Imperialismo e Anticomunismo na América Latina

A Primeira Fase da Guerra Fria no Brasil*

Lilian Marta Grisolio Mendes**

 

El líder cubano Fidel Castro y el soviético Nikita Jrushov. Su acercamiento fue uno de los puntos más álgidos de la Guerra Fría durante la crisis de los misiles. (N.E.)\

Introdução

 

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o período de paz começara sob a o signo do medo. A partir daí, e durante muito tempo, prevaleceu o imaginário de perversos comunistas à espreita, espiões perigosos infiltrados e a ameaça constante da Terceira Guerra Mundial. Essa situação é resultado imediato do que havia ocorrido no desenrolar da guerra. Os Aliados representavam ao mesmo tempo as forças do capitalismo do Ocidente, defendido tanto pelos Estados Unidos como pela Inglaterra, e o socialismo soviético, caracterizado pelo stalinismo. Finda a guerra em 1945 inicia-se a passos largos o confronto entre inimigos outrora aliados. A união que aparentemente era harmônica, e visivelmente contraditória, apesar do combate ao mesmo inimigo, desapareceu rapidamente a partir das novas condições.

 

No Brasil, desde 1945, com o fim oficial da guerra, as transformações no cenário político eram evidentes. O então Presidente da República Getúlio Vargas, apesar de colaborar com os Aliados, desagradava cada vez mais Washington por suas atitudes consideradas nacionalistas. Até então, Vargas teve apoio estadunidense sem restrições, porém neste novo contexto Washington entendia que era mais adequado se distanciar do Brasil, isto é, não estabelecer uma atitude ativa de colaboração, até que o governo se adequasse aos novos tempos. De fato, é com certa agilidade, em 29 de outubro de 1945, que este processo se iniciava. Era dado um golpe que destituía Vargas do cargo.

El presidente brasileño Getulio Vargas


A chamada redemocratização, apesar das inúmeras contradições, foi percebida exclusivamente através da campanha para as eleições de 1945. Surgem novos partidos: o PSD (Partido Social Democrático) com muitos elementos do antigo governo; o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) ligado as organizações sindicais e trabalhadores urbanos; a UDN (União Democrática Nacional) formada basicamente por opositores do Vargas [1] e o PCB (Partido Comunista Brasileiro) que voltava da ilegalidade.

 

Os principais candidatos foram dois militares o General Eurico Gaspar Dutra, pelo PSD e Brigadeiro Eduardo Gomes pela UDN. Na campanha, Dutra assumia uma postura moderada de continuidade do governo Vargas em oposição aos comunistas. O próprio Vargas em negação a candidatura de Eduardo Gomes, seu opositor direto, pede ao PTB o voto no general.

 

Com o acordo entre PSD e PTB para alavancar a campanha de Dutra, ocorreu em dois de dezembro de 1945, as eleições à presidência que o elegeu com mais de 54% dos votos, contra 33% do candidato da UDN. Em terceiro lugar, sem campanha e candidato desconhecido ficou o candidato dos comunistas. O engenheiro Yedo Fiuza. Em 31 de janeiro de 1946, Dutra assume a Presidência da República. Representando mudança sem alteração da ordem.

 

Dutra fue presidente de Brasil tras derrocar a Vargas

Na mesma eleição, 320 parlamentares foram eleitos: 177 do PSD, 87 da UDN, 24 do PTB e 15 do PCB. É com esse cenário político que o PSD se aproxima da UDN oferecendo dois ministérios já evidenciando o avanço conservador.

 

Começava ali um governo conservador, com feições liberais, mergulhado em contradições e falsas expectativas em relação ao apoio que os Estados Unidos daria ao Brasil.   No início do governo Dutra, em 1946, o grande problema econômico das autoridades era com a inflação. A princípio existia uma crença generalizada na ajuda financeira direta dos Estados Unidos, que com o tempo começou a se transformar em decepção e frustração. De qualquer modo, o debate no país se pautava na indagação de quais os rumos da política econômica brasileira no pós-guerra. Essencialmente havia duas vertentes que disputavam o controle das orientações econômicas para o país.

