá-lo, fundando o primeiro diretório do partido PTB em São João da Boa Vista[20].

 

Quando assume a presidência do PTB getulista em São João da Boa Vista ele tinha 35 anos.

 

 

O local em que as reuniões deste partido ocorriam era o prédio de sua propriedade. Tal prédio funcionava também como sede de muitas outras organizações e instituições.

 

 

Quem hoje passa pelo majestoso edifício “Flamboyant”,[21] situado na Praça Coronel Joaquim José, numero 176, não imagina a história daquele lugar. Hoje o prédio serve de residência para 14 famílias sanjoanenses. Um dia foi o quartel general de muitas políticas e eventos sociais. Neste endereço havia ensaios da banda municipal, funcionava a Escola de Comércio, além de servir como entreposto comercial para a venda de alimentos a preços populares.

 

O Edifício “Flamboyant” foi um dia a sede do PTB. Um partido que levantou bandeiras sociais e populares e serviu de referência para a história de São João da Boa Vista, além de dar as diretrizes para vários dos objetivos alcançados pelo senhor Miguel Jorge na política. Deste prédio também floresceram orientações políticas para o Brasil e aos brasileiros, a partir do momento em que Miguel foi eleito deputado estadual por tal legenda. Por isso, sinto orgulho do “Flamboyant”. Um dia, o antigo prédio do PTB representou uma semente popular [22].

 

 

No entanto, o fato de atrair multidões de trabalhadores à porta de seu prédio, ou recebendo doações de alimento, ou comprando o arroz mais barato da cidade, tornaram este filho de imigrantes turcos, fazendeiro, comerciante e recém-ingresso na política, alvo de vigilância das forças repressivas que o colocou como suspeito de atividades comunistas, como expressava um relatório de um agente do DOPS:

 

(…) Miguel Jorge Nicolau, conseguiu também por intermédio da C.O.F.A.P. e da C.O.A.P., o arroz que é vendido ao preço de Cr $ 8,00 (oito cruzeiros) por quilo, distribuição ou venda, que é somente feita aos Associados das três associações, (…), duas vezes por semana, (…), sendo que dentro de poucos dias, ainda será vendido a preços reduzido e da mesma maneira que o arroz, o tecido popular, feijão e outras cousas. Com a atitude tomada por Miguel Jorge Nicolau, na venda do arroz, obriga a também a Prefeitura a vender no Mercado Municipal arroz ao preço de Cr$ 8,00 por quilo (…) [23].

 

Tal suspeita se acentua quando ele funda, nos primeiros anos da década de 1950, o jornal que serviu para veicular a legenda do PTB que fora fundado em 15 de maio de 1945, no sobradinho do salão de barbeiro na Praça Tiradentes, localizado no Rio de Janeiro, nos informa Maria Victoria Benevides [24]. Esta o considera um partido “novo”, fora do esquema oligárquico e capaz de aglutinar as novas forças sociais, surgido do impulso da industrialização, com o aparecimento do operário urbano e os sindicatos. Cumpria também a função de se contrapor à “ameaça comunista” sobre o proletariado.

 

Benevides ainda nos aponta que o PTB foi “a inspiração histórica declarada era o Partido Trabalhista Inglês” [25] e era também a atração por ser o “partido de Getúlio”, pai dos pobres.

 

A suspeição de que Miguel era subversivo não passou despercebido de seus colegas de legenda e nem dos companheiros na Assembleia legislativa do Estado, onde Miguel tinha cadeira após ser eleito deputado estadual. O debate que se instaura expressa as posições de classe e os antagonismos sociais. Enquanto alguns de seus pares saem em sua defesa, pois tais acusações significariam a cassação de seu mandato, sua expulsão da vida pública e, provavelmente, sua prisão, outros a aproveitam para atacarem o PTB de forma geral.

 

A defesa dos acusados e do próprio partido precisava ser pública e ir diretamente aos acusadores, já que não cabia processo formal para garantir tal direito aos acusados.

