A “Folha de São Paulo” e a realidade social venezuelana:

Um nítido descompasso*

 

Tiago Santos Salgado**

Trabajadoras de fábrica textil. Caracas. Venezuela. Foto: Carolina Crisorio

A Venezuela nos últimos anos é, sem dúvida, o país que mais chama atenção no continente latino-americano, não apenas pela sua importância no continente – localização estratégica e portadora de grande riqueza natural, especialmente o petróleo – mas pelo cenário conturbado enfrentado pelo país nas últimas duas décadas, que possibilitou a chegada do ex-tenente coronel Hugo Chávez ao cargo de presidente da República no ano de 1998 e dando início a chamada “Revolução Bolivariana”. Assim, o presente texto tem como objetivo analisar como o jornal brasileiro “Folha de São Paulo” interpretou os eventos entre os anos de 2002-2005 no país caribenho, os quais se definem por um golpe de Estado, mobilizações populares, greves, referendo revocatório e uma grande mobilização ideológica por meio da imprensa venezuelana, que assumiu uma postura claramente oposicionista ao governo Chávez, se alinhando às forças que derrubaram o presidente durante 48 horas no ano de 2002. Neste sentido, buscaremos avaliar como a “Folha de São Paulo” assumiu os argumentos da oposição em sua cobertura na tentativa de formar a opinião pública no Brasil sobre o presidente Hugo Chávez, de sua “Revolução Bolivariana” e sobre a realidade social venezuelana.

 

Faz-se necessário, então, entender como se deu o processo que levou Hugo Chávez ao poder, ponderando sobre acontecimentos do país nas últimas décadas, quando este se encontrava politicamente dominado por uma coalizão entre dois partidos políticos que por quarenta anos revezaram-se no poder. Esta coalizão, intitulada “Pacto de Punto Fijo”, derrubou a ditadura do General Perez Jimenez em 1958 com a intenção de articular e acomodar as diferenças das forças políticas dominantes, principalmente entre os partidos Acción Democrática (AD) e Comité de Organización Política Electoral Independiente (COPEI). Para Gilberto Maringoni, o pacto pode ser definido como:

 

“O pacto representou um jeito de acomodar na partilha do poder, as diversas frações da classe dominante, incluindo aí o capital financeiro, as empresas de petróleo, a cúpula do movimento sindical, a Igreja e as Forças Armadas. Além disso, esforçava-se por definir uma democracia liberal simpática aos Estados Unidos” (MARINGONI, 2009, p.61)

 

Portanto, os rumos políticos e econômicos tomados pelo país durante todo o período “puntofujista” foram norteados pelos interesses desta classe dirigente, que controlou o Estado venezuelano privilegiada pelo alto preço do petróleo na década de 1970, que, ainda, articulado com o capital financeiro internacional, geraram recursos para uma série de modernizações no país. No entanto, com as crises sofridas pelos países latino-americanos nas décadas de 1980 e 1990, o modelo implantado no fim dos anos de 1950 não conseguiu se sustentar frente a diversas manifestações, em especial uma grande onda de protestos em decorrência de um acordo firmado em 1989, pelo então presidente Andrés Perez, com o Fundo Monetário Internacional[1], com a intenção de atenuar os efeitos da crise, que ficou conhecida como Caracazo, quando “Caracas e as principais cidades venezuelanas foram palco de uma imensa rebelião social” (MARINGONI, 2010, p.293).

 

Esta situação deixa evidente o caráter de dominação de classe assumido pelo Estado que, apesar da grande quantidade de lucros obtidos durante a década de 1970, não conseguiu socializar a riqueza, ficando esta restrita a uma pequena parcela da população. Assim, nos parece útil citar Marx, quando o mesmo, na obra “Guerra Civil na França”, desenha o caráter do Estado moderno:

 

“(…) o poder do Estado foi assumindo cada vez mais o caráter de poder nacional do capital sobre o trabalho, de uma força pública organizada para a escravidão social, de uma máquina de despotismo de classe (…)” (MARX, 2011, p.55)

 

Desse modo, o sistema político venezuelano, diante dessas crises, não conseguiu se sustentar frente às pressões e insatisfações populares, resultando, então, na vitória presidencial de Hugo Chávez em 1998. Este inicia a chamada “Revolução Bolivariana” e, pela primeira vez em mais de quatro décadas coloca a “elite venezuelana” na condição de oposição ao poder governista.