 

Um dos projetos era defendido pelo industrial paulista Roberto Simonsen, a grosso modo, propugnava a colaboração e intervenção do Estado para alçar o capitalismo brasileiro e alcançar a industrialização. Assim, a solução estava menos no capital privado atuando livremente, e mais no capital público direcionado pelo Estado. Simonsen liderava o grupo que sugeria a criação de um Plano Marshall para a América Latina. Com a vinda do General Marshall ao Brasil, em 1947, o pedido para tal programa foi respondido com a afirmação de que o desenvolvimento da região se daria, diferentemente do europeu, com a colaboração entre os grupos privados e os cidadãos, ou seja, era preciso buscar o capital privado (FAUSTO, 2007, p. 85).

 

O outro projeto defendido por Eugenio Gudin, membro do Conselho Técnico de Economia e Finanças, em linhas gerais defendia uma economia liderada pela iniciativa privada que favorecesse a entrada de capital estrangeiro. Era opositor da proteção e de qualquer intervenção estatal, ou seja, menos regulamentação do mercado. Conforme Rosemary Thorp, University Reader em Economia da América Latina, “Gudin liderava uma sólida facção neoliberal, que embora não se opusesse a industrialização per se, era contrária firmemente à proteção”. (THORP, 2005, p. 99)

 

Conforme o economista Pedro Paulo Zahluth Bastos,

 

A liderança de Simonsen e Gudin em meio a seus pares, a importância dos temas tratados e a clareza de seus argumentos ajudariam a consolidar duas das matrizes ideológicas amplas que orientariam controvérsias na economia política do pós-guerra, sem constituir projetos acabados, mas em permanente reelaboração dentro de um quadro geral já antecipado naquela controvérsia: desenvolvimentistas vs. liberais, ou industrialistas vs. monetaristas”. (BASTOS, 2004, p.106, grifo nosso)

 

Com efeito, o governo Dutra depositou todas as suas cartas numa nova política econômica por parte dos EUA, de fato, inexistente. O tamanho da esperança desse convênio como “aliado especial” que resultaria em auxilio econômico, foi do mesmo tamanho da desilusão quando da percepção que o capital estrangeiro não chegaria como imaginado. Disto resultou que “as políticas acabaram por consolidar-se em torno de uma mistura infeliz das duas posições” (BASTOS, 2004, p.106), essencialmente por que a postura política pensada para este momento não condizia com a realidade do novo mundo capitalista. O mundo pós-guerra era perturbador.

 

 

Esse período entraria para história pelas reviravoltas econômicas, poucas atitudes práticas de resolução dos problemas financeiros internos e nenhuma concretização das esperanças de apoio estadunidense. Nas palavras de Gerson Moura um “alinhamento sem recompensa” (THORP, 2005, p. 126).

 

 

O fato é que a crença de que a solução dos problemas brasileiros estava na ajuda estadunidense gerou uma expectativa que se apresentava em forma de alinhamento ideológico e político. O governo Dutra entendia que o alinhamento político provaria o comprometimento do Brasil e isso traria os investimentos desejados.

 

 

Combater o comunismo, repreender as exigências dos movimentos operários e insistir na nova configuração democrática do país seriam atrativos perfeitos para os amigos estadunidenses. Evidentemente que esses elementos se aliam ao medo que a tradicional classe dominante brasileira tinha da crescente organização da classe trabalhadora, das greves e das reivindicações. Vale destacar dois pontos sobre essa questão.

 

 

Primeiro, ressaltar que por mais que houvesse essa interpretação do alinhamento em troca de investimento, esse interesse nunca existiu verdadeiramente por parte dos Estados Unidos que desde o fim da guerra se preocupou menos com a América Latina, e muito mais com os ganhos possíveis na reconstrução da Europa e com o imprescindível combate ao poder soviético.

 

 

Em segundo lugar, é válido lembrar que analisar esse período passa, necessariamente, pela compreensão do significado do anticomunismo na cultura política brasileira. O anticomunismo brasileiro foi marcado pelas influências estrangeiras, com destaque evidente para os Estados Unidos, entretanto, existiram situações singulares no Brasil que contribuíram para a construção de um imaginário próprio à dinâmica da política brasileira.

 

La Guerra Fría duró varias décadas. Aquí el presidente brasileño Kubitschek y el presidente estadounidense Kennedy durante la implementación de la Alianza para el Progreso. 1962. (N.E)

Com a Revolução de 1917, o anticomunismo é a reação imediata ao advento do bolchevismo. Os países capitalistas dedicaram todos os esforços no combate efetivo contra os comunistas, e no Brasil, país tradicionalmente consumidor de produtos e valores estrangeiros, não foi diferente. Em nosso país a divulgação negativa do comunismo começou pela imprensa que acompanhava a opinião dos jornais europeus, e mais diretamente, dos Estados Unidos.