 

A oportunidade ocorre em 1954 quando autores políticas de alto escalão compareceram ao ato de criação do Instituto da Aposentadoria e Pensões dos Comerciários (IAPC). O então presidente deste instituto preside a nova comissão de sua reestruturação e nada mais do que a filha do falecido Getúlio Vargas, a então deputada federal, declara que o PTB se firma como (…) vanguarda das reivindicações populares, dedicando-se predominantemente à politização popular (…) e que a legenda está a disposição dos líderes operários (…). Por outro lado, o deputado

 

“Herbert Levy – fiel à sua cruzada antigetulista – afirma que (…) dirigente operário Miguel Jorge Nicolau, do PTB de São João da Boa Vista, tem ficha de “simpatizante comunista”, nos registros do DOPS (…). O vigilante udenista chega a afirmar que com o PTB, “marchamos para a sindicalização peronista” (ACD, 16.2.1954)” [26].

 

Tal contexto transparece também nas notícias do jornal O Município, através do qual Miguel divulga sua defesa, através do jornalista que o coordena. Este jornal existia na cidade desde os anos 40, cujo proprietário, Walter Luhmann, o vendeu em 1956 para um grupo, composto por Miguel Jorge Nicolau, Durval Nicolau que era irmão de Miguel, Ito Amorim, jornalista, Hélio Correa da Fonseca, chefe de redação, Wilson Gomes, José Lopes e Manuel Assunção Ribeiro; esses dois, vereadores pelo PTB. Em 1962, Miguel, já no parlamento, como deputado estadual, compra dos demais sócios as quotas tornando-se o único proprietário.

 

Tal jornal serviu, no período de 1956 até 1964, de veiculo partidário para a construção de sua hegemonia política pessoal e para a do partido, o PTB. Pode ser tomado “como expressão de interesses sociais, buscando identificar esses interesses, os interlocutores a que se dirige o tratamento dispensado aos temas em pauta, e a articulação entre eles”, e eu diria ainda como expressão do debate político quando havia processos eleitorais.

 

Aí abundam notícias a respeito deste líder trabalhista, representante da região no Estado, assim como sobre sua atuação na cidade de São João e como era visto pelos udenistas.

 

Assim, quando Herbert Levy, um udenista da região, inicia uma campanha para impugnar a candidatura de Miguel a deputado, a refutação a tais acusações é feita através do jornal. A propaganda difamatória e a pecha de comunismo eram o mote das acusações capitaneadas pelos udenistas e assim o jornal O Município as contesta

 

Quando Miguel Jorge Nicolau que tanto vem trabalhando pela sua terra natal conseguiu trazer arroz para ser vendido aos trabalhadores por 7,20 e 8,20, suavizando assim a angústia de centenas de lares, a Herbert Levy não teve consideração alguma com os trabalhadores beneficiados. Da tribuna da Câmara Federal, atacou violentamente o amigo do povo que é Miguel Jorge Nicolau e o fornecimento daquele alimento. Na hora de votar, o trabalhador e o sanjoanense, recuzará a célula que contiver o nome do inimigo dos trabalhadores: Herbert Levy, ainda para sua maior condenação elemento da udn.[27]

 

A querela se estende por meses, conforme se denota da leitura do jornal, particularmente em sua coluna “Notas a Margem”, assinada pelo jornalista, Wilson Gomes.

 

(…) não nos atemorizam processos e ameaças de vingança. Vinte anos de imprensa e já enfrentamos barreiras difíceis, mas nunca nos afastamos da verdade e da lealdade. Perseguir e processar são sempre o que nos oferecem os que combatem a liberdade de imprensa e de opinião, (…) no caso do processo de impugnação do registro desse cidadão (Miguel Jorge, grifo meu), afirmou que ao partido do Sr. Levy só interessava atingir o sanjoanense. Arrisque-se o Sr. Herbert Levy a processar-nos e provaremos, sem olvidar os que arrombam cofres (…) [28].

 

A dimensão política de tal discussão se observa também quando da instalação de uma agencia do IAPI em São João da Boa Vista, para a qual compareceu novamente a filha de Vargas, a deputada federal Ivete Vargas, que ressalta, em seus discursos, a atuação de Miguel na prefeitura.