 

“Todo el mundo está más o menos de acuerdo em que, em sus orígenes, el chavismo es la expresión de la crisis política del régimen bipartidista que gobernó Venezuela entre 1958 y 1998 y de la enorme deuda social acumulada” (UPERY, 2008,p.103)

 

Muitas das análises feitas pela “Folha de São Paulo” em relação ao governo chavista faziam distinção entre as forças pró e contrárias ao governo, e as posições adotadas pelo jornal expressam uma ideologia marcadamente favorável aos argumentos da oposição, contribuindo assim para formar uma opinião publica no Brasil no mesmo teor. No entanto, para entendermos como a realidade social se desenhou na Venezuela e como esta foi retratada pelo jornal brasileiro é necessário alguns esclarecimentos em relação aos atores sociais naquele país.

 

A polarização da sociedade venezuelana, após a vitória de Hugo Chávez, passou a ser reconhecida como chavistas e antichavistas. Este cenário se tornou mais claro e chegou ao ápice no ano de 2002, quando as forças da oposição deram um golpe de Estado que retirou o presidente do palácio de Miraflores por quarenta e oito horas. Para a historiadora e socióloga Margarita Lopez Maya, esta polarização se configurava como uma disputa pela hegemonia politica entre dois atores políticos que portavam projetos políticos distintos:

 

“Venezuela ha experimentado tiempos convulsionados desde finales de 2001. Em la sociedad se libra una lucha hegemónica entre actores reunidos em dos polos que portan proyectos políticos sustancialmente distintos, y que hasta la fecha se perciben como excluyentes” (LOPEZ MAYA, 2004, p.106).

 

Atores que expressam, por um lado, os interesses da classe alta e das elites que veem em Chávez uma ameaça aos seus interesses, e as dos segmentos populares excluídos dos benefícios sociais, que encontraram no presidente uma forma de serem ouvidas e atendidas após um longo período de recessão. Esta distinção é importante para entender como tais atores se portaram e como foram retratados pela “Folha de São Paulo” no período proposto. Assim, por exemplo, quando ocorre o golpe de Estado contra Chávez em abril de 2002, o jornal brasileiro noticia da seguinte forma o evento:

 

“A aventura de Chávez se destinava ao fracasso. Seu governo calcou-se no voluntarismo demiúrgico, e não num projeto coletivo; indispôs-se com todos os setores organizados da sociedade (dos empresários aos sindicalistas do petróleo, passando pela Igreja Católica, pela mídia e chegando aos militares, que o depuseram)” (Folha de São Paulo, “Golpe na Venezuela” 13/04/2002, p.A2)

 

Portanto, para o jornal, sociedade civil são os empresários, os sindicalistas organizados, a Igreja, a mídia e os militares. Não há menção às comunidades formadas pelos povos originários cujos direitos nunca foram reconhecidos e sequer aos setores populares que formam uma grande parte da população urbana e que moram em condições sub-humanas, sem acesso a qualquer direito de cidadania.         Em outra reportagem, tais segmentos são indicados, mas de forma bastante pejorativa, como denotam os seguintes termos:

 

“Chávez ainda conta com a simpatia das classes mais simples. Não parece ser o bastante para derrotar as forças oposicionistas, mas foi com esse apoio que o presidente conseguiu reverter o golpe de abril” (Folha de São Paulo, “Saída para a Venezuela” 14/12/2002)

 

Ou seja, seriam “classes mais simples”, por princípio, incapazes de derrotar as forças oposicionistas que se caracterizam, para a “Folha de São Paulo”, como sendo a sociedade civil organizada. Tal contraposição leva o leitor a considerar que os que estavam no poder eram os que tinham competência para tanto e que agora os “simples” e seu representante só podem ser aventureiros.

