{"id":7655,"date":"2025-05-30T20:11:09","date_gmt":"2025-05-30T23:11:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?p=7655"},"modified":"2025-05-30T20:11:09","modified_gmt":"2025-05-30T23:11:09","slug":"lembrancas-afetivas-atraves-da-rememoracao-em-vermelho-amargo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?p=7655","title":{"rendered":"LEMBRAN\u00c7AS AFETIVAS ATRAV\u00c9S DA REMEMORA\u00c7\u00c3O EM VERMELHO AMARGO"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-cover alignfull has-custom-content-position is-position-bottom-right\"><span aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-cover__background has-background-dim\"><\/span><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"721\" height=\"299\" class=\"wp-block-cover__image-background wp-image-7657\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bartolomeu-Campos-de-Queiros-03-e1748559367204.jpg\" data-object-fit=\"cover\" srcset=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bartolomeu-Campos-de-Queiros-03-e1748559367204.jpg 721w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bartolomeu-Campos-de-Queiros-03-e1748559367204-300x124.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 721px) 100vw, 721px\" \/><div class=\"wp-block-cover__inner-container is-layout-flow wp-block-cover-is-layout-flow\">\n<p><strong>Paulo Geovane Sousa Almeida*<\/strong><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O presente artigo analisou <a>as lembran\u00e7as afetivas atrav\u00e9s da rememora\u00e7\u00e3o na obra <em>Vermelho Amargo<\/em><\/a>. Para fundamentar nossa pesquisa buscamos suporte te\u00f3rico em Halbwachs (2003), Le Goff (1990), Pollak (1992), Benjamin (1993), Bourdieu (2002), Navas e Ramos (2020), dentre outros. A obra em quest\u00e3o, pode ser considerada literatura Juvenil, apesar de, trazer em seu contexto lingu\u00edstico, uma escrita complexa. O texto nos mostra uma narrativa fragmentada, no qual os par\u00e1grafos s\u00e3o aut\u00f4nomos, capazes de viabilizar ao leitor uma verdadeira compreens\u00e3o, pois n\u00e3o possuem in\u00edcio, meio e fim. A mem\u00f3ria \u00e9 o principal tema da obra, recurso utilizado pelo menino (narrador), onde emprega algumas simbologias, como: o tomate, para representar a dor da saudade de perder sua m\u00e3e. Chegamos a conclus\u00e3o nessa pesquisa, que o tomate como s\u00edmbolo figurativo, n\u00e3o s\u00f3 mostra ao leitor sentimentos negativos, como pelas vezes que foi desempenhado pela madrasta, mas sentimentos bons, mostrado quando a m\u00e3e do menino, ainda viva, cozinhava e cortava-o para as refei\u00e7\u00f5es. Observamos ainda, que essa saudade tem cor e gosto, o <em>Vermelho Amargo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Palavras-chaves:<\/strong> Literatura brasileira; Mem\u00f3ria; Literatura Juvenil, Vermelho Amargo.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p><strong>Abstract<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>This article analyzed emotional memories through recollection in the work Vermelho Amargo. To support our research, we relied on theoretical foundations from Halbwachs (2003), Le Goff (1990), Pollak (1992), Benjamin (1993), Bourdieu (2002), Navas and Ramos (2020), among others. The work in question can be considered young adult literature, despite presenting a complex writing style within its inguistic context. The text reveals a fragmented narrative, in which the paragraphs are utonomous, allowing the reader a true understanding, as they do not follow a beginning, middle, and end structure. Memory is the main theme of the work, a<\/p>\n\n\n\n<p>resource employed by the boy (narrator), who uses certain symbols, such as the tomato, to represent the painful longing for his lost mother. Our research concludes that the tomato, as a figurative symbol, conveys not only negative feelings, such as those evoked by the stepmother, but also positive emotions, shown when the boy\u2019s mother, still alive, cooked and sliced the tomato for meals. We also observed that this longing has a color and a taste: the Bitter Red.