 

 

Podemos apontar dois momentos distintos dessas influências no Brasil. Nas décadas de 20 e 30 havia uma forte inspiração do anticomunismo europeu, fundamentalmente o francês. Com as mudanças após a Segunda Guerra e a bipolarização mundial, a influência estadunidense se faz notar pela utilização em larga escala de autores considerados verdadeiros manuais do anticomunismo.

 

 

Assim, o “anticomunismo tornou-se uma tradição, em outras palavras, configurou-se como fenômeno estrutural” (MOTTA, 2002, p. 279). Nessa perspectiva, vale ressaltar o estudo de Leandro Konder sobre as distorções da teoria marxista no início do século no Brasil:

 

No começo dos anos 30, a ‘recepção’ das idéias de Marx no Brasil se realizava em condições marcadas por uma conjunção de diversos fatores extremamente adversos, desfavoráveis à compreensão dos aspectos mais dialéticos do pensamento da filosofia alemã”. (KONDER, 2009, p. 19)

 

 

Dessa forma, há muito o anticomunismo mobilizava as políticas públicas, instituições religiosas e a imprensa num combate ardente. Portanto, a sociedade brasileira a muito já havia aprendido a odiar e temer os comunistas.

 

 

 

O governo Dutra foi o receptor imediato das novas concepções e influência que as Forças Armadas, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, receberam do contato com a Doutrina de Segurança Nacional estadunidense. Depois da participação na guerra ocorreu um estreitamento dos laços entres os militares brasileiros e o exército dos Estados Unidos gerando uma aliança não apenas técnica de formação e métodos, como também ideológica.

 

É nesse contexto que ocorre uma reorganização militar no Brasil em consonância com o modelo estadunidense. “Criou-se um Estado-Maior das Forças Armadas, reorganizou-se o Ministério Guerra e criou-se a Escola Superior de Guerra – tudo dentro dos padrões norte-americanos” (MOURA, 1991, p. 67). Evidentemente que o novo governo do general Dutra não só fortaleceu o papel dos militares, como igualmente, a relação entre os exércitos dos dois países. (SODRÉ, 2010)

 

Identificamos que todo esse contexto político interno somado aos eventos internacionais, unido ainda, a tradicional postura anticomunista sempre existente no Brasil, intensificaram não apenas o discurso de ataques aos comunistas como ações políticas efetivas para o desaparecimento destes do cenário nacional.

 

Em 1947 o Brasil viveu uma sucessão de eventos que de maneira direta ou indireta culminou na consolidação de um tipo de discurso anticomunista que construirá as bases de justificativa da maior ruptura democrática do século XX, o golpe militar de 1964. O ajustamento do governo brasileiro aos interesses da maior potência mundial, que deliberadamente buscou o controle e a hegemonia no pós-guerra, não gerou os dividendos desejados, mas provocou o surgimento de uma nação que aprendeu a amar o American way of life.

 

A grande primeira inserção de peso do Brasil em 1947 foi a eleição de Osvaldo Aranha como Presidente do Conselho de Segurança da ONU em fevereiro de 1947. Aranha reconhecidamente um político, nas palavras de Moura, “campeão da causa americana” (MOURA, 1991, p. 62), enquanto chefiou o Itamaraty, de 1938 a 1944 teve melhor percepção dos interesses estadunidenses. Assim, apesar de seu alinhamento era bem realista sobre os reais interesses atrás das disputas internacionais. O famoso jornalista norte-americano Drew Pearson, escreveu uma coluna especial sobre o brasileiro Osvaldo Aranha tecendo os mais elogiosos adjetivos[2]. Essa coluna foi publicada também no Brasil pela prestigiada revista de Assis Chateaubriand, O Cruzeiro, em 03 de janeiro de 1948, e salientava:

 

“É provável que a média dos leitores de jornais não pense no ex-Ministro de Relações Exteriores do Brasil como ‘americano’, já que temos o mau hábito de julgar que só os norte-americanos são americanos. Mas não só Aranha é um grande americano – seja do norte ou do sul – como também é um dos maiores amigos dos Estados unidos. (…) A ONU, às vezes titubeante, saiu de todas as provas sempre mais forte e sólida graças ao fato de ter como timoneiro o hábil Aranha” (O Cruzeiro, 03. 01. 1948)

 

No entanto, Aranha protagonizou duas situações que evidenciavam as contradições de nossa política externa à época. Essa contradição pode ser explicada pelas discordâncias em relação ao comportamento do Brasil entre o conservador Raul Fernandes, chefe do Itamaraty e a delegação do Brasil na ONU.