 

Os enfrentamentos que ocorreram na véspera do golpe de Estado de 2002 e que serviram de mote para o golpe, pelo qual os oposicionistas assumiram momentaneamente o governo, colocando um governo interino, à semelhança de uma estratégia muito utilizada nos países latinos americanos, inclusive no Brasil, foi retratado pelo Jornal da seguinte forma. “Segundo governo interino, ação visa impedir resistência armada e deter suspeitos de disparar em manifestação em Caracas, que teve 15 mortos” e abaixo, imagens mostram manifestantes protestando em frente à embaixada cubana, em busca de ex-membros do governo. (“Folha de São Paulo”, 13 de abril de 2002, caderno Mundo, página A2).

 

Antes de analisar os acontecimentos retratados na imagem, são necessários alguns esclarecimentos quanto ao enfrentamento que ocorreu nas ruas de Caracas na véspera do golpe militar que retirou Chávez do poder em 2002. No dia 11 de abril, manifestantes oposicionistas marchavam em direção ao palácio presidencial para reivindicar a saída do presidente. Em contrapartida, apoiadores de Chávez se encontraram nas cercanias do palácio prestando apoio ao presidente. No entanto, durante estas manifestações foram disparados diversos tiros provenientes de franco-atiradores que vitimaram, segundo estimativas, 19 pessoas. Durante o confronto a mídia privada venezuelana responsabilizava os militantes chavistas pelos disparos: segundo o jornal El Nacional, os disparos efetuados pelos “círculos bolivarianos causaram dez mortos e quase cem feridos” e que a marcha havia sido vítima de “franco-atiradores treinados em Cuba” (MARINGONI, 2004, p.25).

 

 

 

 

Observa-se, portanto que os argumentos da “Folha” vão ao encontro dos levantados pela oposição venezuelana quando responsabiliza o governo Chávez pelas mortes nas manifestações que ocorreram em Caracas. A intensa propaganda da imprensa opositora, naquele momento no governo, e o fechamento de canais de comunicação chavistas, criaram um caos nas informações, ficando difícil saber-se com certeza quem havia, de fato, sido responsável pelos tiros que mataram os manifestantes que caminhavam pelas ruas. Mas, partindo da premissa de que “quanto maior o conhecimento que tem o pesquisador em relação ao tema maior o grau de percepção e acuidade na identificação de indícios e detalhes (…) aparentemente invisíveis, porém presentes na imagem e fundamentais para sua futura interpretação” (FRAGA, 2000, p.302) e na bibliografia levantada acerca do período, buscamos novas evidencias sobre os acontecimentos. Estas encontramos no filme produzido pelos integrantes da equipe dos cineastas irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain que estavam, na ocasião, fazendo um documentário sobre a situação venezuelana[2]. As imagens gravadas pelos cinegrafistas que sequer tinham envolvimento com qualquer das partes são as mesmas divulgadas pelos golpistas nos canais de televisão privados, que mostram um homem, em cima de uma ponte, atirando várias vezes, mas retratam, não apenas um detalhe, como o fez os meios de comunicação, mas observa que o atirador que está na ponte e que, segundo os canais privados de televisão era um chavista, atira para o alto e para uma rua em que não há ninguém. A rua está literalmente deserta e, mesmo que ali houvesse pessoas, o homem não possuía nenhuma possibilidade de efetuar disparos com a precisão dos que estavam ocorrendo e a arma aponta, muitas vezes, para o alto, além de que, o suposto atirador está bem acima da rua, pois está na ponte que a atravessa.

 

Outra foto mostra manifestantes sendo reprimidos por forças oficiais e na legenda consta: “Forças de segurança venezuelana reprimem manifestantes perto do palácio presidencial”. Na fotografia ao lado um corpo coberto com a bandeira venezuelana o jornal escreve: “Manifestantes ao lado do corpo, coberto com a bandeira venezuelana, vítima da repressão ao protesto contra Chávez”. (“Folha de São Paulo”, 12 de abril)

 

Portanto o jornal responsabiliza o governo Chávez pelas mortes e pela repressão aos manifestantes que pediam sua saída.  Para o leitor a informaçao que passa é que havia uma grande oposiçao popular contra Chàvez e que este ditatorialmente ou autoriariamente os reprimiu, inclusive causando a morte de vários deles. Assim não há espaço para que a opinião pública tenha condiçoes de apreender plenamente as  dinâmicas sociais e a correlação de forças que configuravam a realidade social venezuelana no período. Portanto, o preceito da neutralidade da imprensa sequer é arrogado, pois além dos conceitos que exprime, como no caso da sociedade civil, a veiculação de imagens associada ao título, conforme vimos, leva o leitor a considerar que, de fato, o governo Chávez era ilegítimo e que os que engendraram o golpe tinham legitimidade perante toda a sociedade venezuelana.