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Keywords:<\/strong> Brazilian Literature; Memory; Young Adult Literature; Vermelho Amargo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><strong>Notas introdut\u00f3rias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>D\u00f3i. D\u00f3i muito. D\u00f3i pelo corpo inteiro. Principia nas unhas, passa pelos cabelos, contagia os ossos, penaliza a mem\u00f3ria e se estende pela altura da pele. Nada fica sem dor. Tamb\u00e9m os olhos, que s\u00f3 armazenam as imagens do que j\u00e1 fora, doem. A dor vem de afastadas dist\u00e2ncias, sepultados tempos, inconvenientes lugares, inseguros futuros. N\u00e3o se chora pelo amanh\u00e3. S\u00f3 se salga a carne morta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O estudo tem por objetivo analisar as lembran\u00e7as afetivas atrav\u00e9s da rememora\u00e7\u00e3o na obra Vermelho Amargo. O nosso corpus de pesquisa \u00e9 o romance mencionado anteriormente, do escritor Bartolomeu Campos de Queir\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"721\" height=\"479\" src=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bartolomeu-Campos-de-Queiros-03-1-e1748559543534.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7658\" srcset=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bartolomeu-Campos-de-Queiros-03-1-e1748559543534.jpg 721w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bartolomeu-Campos-de-Queiros-03-1-e1748559543534-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 721px) 100vw, 721px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Imagen Fuente<\/em>: <em>Foto Matheus Dias en<\/em> <em>Luis Guilherme Barbosa \u00abO tomate da discordia\u00bb en rascunho.com.br<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Bartolomeu nasceu em 1944, na cidade de Par\u00e1 de Minas, viveu a inf\u00e2ncia em Papagaio (MG). Estudioso de filosofia e da est\u00e9tica, utilizou a arte como parte integrante do processo educacional. Colecionou muitas medalhas e pr\u00eamios como por exemplo: Grande Pr\u00eamio da Cr\u00edtica em Literatura Infantil\/Juvenil pela apca, Jabuti, FNLIJ e Academia Brasileira de Letras. <em>Vermelho Amargo<\/em> deu a ele postumamente o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura de Melhor Livro do Ano. Come\u00e7ou a escrever quando estava exilado na Fran\u00e7a, em 1960, para aplacar a solid\u00e3o. Seus livros quando n\u00e3o s\u00e3o poesias s\u00e3o prosas po\u00e9ticas -, o \u201ceu\u201d aparece para o mundo, ora amargo ora esperan\u00e7oso. O romance <em>Vermelho Amargo<\/em> \u00e9 seu \u00faltimo livro publicado em vida e se insere dentro da sua obra sendo pertencente ao g\u00eanero autobiogr\u00e1fico, ao lado de obras agu\u00e7adas pela ternura e afeto de ser crian\u00e7a em <em>Cavaleiros das Sete Luas<\/em>, <em>De N\u00e3o e N\u00e3o<\/em>, <em>Flora<\/em>, <em>Mais com mais d\u00e1 menos<\/em> e outras. Ele faleceu em 2012 na cidade de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto em tela apresenta a figura de um narrador personagem, que ao narrar sua hist\u00f3ria conta a dor de um menino que perde a m\u00e3e e tem por obriga\u00e7\u00e3o conviver com o pai, a madrasta e os cinco irm\u00e3os. Com um jeito delicado e po\u00e9tico de contar sua hist\u00f3ria, a crian\u00e7a descreve com suas percep\u00e7\u00f5es os sentimentos dos demais personagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecer uma obra como literatura juvenil torna-se um assunto bastante complexo. Se at\u00e9 poucos s\u00e9culos nossa sociedade n\u00e3o tinha se quer o conceito de ser crian\u00e7a, imagina um conceito do que era ser adolescente. Para a sociedade todos eram vistos da mesma forma. Ent\u00e3o, falar de literatura juvenil \u00e9 como afirma Navas e Ramos (2020) que essa fic\u00e7\u00e3o mostra um conceito recente e tardio, porque a adolesc\u00eancia n\u00e3o era considerada uma fase vital.