 

(…) foi inaugurada (…) a agencia local do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários, (…) servir esta região, trata-se de mais uma conquista do atual prefeito (…) com a presença do senhor Ministro do Trabalho e da deputada Ivete Vargas [29].

 

Em 1958 o PTB já contava com seis deputados estaduais eleitos, sendo que três deles pertenciam ao que Ivete Vargas identificava como a “ala extrema nacionalista” (Miguel Jorge, Rocha Filho e Luciano Lepera), que apoiavam na época a campanha presidencial pelo PTB,[30] cujo candidato João Goulart. Destes seis, Miguel foi o terceiro mais votado, com 7782 votos[31].

 

O Município como veículo partidário do PTB.

 

O jornal O Município contribuiu para a formação da opinião pública que transformou o PTB em partido hegemônico na cidade de São João, além de veicular o pensamento de seus proprietários. Ou seja, conforme diz a teoria, tal jornal foi, de fato e deve ser tomado como “expressão de interesses sociais, buscando identificar esses interesses, os interlocutores a que se dirigem, o tratamento dispensado aos temas em pauta e a articulação entre eles.” [32]

 

É possível desvendar o papel da imprensa no que diz respeito às relações sociais, na medida em que “essa imprensa veicula idéias, conceitos, propostas que são engendradas pela práxis social dos grupos cujos interesses defendem constituindo-se, ela própria, numa dessas práticas”.[33] Nesse sentido, diz Khoury, “a importância da imprensa para a pesquisa histórica se amplia consideravelmente” [34].

 

“pelo seu caráter de formadora de opinião, sendo a imprensa, porta-voz de interesses muito objetivos de classes sociais (…), ela procura formular para toda a sociedade uma determinada visão de mundo (…), no esforço de mobilizar a opinião pública em torno de seus diferentes projetos políticos (…)” [35].

 

Ou seja, o jornal O Município, “como qualquer documento foi produzido em circunstâncias históricas definidas”[36] e segue uma historicidade que implica em trazer para uma conjuntura e problemática que se investiga, os desdobramentos teóricos e metodológicos, articulando a análise no campo das lutas sociais. Nesse caso o jornal de propriedade de Miguel Jorge Nicolau expressa a linguagem constitutiva do social, sua historia social no sentido mais amplo, por exemplo, dos movimentos políticos e sociais, as conjunturas e processos econômicos, e os movimentos culturais em torno dos quais a imprensa se articula.

 

Era um jornal [37] publicado semanalmente, com uma periodicidade anual e em suas páginas se observa que era também um porta-voz dos trabalhadores e da sociedade civil. A coluna fixa era assinada por Wilson Gomes “Notas a Margem” que pertencia ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e expressava a opinião do jornal.

 

Sua tiragem não se restringia à cidade de São João, circulando pela região, incluindo as cidades de: Aguaí, Águas da Prata, Espírito Santo do Pinhal e Santo Antônio do Jardim, daí sua fundamental importância na consolidação da trajetória política desse descendente de árabes.

 

FONTES:

 

“NOTAS A MARGEM”. Jornal “O Município”, São João da Boa Vista, 22 de setembro de 1954, n º 3179, primeira página.

 

É INAUGURADA UMA AGENCIA DO IAPI. Jornal “O Município”, em São João da Boa Vista, 7 de setembro de 1957, n º 3455, primeira página.

 

‘PÍLULAS POLÍTICAS’ Jornal “O Município, em. São João da Boa Vista, 15 de agosto de 1954, nº3145, p.3.

 

“MORREU GETÚLIO VARGAS”. Jornal “O Município”, em São João da Boa Vista, 29 de agosto de 1954, nº3144, primeira página.

 

“FIAÇÃO E TECELAGEM SÃO JOÃO”. Jornal “O Município”, em São João da Boa Vista, 25 de dezembro de 1956, n º 3390 na seção 2.

 

“MENSAGEM AO POVO DE SÃO JOÃO”. Jornal “O Município”, em São João da Boa Vista, 31 de dezembro de 1956, n º 3891 p.3.