 

A primeira situação é que Oswaldo Aranha será reeleito para a II Assembleia Geral, em setembro de 47, sem o voto da delegação brasileira. A segunda situação foi a substituição da Polônia no Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos que apoiava a Ucrânia mudou seu voto para a Índia. Oswaldo Aranha manteve seu voto na Ucrânia alegando não saber da mudança dos EUA. Essa ocorrência gerou indignação em Raul Fernandez que defendia a ideia de que deveríamos votar sempre com os Estados Unidos e absolutamente contra o bloco soviético, sem exceções. Foi acusado por Raul de “russófilo” e de violar as tradições diplomáticas do Brasil (BANDEIRA, 2007). Conforme citado por Muniz Bandeira, Aranha alegou:

 

“nunca demos um voto aos russos que não houvesse sido pedido pelos americanos e com eles combinado – justificou Aranha. E aduziu: Tornarmos (…) mais realistas que o rei seria uma impertinência” (BANDEIRA, 2007, p. 433).

 

 

Como veremos o conservadorismo do Dutra se apresentava para além das expectativas estadunidenses, e em diversos momentos, parafraseando Oswaldo Aranha, foi mais realista que o rei.

 

O festejado diplomata, em consequência dessa situação atribulada, não participará do importante encontro que se realizou no Rio de Janeiro entre agosto e setembro de 1947, A Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz e da Segurança que procurou resoluções a questões sobre a defesa do continente. Foi neste encontro que se assinou o TIAR – Tratado de Assistência Recíproca do Rio de Janeiro que regulamentava o chamado exercício da legítima defesa individual ou coletivo, conforme documento em que os países “concordam em que um ataque armado, por parte de qualquer Estado, contra um Estado Americano, será considerado como um ataque contra todos”.[3]

Este acordo é aqui apreendido como selamento da adesão oficial, apesar das inúmeras demonstrações de alinhamento e subserviência, a Guerra Fria. Para os Estados Unidos que neste momento tem suas atenções voltadas para a Europa e possível expansionismo russo, o TIAR representava uma política de cuidado para não perder o tradicional apoio latino americano. De fato, para os estadunidense não era significativo o interesse político e econômico em relação a América Latina. Porém perder o apoio, ou até mesmo, diminuir sua influência não seria adequado. O momento era de demonstração de força no cenário internacional.

 

Cabe aqui ressaltar que 35 anos mais tarde o TIAR se mostrou uma falácia do ponto de vista da união dos povos americanos em caso de agressão no episódio das Ilhas Malvinas. No confronto entre Argentina e Inglaterra, a falta de apoio dos Estados Unidos a favor da causa Argentina, comprovou que o TIAR era uma consolidação do poder de influência estadunidense durante a crescente bipolarização do mundo[4].

 

 

 

Para a sessão de encerramento o Presidente Truman chegou ao Brasil em setembro de 1947 recebido com honras e festejado pela imprensa. Talvez a boa recepção de Truman tenha começado a ser articulada muito antes disso. Mais exatamente no começo do ano, quando em maio de 1947, depois de muitas articulações políticas o PCB foi colocado novamente na ilegalidade.

 

O PCB, como já nos referimos alhures, sempre sofreu perseguição e rejeição. A Igreja Católica proclamava no Manifesto do Episcopado Brasileiro sobre a Ação Social: “A luta de classes é abominável aos olhos de Deus porque divide os homens sob o signo do ódio, da violência e da morte” (FAUSTO, 2007, p. 425). Na memória ainda recente o Levante de 1935 figurava como o melhor exemplo das intenções maléficas dos comunistas. Como veremos a estratégia de atacar o Levante de 35 foi bem eficaz, pois posteriormente – em 1947 – serviu de argumento para a cassação do Partido.