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, podemos entender <em>Vermelho Amargo<\/em> como literatura juvenil, porque apesar de trazer uma escrita de complexa defini\u00e7\u00e3o, trata-se tamb\u00e9m de uma prosa po\u00e9tica com bastante recurso lingu\u00edstico, \u00e9 de fato um desafio para o leitor jovem, assim como em Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas que pode ser um desafio para o leitor adulto. N\u00e3o basta imaginar, que um leitor jovem n\u00e3o ter\u00e1 a capacidade para realizar leituras um pouco mais dif\u00edceis. Para Navas e Ramos (2020) a literatura juvenil revela tra\u00e7os distintivos e que devemos refletir sobre o panorama contempor\u00e2neo da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria juvenil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas te\u00f3ricas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O romance Vermelho Amargo trata-se de um texto memorial\u00edstico, pois a sua narrativa retrata as mem\u00f3rias de um menino que perdeu a m\u00e3e, onde teve de conviver com seu pai, sua madrasta e seus irm\u00e3os. Durante toda a vida, o menino teve que recorrer a lembran\u00e7as do seu passado, rememorando momentos com sua m\u00e3e e fazendo comparativos com seu atual momento. &nbsp;A figura do tomate dentro da obra \u00e9 usando como uma simbologia para representar a figura da m\u00e3e e toda sua fam\u00edlia, seja por um aspecto positivo ou negativo. O narrador consegue atrav\u00e9s desse s\u00edmbolo construir significa\u00e7\u00f5es para a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos definir a mem\u00f3ria, como a capacidade que o ser humano tem de adquirir, resgatar ou mesmo armazenar informa\u00e7\u00f5es. Essa mem\u00f3ria pode ser individual, coletiva e\/ou social, de acordo com alguns te\u00f3ricos, como: Halbwachs, Le Goff, Pollak, dentre outros. O que muda as vezes, \u00e9 o ponto de vista de como esses te\u00f3ricos explanam, como a mem\u00f3ria coletiva, interpretada como mem\u00f3ria social em alguns estudos. Mas Le Goff (1990) faz essa distin\u00e7\u00e3o entre coletiva e social, at\u00e9 de forma did\u00e1tica, afirmando que mem\u00f3ria coletiva est\u00e1 ligada as sociedades sem escrita, e, mem\u00f3ria social, est\u00e1 ligada as sociedades com a escrita, ou seja, a mem\u00f3ria social tem como testemunha a escrita, diferente da mem\u00f3ria coletiva, no qual tem uma sociedade exclusivamente oral.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebemos que, a mem\u00f3ria individual n\u00e3o se separa da mem\u00f3ria coletiva, embora elas possuam caracter\u00edsticas distintas. No nosso entendimento, para se conceituar mem\u00f3ria coletiva, temos que primeiramente definir mem\u00f3ria individual, e \u00e9 a partir do pensamento de Le Goff (1990) que chegamos a esse ponto. Para ele, a mem\u00f3ria parte de um fen\u00f4meno individual e subjetivo do homem, possibilitando-o informa\u00e7\u00f5es do passado. Essa mem\u00f3ria individual pode ser compartilhada ou n\u00e3o. E apesar de ser um fen\u00f4meno singular, caso seja partilhada dentro de um grupo, passa a ter outra denomina\u00e7\u00e3o, o que chamamos de mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria como tema principal para a discuss\u00e3o te\u00f3rica deve ser um dos principais pontos para refletir esse trabalho, pois atrav\u00e9s dessa imagem memorialista que ser\u00e1 analisado a dor, ou seja, o vermelho amargo idealizado pelo tomate, de perder a m\u00e3e. Para tanto, precisamos nos apoiar em estudos como de Halbwachs (2003), um