 

“ESTEVE NO RIO TRATANDO DO GRAVE PROBLEMA DA ENERGIA ELÉTRICA DESTA ZONA”, Jornal “O Município”, em São João da Boa Vista, 15 de agosto de 1956, nº 3355, primeira página.

 

NASSER & NICOLAU, Jornal “O Município”, em São João da Boa Vista, 31 de dezembro de 1956, nº 3891, p.3.

 

ENTREVISTA com Matilde Miguel Jacob pela autora do presente projeto, em 12 de janeiro de 2002.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

BENEVIDES, M. Victoria. O PTB e o trabalhismo. Partido e Sindicato em São Paulo: 1945 – 1964. Editora Brasiliense, 1989.

 

BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.

 

BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da história. In: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.

 

CEATEAU, Michel de. A Escrita da História. São Paulo: Forense Universitária, 2º edição, 2008.

 

CRUZ, Heloisa; PEIXOTO, M. Rosário da C., Na Oficina do Historiador: Conversas sobre História e Imprensa, em Revista Projeto História, São Paulo, nº 35, pp. 255 – 272. Dezembro 2007.

 

http://www.dhi.uem.br/publicacoesdhi/dialogos/volume01/vol6_mesa2.htm – Página da Universidade Estadual de Maringá – Departamento de História – Afinidades eletivas entre a União Democrática Nacional (UDN) e as Forças Armadas Brasileiras.

 

KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

 

LEITE, Miriam Moreira. Retratos de Família: Leitura da Fotografia Histórica.  São Paulo, FAPESP, 1993. 192 p.

 

NICOLAU, Maria. Anais Eletrônicos do 1º Congresso Internacional de História Regional Mercosul: integração e desencontros, em 28 a 30 de setembro de 2011, Passo Fundo, RS, pp. 1804 – 1809.

 

ORWIG, Chris. Poesia Visual: Um guia para inspiração e criatividade fotográfica.  Los Angeles, Alta Books Editora, 2010.

 

RELATÓRIO, 09-12-53. Aesp, setor Deops, nº 123.675. fls. 2.

 

TRUZZI, Oswaldo. Sírios e Libaneses. Narrativas de história e cultura. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005. Série Lazuli Imigrantes do Brasil.

 

VIEIRA, M.; PEIXOTO, Rosário; KULCSAR, Rosa; KHOURY, Yara A.; A Imprensa como fonte para a pesquisa histórica, Revista Projeto História, nº 3, São Paulo, PUC-SP, 1984 (pp. 47 – 54).

 

WILLIAMS, Raymond. Cultura. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

 

NOTAS

 

* El presente trabajo ha sido presentado en el Congreso Internacional de la Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC Internacional) “La formación de los Estados latinoamericanos y su papel en la historia del continente” realizado del 10 al 12 de octubre de 2011 en el Hotel Granados, Asunción, Paraguay, organizado por Repensar en la historia del Paraguay, Instituto de Estudios José Gaspar de Francia, Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe, Centro Cultural de la Cooperación “Floreal Gorini” (Argentina). Entidad Itaipú Binacional. Mesa: Vida cotidiana, mentalidades, identidad y diversidad y su reflejo en los Estados latinoamericanos y caribeños.

 

 

** Graduada em Letras Inglês, pela PUC-SP. Mestranda em Historia Social pela PUC-SP. Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior – CAPES (Modalidade II). Este artigo faz parte da pesquisa de mestrado em desenvolvimento no programa de pós-graduação PUC-SP, sob a orientação da professora doutora Vera Lúcia Vieira

 

[1] CERTEAU, Michel. A Escrita da História. São Paulo: Forense Universitária, 2ª edição, 2008, p.71.

[2] TRUZZI, Oswaldo. Sírios e Libaneses. Narrativas de história e cultura. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2005, 43. Série Lazuli Imigrantes do Brasil.

[3] TRUZZI, 2005, p. 44.

[4] Borralho = é um brasido coberto de cinzas que espalhava um calor insuportável do forno e ficava muito próximo ao local onde a família, por falta de opção, dormia.

[5] TRUZZI, 2005, p. 45.

[6] TRUZZI, 2005, p.46.