 

O PCB conseguiu burlar por algum tempo os ânimos exaltados. Sendo que nas palavras do ainda Ministro de Getúlio Vargas, General Dutra, em abril de 1945, teriam seus direitos garantidos desde que se mantivessem dentro dos preceitos políticos instaurados, alinhados a democracia, obedientes as autoridades e principalmente que abrissem mão dos processos revolucionários (REZENDE, 2006, p. 57).

 

Deste modo, em 23 de maio de 1945, o PCB era legalizado e deveria andar nos trilhos. E andou. Abrandou o discurso num momento de crise intensa na política brasileira, numa clara estratégia de autopreservação. E alinhado com as orientações do Partido Internacional, controlado pelos stalinistas, aderiu aos princípios de que o partido deve dirigir e não ser dirigido pelas massas. Assim, com prudência, apoiando a “democracia” conseguiu permanecer no cenário político mesmo após o golpe contra Vargas e participar das eleições de dezembro de 45.

 

Para angariar fundos para a campanha realizou-se em São Paulo um jogo amistoso entre Corinthians e Palmeiras com renda destinada ao MUT (Movimento Unificador dos Trabalhadores). O MUT foi criado em abril de 45 pelo PCB como uma organização intersindical para todo o Brasil. “Seus dirigentes eram membros do PCB, e era comum o MUT realizar arrecadação de fundos em eventos do partido”,[5] afirma Aldo Rabelo que escreveu a obra Palmeiras versus Corinthians – 1945: O Jogo Vermelho. O jogo aconteceu no Pacaembu, em 13 de outubro de 1945, arrecadou CR$ 114.464,00 e terminou com o placar de 3 a 1 para o Palmeiras. Nesta eleição Luís Carlos Prestes foi eleito senador e mais 14 deputados.

 

Em 1946, o PCB possuía oito jornais diários, duas editoras e seu principal jornal em circulação no Rio de Janeiro vendia cerca de 30 mil exemplares, um fenômeno para a época. Possuía cerca de 200 mil filiados. Com o tempo aumentou a aproximação com os movimentos dos trabalhadores, ao mesmo tempo em que o cenário internacional começou a mudar.  Internamente começam a eclodir greves e o PCB passou apoia-las o que deu início a grandes desentendimentos na Assembleia Constituinte. O inicio da repressão foi marcado pelo fechamento de sedes do partido. Em resposta, o Partido organizou uma festa em comemoração a um ano de legalidade ocorrida no Rio de janeiro em maio de 1946. No mesmo ano começaram a ser exonerados funcionários do governo e do exército que tivessem qualquer ligação com o Partido.

 

Em abril de 1947, foi aberta a sessão no Tribunal Superior Eleitoral que deliberou por três votos contra dois a cassação do PCB. Em 10 de maio de 1947, foi formalizada a obrigatoriedade da extinção das atividades do Partido Comunista no Brasil. Logo surgiu a pressão para uma posição clara do governo sobre a questão dos mandatos dos políticos comunistas. Em junho do mesmo ano, o PSD pediu para que o TSE se pronunciasse em relação aos mandatos. O objetivo era cassar os representantes eleitos no último pleito. No entanto, o TSE entendeu que não havia nada na Constituição que desse poder a entidade para tomar tal decisão criando um embate que se arrastaria por meses.

 

Entrementes, outra batalha se formava agora nas relações diplomáticas do Brasil com a URSS. Com relações rompidas desde 1917, o Brasil se vê obrigado a restabelecer o diálogo em vista do seu interesse de estar nas mesas de negociação após a Segunda Guerra ao lado dos Aliados. Assim, após 28 anos da revolução bolchevique o Brasil passava a reconhecer a URSS. Para os Estados Unidos era importante a presença de mais um aliado fiel nas mesas de negociação e por isso intermediam a retomada das relações. Mario Pimentel Brandão, político conservador do Estado Novo, foi enviado a Moscou em junho de 46 e ficou conhecido pelas suas reclamações sobre Moscou que considerava um lugar imundo e atrasado.

 

Em nenhum momento, desde o reestabelecimento das relações diplomáticas, houve qualquer demonstração de vontade política real que possamos encontrar nos documentos. O Brasil não chegou a ter sede própria e nem mesmo um intérprete da língua russa.  No Brasil, igualmente o embaixador soviético, Jacob Suritz, reclamava da falta de atenção dispensada a ele.