 

A justificativa do jornal é sempre a defesa da democracia e o respeito pelas instituições como pedra angular da estabilidade política, econômica e social. Após o golpe de 2002, a “Folha de São Paulo” lança mão do seguinte receituário para a Venezuela sair da crise em que se encontrava:

 

“O entrave para o seu desenvolvimento é político. E a via para superá-lo são a manutenção e o reforço dos canais democráticos” (FOLHA DE SÃO PAULO. “Um novo Chávez”, 17/04/2002, A2)

 

Assim, a notícia assume um caráter de uma verdade que exprimiria um valor universal, o desejo de todos, ou seja, observa-se uma forma de legitimação de um poder dominante conforme teoriza Terry Eagleton

“crenças e valores parecidos com ele; naturalizando e universalizando tais crenças de modo a torná-las óbvias e aparentemente inevitáveis, denegrindo idéias que possam desafia-lo; excluindo formas rivais de pensamento, mediante talvez alguma lógica declarada mas sistemática; e obscurecendo a realidade social de modo a favorecê-lo.” (EAGLETON, p.1997, p.19)

 

A posição do jornal brasileiro já se delineava clara desde o início do governo Chávez, particularmente a partir do momento em que este inicia reformas visando atender a demandas de segmentos excluídos dos benefícios sociais, ou do acesso à terra ou à justiça, à educação e outros.

 

Coloca-se assim, quando analisamos o discurso jornalístico, a discussão sobre a questão da verdade, conforme vem apontando a diversificada historiografia que trata do tema e, neste sentido Resende explicita que

 

“A partir desses lugares, pelo desejo e pelo poder, revestidos da vontade de verdade, os discursos jornalísticos tornam-se expressões máximas do que é verdadeiro; e é com eles, vale dizer, que construímos os nossos modos de compreender e ver o mundo, visões que tecem nossa percepção do outro e nossa maneira de lidar com o diferente ou o semelhante.” (RESENDE, 2009).

 

Mas, mais do que isto, o jornal, se tomado não apenas como discurso, mas como um discurso que exprime uma dada ideologia e neste sentido, uma posição de classe, esta emerge quando se associa a informação veiculada com dados mais completos sobre o noticiado e mais, quando se analisa o impacto social que estas provocam, no caso, a formação da opinião pública.

 

Tomemos, por exemplo, como foram noticiadas as reformas encetadas na primeira faze do governo Chavez, denominadas na Venezuela como 49 leis habilitantes (semelhantes às medidas provisórias brasileiras) colocadas em vigência no dia 15 de novembro de 2000. Dentre elas, três ganharam importância e geraram grande divergência dentro da sociedade. A primeira foi a Lei de Pesca e Agricultura que separa a pesca artesanal da industrial.  No documento é prevista uma nova margem limite para a realização da pesca industrial, com a justificativa de que esta prejudica o ecossistema da região e tira empregos dos pescadores artesanais. Esta lei gerou um forte descontentamento por parte da Federação Nacional de Associações Pesqueiras (Fenapesca) que entrou com ações judiciais para anulá-la.  Na prática, tal lei já existia e levava em consideração o tamanho das embarcações responsáveis pela pesca industrial que só era possível em certas profundidades. Todavia, não era praticada, ou seja, faltava vontade política de algum governo para que a fizesse vigente. Daí a oposição tão grande à esta nova edição, que a entenderam como um ataque à iniciativa privada.