[7] Entrevista com Matilde Jorge Jacob concedida à autora desta pesquisa, em 12 de janeiro de 2002. A entrevistada tinha 85 anos, morava em São João da Boa Vista, era senhora da casa, trabalhava com culinária árabe, fazendo quibes, esfihas, langhbargim, e outros pratos para comércio em uma ‘Kiberia’, que funciona no mesmo endereço de sua residência, até hoje. Matilde era prima de Miguel, foi casada com Miguel Jacob Namen, teve quatro filhos: Nanhim, Nabih, Nege e Miguelzinho.

[8] ORWIG, Chris. Poesia Visual: Um guia para inspiração e criatividade fotográfica.  Los Angeles: Alta Books Editora, 2010.

[9] KOSSOY, 2002, p. 7.

[10] KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na Trama Fotográfica. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

[11] BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da história. In: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 226.

[12] KOSSOY, 2002, p. 10.

[13]BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.

[14] KOSSOY, 2002, p. 10-11.

[15] Entrevista com Matilde Jorge Jacob concedida à autora desta pesquisa, em 12 de janeiro de 2002.

[16] NICOLAU, Maria. Anais Eletrônicos do 1º Congresso Internacional de História Regional Mercosul: integração e desencontros, em 28 a 30 de setembro de 2011, Passo Fundo, RS, pp. 1804 – 1809.

[17] Ibidem.

[18] Será extinto em 27 de outubro de 1965, com o fechamento dos partidos e das organizações da sociedade civil durante a ditadura militar.

NOTA: somente esse item O PTB em São João da Boa Vista foi publicado nos Anais referidos acima.

[19] http://www.dhi.uem.br/publicacoesdhi/dialogos/volume01/vol6_mesa2.htm – Página da Universidade Estadual de Maringá – Departamento de História – Afinidades eletivas entre a União Democrática Nacional (UDN) e as Forças Armadas Brasileiras.

[20] NICOLAU, Maria, 2011, p. 1807.

[21] O ‘Flamboyant’ = flor que é encontrada nas árvores da praça e também em cidades praianas – pode sugerir as mais diversas divagações sobre significados: com o extravagante, o espalhafatoso, como seria a sua tradução da língua inglesa.

[22] NICOLAU, Maria, 2011, p. 1809.

[23] RELATÓRIO, 09-12-53. Aesp, setor Deops, nº 123.675. fls. 2.

[24] BENEVIDES, M. Victoria. O PTB e o trabalhismo. Partido e Sindicato em São Paulo: 1945 – 1964. Editora Brasiliense, 1989, pp. 42 -43.

[25] Idem, p. 42.

[26] Ibidem, p. 54.

[27] Jornal “O Município, em ‘Pílulas Políticas. São João da Boa Vista, 15 de agosto de 1954, nº3145, p.3.

[28] Jornal “O Município”, em “Notas a Margem”. São João da Boa Vista, 22 de setembro de 1954, n º 3179, primeira página.

[29] Jornal “O Município”, em É inaugurada uma agencia do IAPI. São João da Boa Vista, 7 de setembro de 1957, n º 3455, primeira página.

[30] BE NEVIDES, M. Victoria, p. 67.

[31] Ibidem, p. 78.

[32] VIEIRA, M.; PEIXOTO, Rosário; KULCSAR, Rosa; KHOURY, Yara A.; A Imprensa como fonte para a pesquisa histórica, Revista Projeto História, nº 3, São Paulo, PUC-SP, 1984 (pp. 47 – 54).

[33] Ibidem, p. 48.

[34] Ibidem, p. 48 – 49.

[35] Idem.

[36] Idem, p. 49.

[37] A análise a seguir segue a linha de roteiro de análise do artigo publicado por CRUZ, Heloisa; PEIXOTO, M. Rosário da C., Na Oficina do Historiador: Conversas sobre História e Imprensa, em Revista História, São Paulo, nº 35, pp. 255 – 272. Dezembro 2007.

 

Ariadna Tucma Revista Latinoamericana. Nº  7. Marzo 2012-Febrero 2013 – Volumen III


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