A visão restrita e eivada de preconceitos em relação aos russos fez com que o Brasil não conseguisse nem vislumbrar possibilidades de ganhos, nem diplomáticos e nem tão pouco comerciais. De fato, a retomada das relações em 1945 entre Brasil e URSS pode ser entendida no máximo como uma acaso das circunstâncias, mais especificamente os interesses que uniam o Brasil aos Estados Unidos após a guerra.

 

A verdade é que em nenhum momento o governo e os responsáveis pela política externa brasileira estiveram imbuídos de tal tarefa, muito pelo contrário, a visão de que os comunistas eram seres ardilosos e violentos, prontos para dar o bote, como no Levante de 35, nunca desapareceu. Depois de inúmeros episódios de acusações, embates e denúncias, ocorreu a piora das relações entre os dois países, impulsionada ainda mais com a cassação do Partido Comunista.

 

A imprensa russa começa uma ofensiva contra o governo brasileiro. Em 10 de outubro de 1947, o embaixador brasileiro encaminha ao governo soviético uma exigência de retratação. A resposta negativa gerou a confortável condição de rompimento das relações diplomáticas em 21 de outubro de 1947. Assim, após 16 meses da reestabelecimento desconfortável das relações diplomáticas com a URSS o Brasil retomava a sua tradicional condição anticomunista.  A grande ironia deste episódio foi o fato de que os Estados Unidos foram contrários a esse rompimento, alegando que ataques ao presidente estadunidense por parte da imprensa eram absolutamente normais e jamais considerados motivos suficientes para desencadear problemas diplomáticos. Assim, em 1947, ano em que a Guerra Fria estava sendo construída, o Brasil se antecipou aos demais países.

 

Nesse ínterim, as ações para a cassação dos parlamentares comunistas era ferrenha. Depois de longa batalha que durou meses, em 7 de janeiro de 1948, por 169 votos a favor e 74 contra, formalizava-se a cassação dos mandatos dos representantes eleitos do Poder Legislativo. Após a resolução da extinção dos mandatos, no último dia de sessão, Gregório Bezerra, já cassado, pronunciou seu último discurso onde acusava o governo Dutra de incompetência por achar que o problema do Brasil seria resolvido combatendo comunistas. Destarte, a política do governo Dutra foi marcada pelo conservadorismo extremado. Suas ações foram pautadas pela necessidade de afastar o perigo vermelho. Essa ameaça russa foi a justificativa que balizou a cassação do PCB, dos seus representantes e o rompimento com a URSS. É válido dizer que o governo Dutra colocou o discurso anticomunista já existente no Brasil em consonância com o modelo estadunidense daquela nova fase, a Guerra Fria.

 

Concordamos com a constatação de Motta que O anticomunismo não precisava ser importado dos Estados Unidos, ele já existia previamente e possuía aderentes inflamados” (MOTTA, 2007, p. 236). O que acrescentamos nessa assertiva, é que a partir de 1947, ocorreu uma reinvenção do anticomunismo brasileiro que tomou feições mais americanizadas, sem, no entanto perder suas características. Entra em conformidade com uma espécie de modelo ideológico que perduraria por toda Guerra Fria.

 

Comunistas que articulam tomar os meios de comunicação para dominar o cidadão comum criam mecanismo de infiltração nos lares, comunistas ateus infiéis, sem valores cristãos, portanto perversos e cruéis, comunistas sedutores que usam de artimanhas para penetrar na consciência dos cidadãos. Tudo isso parece um discurso exacerbado e fantasioso. Concedia aos comunistas poderes especiais como de um super-herói do mal, é claro. Em contrapartida, a acusação de que existiu uma orquestração no combate ao comunismo, comandada pelos Estados Unidos também são taxadas de exageradas. No entanto, são inúmeras evidências da existência de um modelo político e ideológico encontrado em diferentes esferas nas nações alinhadas ao capitalismo estadunidense para combater o perigo vermelho.

 

No Brasil, elaborou-se um aparato institucional, demonstrando uma enorme capacidade de organização no combate ao comunismo, que utilizava as informações rapidamente trazidas dos Estados Unidos para servir como base de ação. Foi o caso da criação de um serviço que mantinha as autoridades brasileiras constantemente atualizadas com informações sobre as atividades comunistas nos Estados Unidos (VALIM, 2006, p. 132).