 

A Lei Terras foi outra medida que provocou discordância, pois criou o Instituto Nacional de Terras (INT) com o objetivo de fiscalizar as propriedades agrárias do país. Tornou-se necessário que todos os proprietários de terra comprovassem a posse no INT por meio de um registro agrário e também sua utilização, tornando, portanto, ocupação e produtividade alvos de processos visando a desapropriação. Tal lei, que atingia diretamente os latifúndios improdutivos, em geral em mãos dos segmentos dominantes que as haviam expropriado de comunidades indígenas ao longo de muitos anos, causou um grande número de manifestações que acusavam o governo de atentar contra a propriedade privada. Na realidade, a lei protege a propriedade privada, já que bastava comprovar a posse para que o registro fosse assegurado.  Conforme (LANDER, 2004) a lei:

 

“Tiene por objeto establecer las bases del desarrollo rural integral y sustentable; entendido este como el medio fundamental para el desarrollo humano y crecimiento económico del sector agrario dentro de una justa distribución de la riqueza y una planificación estratégica, democrática y participativa, eliminando el latifundio como sistema contrario a la justicia, al interés general y a la paz social en el campo, asegurando la biodiversidad, la seguridad agroalimentaria y la vigencia efectiva de los derechos de protección ambiental y agroalimentario de la presente y futuras generaciones.” (LANDER, 2004.)

 

A Lei de Hidrocarburantes, por sua vez, projetava maior lucratividade por parte do Estado nas rendas provenientes do petróleo, além de diminuir a autonomia da companhia estatal Petróleo de Venezuela S. A. (PDVSA), o que levou Chávez a ser acusado de prejudicar o desenvolvimento do país e de gerar mais desemprego e recessão. Aqui se verifica uma questão delicada, pois, na verdade, o texto “reserva para el Estado la actividad petrolera y otras de caráter estratégico” e pregava:

 

“Los yacimentos de hidrocarburos existentes em el território nacional, cualquiera que sea su naturaleza, incluídos aquéllos que se encuentram bajo el lecho del mar territorial, em la plataforma continental, en la zona ecónomica exclusiva y dentro de las fronteras nacionales, pertencem a la República y son bienes del domínio público, por lo tanto, inalienables e emprescritibles” (LANDER, 2004).

 

 

O documento também previa um limite e uma regulamentação para as associações de empresas privadas:

 

“Las actividades primarias indicadas en el artículo 9, serán realizadas pó el Estado, ya directamente por el Executivo Nacional o mediante empresas de su exclusiva proprieded. Igualmente podrá mediante empresas dond tenga control de sus decisiones, por mantener uma participacíon mayor de cincuenta por cineto del capital social, las cuales a los efectos de este Decreto Ley se denominam empresas mixtas. Las empresas que se dediquem a la realizacíon de actividades privadas serán empresas operadoras. “(LANDER, 2004).

 

Assim, ao defender a hegemonia estatal e regular as sociedades com empresas internacionais, a Lei Habilitante, no que diz respeito à questão petroleira, mexeu com a organização interna e com os interesses dos executivos da estatal PDVSA que durante décadas ganhou autonomia frente às determinações do Estado, se comportando como uma empresa privada, defendendo os interesses de seus executivos, contrapondo-se ao que se espera de uma empresa pública, cujo dever é prezar pelos interesses do povo venezuelano.

 

Nota-se que as três principais leis aprovadas e tomadas como argumento para o golpe de estado em 2002, não correspondiam a nenhuma das acusações feitas pela oposição, pelo contrário, eram ferramentas que buscavam uma maior autonomia e benefícios para o Estado venezuelano.

 

As notícias do jornal sobre tais leis revelam, mais uma vez, como a “Folha de São Paulo” aderiu aos argumentos da oposição venezuelana. Em seu editorial do dia 08 de dezembro de 2001, o periódico explicita, mais uma vez, sua total concordância com os pressupostos assumidos pela oposição venezuelana, declarando que as leis aprovadas por Chávez restringem o direito da propriedade privada.

 

“(…). O reflexo mais recente dessa crise é a paralisação geral convocada pela maior associação patronal do país para esta segunda-feira. Não se trata apenas de um locaute: o principal sindicato dos petroleiros e os sindicatos de funcionários públicos afirmam que vão aderir.”