dos principais nomes e te\u00f3ricos dos estudos da mem\u00f3ria, principalmente a mem\u00f3ria familiar, pois al\u00e9m de ser um dos assuntos que reflete a teoria desse escritor \u00e9 tamb\u00e9m algo que est\u00e1 ligado diretamente ao romance <em>Vermelho Amargo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Halbwachs (2003) ressalta que a mem\u00f3ria coletiva e o ambiente material podem mudar com acontecimentos que modifiquem o grupo ou o lugar. Se entendermos que mem\u00f3ria coletiva pode ser o grupo e que o grupo convive em um determinado ambiente material, um acontecimento pode mudar tudo, desde que esse evento, seja realmente algo que agite a estrutura desse meio familiar. No cap\u00edtulo Mem\u00f3ria coletiva e espa\u00e7o, do livro <em>A mem\u00f3ria coletiva<\/em>, Halbwachs (2003) exemplifica que a morte e o casamento s\u00e3o epis\u00f3dios dessa natureza. Se pegarmos a morte como exemplo, entendemos que obra <em>Vermelho Amargo<\/em> se enquadra exatamente no que o te\u00f3rico ressalta, pois conta a hist\u00f3ria da perda da m\u00e3e de um garoto.<\/p>\n\n\n\n<p>O tomate com s\u00edmbolo representativo dessa mem\u00f3ria est\u00e1 vinculado ao um espa\u00e7o que foi marcado pelas lembran\u00e7as do filho, que no primeiro momento nos revela uma mem\u00f3ria individual, mas que tamb\u00e9m est\u00e1 vinculada a uma mem\u00f3ria coletiva, no qual o espa\u00e7o, a casa, \u00e9 um ambiente habitado por um determinado grupo, que juntamente essas mem\u00f3rias se interrelacionam. Neste sentido, toda e qualquer mem\u00f3ria est\u00e1 inserida em um contexto espacial. Para Halbwachs (2003)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u00ab[&#8230;] o espa\u00e7o \u00e9 uma realidade que dura: nossas impress\u00f5es se sucedem umas \u00e0s outras, nada permanece em nosso esp\u00edrito e n\u00e3o compreender\u00edamos que seja poss\u00edvel retomar o passado se ele n\u00e3o estivesse conservado no ambiente material que nos circunda. \u00c9 ao espa\u00e7o, ao nosso espa\u00e7o \u2013 o espa\u00e7o que ocupamos, por onde passamos muitas vezes, a que sempre temos acesso e que, de qualquer maneira, nossa imagina\u00e7\u00e3o ou nosso pensamento a cada instante \u00e9 capaz de reconstruir \u2013 que devemos voltar nossa aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 nele que nosso pensamento tem de se fixar para que essa ou aquela categoria reapare\u00e7a.\u00bb (HALBWACHS, 2003, p.170)<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, percebemos que o ambiente material dessa crian\u00e7a \u00e9 a casa, onde sua fam\u00edlia mora, marcada por lembran\u00e7as de toda uma vida. Como o te\u00f3rico nos mostra, n\u00e3o podemos voltar ao passado se n\u00e3o existisse um ambiente material, pois \u00e9 atrav\u00e9s desse ambiente que nossa mem\u00f3ria \u00e9 atravessada. Nossas lembran\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o despertadas sem algum est\u00edmulo, existe algo que toca esse feito. \u00c9 a partir do ambiente material que percebemos um despertar da nossa imagina\u00e7\u00e3o e do nosso pensamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na obra de Bartolomeu, a casa do menino narrador, tornou-se seu ber\u00e7o memorial\u00edstico para todas suas ang\u00fastias, medo e at\u00e9 saudade, mas antes de tudo, a casa \u00e9 o nosso reino, nosso lar, como afirma Bachelard (2008), \u201cpois a casa \u00e9 nosso canto do mundo. Ela \u00e9, como se diz frequentemente, nosso primeiro universo. \u00c9 um verdadeiro cosmos. Um cosmos em toda a acep\u00e7\u00e3o do termo\u201d. Ainda que essa casa fosse seu <em>habitat<\/em>, e que, trouxesse lembran\u00e7as boas, pois a casa para Bachelard (2008), \u201cguardavam os tesouros dos dias antigos\u201d, para nosso pequeno narrador, esses tesouros, juntavam-se a quest\u00f5es que n\u00e3o podemos chama-las somente