 

Igualmente podemos observar esse modelo ideológico nos filmes aterrorizantes e de demonização dos comunistas transformando-os em perigosos vampiros ou alienígenas, como nos filmes hollywoodianos O Planeta Vermelho ou Vampiro de Almas. Os exemplos citados anteriormente nos fornecem bons argumentos do modo de atuação em que se opera a penetração da política imperialista e o anticomunismo no início da Guerra Fria no Brasil.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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VALIM, Alexandre Busko. Imagens Vigiadas: Um a história social do cinema no alvorecer da Guerra Fria (1945-1954), Universidade Federal Fluminense. Niterói. RJ. Tese Doutorado. 2006.

 

NOTAS

* El presente trabajo ha sido presentado en el Congreso Internacional de la Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC Internacional) “La formación de los Estados latinoamericanos y su papel en la historia del continente” realizado del 10 al 12 de octubre de 2011 en el Hotel Granados, Asunción, Paraguay, organizado por Repensar en la historia del Paraguay, Instituto de Estudios José Gaspar de Francia, Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe, Centro Cultural de la Cooperación “Floreal Gorini” (Argentina). Entidad Itaipú Binacional. Mesa: Movilidad social y construcciones institucionales: consideraciones en torno al saldo histórico de los estados latinoamericanos y caribeños .

**Doutora em História Social pela PUC-SP, Professora do curso de História, Sociedade e Cultura –  Lato Sensu da PUC-SP e UNIBAN. Atualmente desenvolve pesquisa sobre o americanismo no  Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura (POLITHICULT/CNPq – PUC-SP).

[1] A UDN surgiu como uma frente ampla de oposição contra o Estado Novo, fundada em abril de 1945. Segundo Maria Victória Benevides “(…) formou, plasmou e reuniu os diversos grupos que se comporiam no partido da ‘eterna vigilância’ (…) um movimento agregador das mais diferentes tendências políticas e raízes históricas. (…) Estes podem ser situados em cinco categorias, que não serão rígidas ou exaustivas, mas que indicam, tão proximamente quanto possível, as origens, as posições e as alianças: As oligarquias destronadas com a revolução de 30; Os antigos aliados de Getúlio, marginalizados depois de 30 ou em 37; Os que participaram do Estado Novo e se afastaram antes de 45; Os grupos liberais com uma forte identificação regional e As esquerdas”. Cf. BENEVIDES, 1981. Acrescentamos ainda que alguns nomes que aderiram a UDN são inteligíveis se não compreendido no complexo jogo político do fim do Estado Novo. Assim, é o caso da adesão de Arthur Bernardes, Adhemar de Barros, João Mangabeira ou de Oswaldo Aranha todos que de alguma maneira participaram do movimento que formatou a UDN.

 

[2] PEARSON, D. Desordens comunistas no Brasil. O Cruzeiro, v. I, 03 jan. 1948, p. 24.

 

[3] Disponível no site do Ministério das Relações Exteriores em http://www2.mre.gov.br/dai/home.htm

 

[4] Cabe ainda destacar que no ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, o então Ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, proferiu o seguinte discurso invocando o TIAR na XXIV Reunião dos Ministros das Relações Exteriores da OEA : Estamos todos confrontados com uma ameaça direta à segurança hemisférica. Não se trata apenas de externar condolências ou oferecer palavras de consolo a um país amigo por eventos trágicos. Os Estados Unidos da América não foram os únicos a sofrer com os ataques terroristas do dia 11 de setembro. Todos nos sentimos atacados. Todos fomos atingidos. O mundo não é o mesmo desde aquela manhã de terça-feira. Nosso hemisfério não é mais o mesmo. Com amplo respaldo dos demais Estados-partes, meu país, o Brasil, tomou a iniciativa de invocar o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca porque a excepcional gravidade dos ataques, e a discussão de seus desdobramentos, justificam o recurso ao nosso mecanismo hemisférico de segurança coletiva”. Disponível em:http://www2.mre.gov.br/dai/home.htm. Entretanto há um consenso entre especialistas que o chamado TIAR, desde a Guerra das Malvinas entre Argentina e Inglaterra, mostrou sua inoperância e fragilidade frente aos interesses das potências mundiais.

 

[5] Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/esporte/ult92u726236.shtml

 

N.E. Nota de la Editora.

 

Ariadna Tucma Revista Latinoamericana. Nº . 7. Marzo 2012-Febrero 2013 – Volumen I

 

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