Pretendem protestar contra leis que restringem o direito à propriedade e outorga poderes discricionários a funcionários públicos. Para os empresários, o pacote afugenta investimentos e sufoca a iniciativa privada. ((FOLHA DE SÃO PAULO. “Venezuela em crise”, 08/12/2001, A2)

 

 

Tais leis integram o projeto político encabeçado por Chávez, denominado Revolução Bolivariana, dado o impacto na sociedade daquele país.  Mas, como tais leis mexeram com domínios atávicos da autocracia burguesa venezuelana, apesar de suas limitações, serão considerados atos autoritários pela imprensa brasileira, que acompanha o teor da imprensa de oposição ao governo da Venezuela e que engendrou o golpe de 2002. Para a Folha de São Paulo, o golpe seria o Projeto Bolivariano e não a tomada de poder pela oposição. O próprio título já confunde o leitor: “Golpe impune”, mas referido às medidas tomadas por Chávez.

 

“Na condução de seu projeto cesarista de “Revolução Bolivariana”, Chávez não tem respeitado a fronteira que separa o exercício da liderança política legítima das iniciativas que solapam os controles institucionais dos atos do Executivo” (FOLHA DE SÃO PAULO. “Golpe impune” 16/08/2002, p.A2)

 

 

Quando o jornal não está denegrindo o projeto político bolivariano, está buscando desqualificar a própria figura do presidente, que é retratado diversas vezes como autoritário, caudilho, ou como no exemplo, populista.

“Na prática, seus inflamados discursos traduzem-se em concessões populistas e numa escalada autocrática que impõe controles ao Judiciário, ao Legislativo e à imprensa” (FOLHA DE SÃO PAULO. “O Show de Chávez” 02/02/2005, p.A2)

 

Manchetes de jornais constituem, por si só, uma informação, não só pela visibilidade pública que adquirem quando exposto o periódico nas bancas, mas também porque muitos leitores dão apenas uma “rápida olhada”. No caso acima, Chávez a conotação é a de um show man.


Mas o jornal vai além quando assume publicamente sua posição alinhada com as forças de oposição, declarando que a Venezuela ficaria melhor sem o presidente. No entanto, sua saída não poderia ser resultado de um golpe, devendo ser ordenada dentro de parâmetros democráticos, o que, para o jornal, significa ser derrotado nas urnas.

 

“Não resta dúvida de que a Venezuela estará melhor no dia em que conseguir se livrar do presidente Hugo Chávez, mas é preciso que o caudilho deixe o poder por força do resultado das urnas, e não por meios estranhos à democracia” (FOLHA DE SÃO PAULO.“Tensão na Venezuela” 06/12/2005, p.A2)

 

 

Ao reduzir o estado democrático aos pleitos eleitorais, o jornal denota uma dada concepção de democracia, muito distante, por exemplo, da concepção expressa Michel Lowy, para o qual esta só se configura quando houver “uma transformação radical que implica na superação da forma alienada do Estado político e da sociedade civil privatizada” (LOWY, 2011, p.22). Com base nisto, podemos levantar, por fim, algumas observações acerca do governo Chávez.

 

Conclusão

 

Procuramos neste texto, demonstrar como o jornal “Folha de São Paulo” adotou os pressupostos ideológicos da oposição venezuelana ao governo do presidente Hugo Chávez no período entre os anos de 2002-2005 frente às agitações políticas e sociais ocorridas na Venezuela.

 

Neste sentido, percebemos que o periódico brasileiro lançou mão de diversas manobras para formar no país uma opinião pública negativa em relação ao governo venezuelano e a chamada Revolução Bolivariana. Para a “Folha” Chávez é um aventureiro, com fortes tendências autoritárias, que governa lançando mão de práticas populistas, indo contra a democracia e a sociedade civil organizada na Venezuela.

 

A imprensa analisada, que é um exemplo de outras que seguem os mesmos preceitos aqui no Brasil, é uma empresa privada e, como tal, demonstra seus interesses de classe ao noticiar os acontecimentos venezuelanos. No entanto, usa como argumentos preceitos que são universais como democracia, direitos humanos e justiça, ou mesmo passa a noção de que o Estado é neutro, portanto, um equalizador das diferenças sociais, desde que não coloque em risco a ordem autocrata vigente.