assim, pois guardavam tamb\u00e9m lembran\u00e7as dolorosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cSem a m\u00e3e, a casa veio a ser um lugar provis\u00f3rio. Uma esta\u00e7\u00e3o com indecifr\u00e1vel plataforma, onde espreit\u00e1vamos um cargueiro para ignorado destino. N\u00e3o se desata com delicadeza o n\u00f3 que nos amarra \u00e0 m\u00e3e. Imposs\u00edvel adivinhar, ao certo, a dire\u00e7\u00e3o do nosso bilhete de partida. Sem poder recuar, os trilhos corriam exatos diante de nossos cora\u00e7\u00f5es imprecisos. Os c\u00f4modos sombrios da casa \u2014 antes bem-aventuran\u00e7a primavera \u2014 abrigavam passageiros sem linha do horizonte. Se fora o lugar da m\u00e3e, hoje ventilava obstinado ex\u00edlio. Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era poss\u00edvel entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transpar\u00eancia. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sangu\u00edneo, maduro, como se degolasse cada um de n\u00f3s. Seis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O garoto n\u00e3o reconhecia mais a sua casa, ela n\u00e3o tinha mais dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o devemos arrancar de uma crian\u00e7a suas ra\u00edzes familiares, principalmente, o amor de uma m\u00e3e. Para ele, o ambiente se tornara um verdadeiro mausol\u00e9u, antes considerado um lugar de amor, ternura e paz. A comida tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o era a mesma. O tomate, s\u00edmbolo memorial\u00edstico na obra, era cortado pela madrasta diferentemente como sua m\u00e3e cortava. Durante o preparo das refei\u00e7\u00f5es, o menino tentava entender a forma como sua madrasta preparava o alimento, e, percebia durante o processo, a falta de sentimentos \u201cbons\u201d por sua fam\u00edlia.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um fato presente na obra como na voz do narrador \u00e9 a imagem memorialista. As lembran\u00e7as s\u00e3o como imagens que temos ao lembrar de um passado. Walter Benjamim em <em>Obras escolhidas: magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica,<\/em> especificamente em a Imagem de Proust trata exatamente dessa quest\u00e3o emblem\u00e1tica da lembran\u00e7a ao convocar suas mem\u00f3rias. &nbsp;Segundo Benjamin (1993)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201c[&#8230;] As crian\u00e7as conhecem um ind\u00edcio desse mundo, a meia, que tem a estrutura do mundo dos sonhos, quando est\u00e1 enrolada, na gaveta de roupas, e \u00e9 ao mesmo tempo \u201cbolsa\u201d e \u201cconte\u00fado\u201d. E, assim como as crian\u00e7as n\u00e3o se cansam de transformar, com um s\u00f3 gesto, a bolsa e o que est\u00e1 dentro dela, numa terceira coisa \u2013 a meia -, assim tamb\u00e9m Proust n\u00e3o se cansava de esvaziar com um s\u00f3 gesto o manequim, o Eu, para evocar sempre de novo o terceiro elemento: a imagem, que saciava sua curiosidade, ou sua nostalgia.\u201d (BENJAMIN, 1993, p.39-40)<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como na imagem de Proust, de Walter Benjamin, a obra <em>Vermelho Amargo,<\/em> de Bartolomeu Campos de Queir\u00f3z nos revela em correspond\u00eancia da sua narrativa um teor de mem\u00f3rias acionadas por uma crian\u00e7a, isso faz com que tenhamos uma percep\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o de um elemento como o tomate. \u00c9 not\u00f3rio perceber como a nostalgia do menino narrador tem semelhan\u00e7a com Proust, ao ficar n\u00e3o somente no seu leito abatido, mas por todo sua casa, por quase todo tempo de conviv\u00eancia com seu pai, madrasta e irm\u00e3os. O tomate como figura simb\u00f3lica igual a meia de Proust nos ajuda a entender atrav\u00e9s da fantasia da crian\u00e7a a criar uma imagem memorial\u00edstica necess\u00e1ria para o estudo e an\u00e1lise desse trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas de an\u00e1lise<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da obra, trechos do segundo e do quarto par\u00e1grafo dialogam entre si. A imagem memorial\u00edstica est\u00e1 presente na vis\u00e3o do narrador, \u00e9 uma mem\u00f3ria marcada pela saudade do passado daquilo que se foi um dia. Quando ele (narrador) est\u00e1 contando a hist\u00f3ria, principalmente falando das suas dores, onde tudo d\u00f3i, podendo ser conferido no segundo par\u00e1grafo, onde os olhos tamb\u00e9m doem, al\u00e9m de doerem, armazenam imagens dessas dores, ou seja, imagens das lembran\u00e7as, \u201cTamb\u00e9m os olhos, que s\u00f3 armazenam imagens do que j\u00e1 fora, doem\u201d. N\u00e3o distante a isso, no quarto par\u00e1grafo constatamos \u201cCom saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos\u201d. S\u00f3 sentimos saudades quando lembramos de algo do passado, saudade refere-se tudo aquilo que passou, que nos remete a lembran\u00e7a e, portanto, a mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O te\u00f3rico Halbwachs (2003) refor\u00e7a que a mem\u00f3ria e o ambiente material podem modificar de acordo com alguns acontecimentos. A morte seria um desses epis\u00f3dios, pois \u00e9 o que acontece em <em>Vermelho Amargo<\/em>, onde a crian\u00e7a narra sua hist\u00f3ria marcada por sua dor de perder a m\u00e3e. Vejamos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cSem a m\u00e3e, a casa veio a ser um lugar provis\u00f3rio. Uma esta\u00e7\u00e3o com indecifr\u00e1vel plataforma, onde espreit\u00e1vamos um cargueiro para ignorado destino. N\u00e3o se desata com delicadeza o n\u00f3 que nos amarra \u00e0 m\u00e3e. Imposs\u00edvel adivinhar, ao certo, a dire\u00e7\u00e3o do nosso bilhete de partida. Sem poder recuar, os trilhos corriam exatos diante de nossos cora\u00e7\u00f5es imprecisos. Os c\u00f4modos sombrios da casa \u2014 antes bem-aventuran\u00e7a primavera \u2014 abrigavam passageiros sem linha do horizonte. Se fora o lugar da m\u00e3e, hoje ventilava obstinado ex\u00edlio. Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas, capaz de envenenar a todos. Era poss\u00edvel entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transpar\u00eancia.\u201d [&#8230;] (QUEIR\u00d3S, 2011, p.5)<\/p>\n\n\n\n<p>A casa de sua m\u00e3e tornou-se totalmente diferente depois de sua morte, para o menino agora \u00e9 um lugar de ex\u00edlio, onde tem que esconder at\u00e9 seus pensamentos. Em algum momento seu pai j\u00e1 estivesse percebido todo o sofrimento de seu filho, mas n\u00e3o fazia esfor\u00e7o algum, pois o \u00e1lcool n\u00e3o permitia, era tocado pelo v\u00edcio. Na vis\u00e3o do narrador personagem, o tomate, figura representativa, \u00e9 usada como forma da madrasta colocar para fora todos os sentimentos ruins.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cO pai, amparado pela prateleira da cozinha, com o suor desinfetando o ar, tamanho o cheiro do \u00e1lcool, reparava na fome dos filhos. Enxergava o manejo da faca desafiando o tomate e, por certo, nos pensava devorados pelo vento ou tempestade, segundo decretava a nova mulher. Todos os dias \u2014 cotidianamente \u2014 havia tomate para o almo\u00e7o. Eles germinavam em todas as esta\u00e7\u00f5es. Jabuticaba, manga, laranja, floresciam cada uma em seu tempo. Tomate, n\u00e3o. Ele frutificava, continuamente, sem demandar adubo al\u00e9m do ci\u00fame. Eu desconhecia se era mais importante o tomate ou o ritual de cort\u00e1-lo. As fatias delgadas escreviam um \u00f3dio e s\u00f3 aqueles que se sentem intrusos ao amor podem tragar.