 

Tais preceitos adotados pelo jornal assumem um significado de acordo com a visão que o jornal intenta expressar, nem que para isso, a sociedade civil venezuelana, tenha que ser reduzida as classes patronais e a um sindicato historicamente cooptado pelos grandes partidos que anteriormente estavam no governo, desprezando os diferentes segmentos populares, compostos por favelados urbanos, camponeses vinculados à extração da folha da coca, desempregados, sub empregados, operários das minas, etcc. que apoiaram o governo Chávez naquele momento. Aliás, esta é uma das questões que o jornal vai buscar responder: como é possível que ele tenha tanto apoio popular? E a resposta será a de que ele possui o poder de manipular as massas. Mas neste pequeno artigo não será possível adentrar ao objeto todo de nossa pesquisa que tratado tema.

 

Esperamos, portanto, ter demonstrado como a “Folha de São Paulo” em sua ideologia, assumiu os pressupostos e argumentos da oposição venezuelana em relação ao governo Chávez, contribuindo para formar na opinião pública brasileira, uma visão negativa sobre o presidente venezuelano e seu projeto político. Tal constatação se torna evidente ao confrontar a cobertura do jornal com os eventos ocorridos e com a bibliografia consultada, deixando claro como o jornal brasileiro se posicionou em relação aos acontecimentos na Venezuela.

 

Fontes:

 

GOLPE NA VENEZUELA. Folha de São Paulo. São Paulo. 13/04/2002. Opinião, p.A2

GOVERNO BUSCA SIMPATIZANTES DE CHÁVEZ. Folha de São Paulo. 13/04/2002. p.A14. fot.sem cor.

CHÁVEZ ENFRENTA REBELIÃO APÓS MEGAPROTESTO. Folha de São Paulo. 12/04/2002. p.A10. fot.sem cor.

O SHOW DE CHÁVEZ. Folha de São Paulo. 02/02/2005, p.A2

UM NOVO CHÁVEZ. Folha de São Paulo. 17/04/2002, A2

TENSÃO NA VENEZUELA. Folha de São Paulo. 06/12/2005, p.A2

­SAÍDA PARA A VENEZUELA. Folha de São Paulo. 14/12/2002, p.A2

 

Referencias Bibliográficas:

 

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NOTAS

 

* El presente trabajo ha sido presentado en el Congreso Internacional de la Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC Internacional) “La formación de los Estados latinoamericanos y su papel en la historia del continente” realizado del 10 al 12 de octubre de 2011 en el Hotel Granados, Asunción, Paraguay, organizado por Repensar en la historia del Paraguay, Instituto de Estudios José Gaspar de Francia, Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe, Centro Cultural de la Cooperación “Floreal Gorini” (Argentina). Entidad Itaipú Binacional. Mesa: Vida cotidiana, mentalidades, identidad y diversidad y su reflejo en los Estados latinoamericanos y caribeños.

** El presente trabajo ha sido presentado en el Congreso Internacional de la Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC Internacional) “La formación de los Estados latinoamericanos y su papel en la historia del continente” realizado del 10 al 12 de octubre de 2011 en el Hotel Granados, Asunción, Paraguay, organizado por Repensar en la historia del Paraguay, Instituto de Estudios José Gaspar de Francia, Asociación de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe, Centro Cultural de la Cooperación “Floreal Gorini” (Argentina). Entidad Itaipú Binacional. Mesa: Vida cotidiana, mentalidades, identidad y diversidad y su reflejo en los Estados latinoamericanos y caribeños.

Mestrando em História social pela PUC-SP. Bolsista Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Este trabalho faz parte da pesquisa de mestrado em desenvolvimento no programa de pós-graduação da PUC-SP, sob a orientação da professora doutora Vera Lúcia Viera.

 

[1] O objetivo do acordo era um empréstimo no valor de 4,5 bilhões de dólares, mas em contrapartida, o pacote incluía a desvalorização da moeda nacional, a redução do gasto público e do crédito, congelamento dos salários e aumento dos preços dos gêneros de primeira necessidade. Além de reajustes no preço da gasolina e do transporte coletivo. (MARINGONI, 2010, p. 294).

[2] O documentário produzido, intitulado “The Revolution Will Not Be Televised” foi lançado no ano de 2003.

 

Ariadna Tucma Revista Latinoamericana. Nº . 7. Marzo 2012-Febrero 2013 – Volumen III


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