\u201d (QUEIR\u00d3S, 2011, p.5)<\/p>\n\n\n\n<p>O tomate era a \u00fanica fruta que a fam\u00edlia tinha em demasiada fartura. Muito interessante perceber como o autor consegue usar esse fruto como s\u00edmbolo representativo de sentimentos. O tomate era tudo, n\u00e3o s\u00f3 o que se tinha de mais negativo na fam\u00edlia, porque ele poderia existir em abund\u00e2ncia, mas carregava um sentimento nada agrad\u00e1vel para o menino, o ci\u00fame da madrasta, e para al\u00e9m disso tinha o que mais pesava em sua vida, a dor, a dor amarga de perder uma m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro de n\u00f3s temos segredos que muitas vezes desconhecemos, por n\u00e3o saber mesmo ou porque muitas vezes n\u00e3o queremos externar para o mundo. Acabamos de certa forma escondendo at\u00e9 de algu\u00e9m que confiamos. Benjamin (1993) fala disso em imagem de Proust, acontece mesmo que:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cNem sempre proclamamos em voz alta o que temos de mais importante a dizer. E, mesmo em voz baixa, n\u00e3o o confiamos sempre \u00e0 pessoa mais familiar, mais pr\u00f3xima e mais disposta a ouvir a confid\u00eancia. N\u00e3o somente as pessoas, mas tamb\u00e9m as \u00e9pocas, tem essa maneira inocente, ou antes, astuciosa e fr\u00edvola, de comunicar seu segredo mais \u00edntimo ao primeiro desconhecido [&#8230;]\u201d (BENJAMIN, 1993, p.40)<\/p>\n\n\n\n<p>A obra exp\u00f5e de maneira muito sincera esses pensamentos do menino. Ap\u00f3s a morte de sua m\u00e3e, ele se subordinou a muita coisa, a calar-se de ante de todos. E n\u00e3o somente isso, at\u00e9 mesmo deixar de ser quem era para atender caprichos e tentar ser enxergado naquela fam\u00edlia, que talvez n\u00e3o via mais seu lugar. O tomate despertava novos sentimentos, agora n\u00e3o era mais o da perda e nem o ci\u00fame de sua madrasta, era de transforma\u00e7\u00e3o, tentava com aquele sabor tornar o melhor poss\u00edvel, a imagem da lembran\u00e7a do amor de sua m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cSem o colo da m\u00e3e eu me fartava em falta de amor. O medo de permanecer desamado fazia de mim o mais inquieto dos enredos. Para abrandar minha impaci\u00eancia, sujeitava-me aos caprichos de muitos. Exercia a arte de me supor capaz de adivinhar os desejos de todos que me cercavam. Engolia o tomate imaginando ser ambrosia ou claras em neve, batidas com a\u00e7\u00facar e nadando num mar de leite, como praticava minha m\u00e3e \u2014 ilha flutuante \u2014 com as m\u00e3os do amor.\u201d (QUEIR\u00d3S, 2011, p.6)<\/p>\n\n\n\n<p><em>Vermelho Amargo<\/em> tem notoriedade diante da cr\u00edtica por receber v\u00e1rios pr\u00eamios, principalmente pelo melhor livro do ano em 2012. A morte do autor Bartolomeu Campos de Queir\u00f3s tornou em torno de sua obra maior curiosidade, pois vincularam a narrativa como uma autobiografia, como se o pr\u00f3prio autor tivesse voltado ao passado para rever suas lembran\u00e7as. Diante do exposto, Garcia (2016) afirma que:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cDiferentemente de outros autores que muitas vezes usam da cria\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria dos romances para afirmar aquilo como retrato fiel de uma \u00e9poca ou situa\u00e7\u00e3o (sem levar em considera\u00e7\u00e3o tanto a elabora\u00e7\u00e3o que faz parte do processo de mem\u00f3ria, quanto a estetiza\u00e7\u00e3o desta mem\u00f3ria que ocorre na sua transcri\u00e7\u00e3o para o objeto art\u00edstico), nas poucas entrevistas que Bartolomeu conseguiu dar sobre o livro antes da morte, ele sabiamente escapou desta cilada de afirmar a mem\u00f3ria como retrato fiel e integral da sua \u00e9poca de inf\u00e2ncia, e, al\u00e9m disso, soube levantar a quest\u00e3o de estetizar a mem\u00f3ria a favor do jogo ficcional.\u201d (GARCIA, 2016, p.183)<\/p>\n\n\n\n<p>Pela interpreta\u00e7\u00e3o de Garcia (2016), percebemos que o texto de Queir\u00f3s n\u00e3o se trata de uma autobiografia \u201cpura\u201d, vamos chamar assim, se levarmos em considera\u00e7\u00e3o sua celebre frase \u201cN\u00e3o existe mem\u00f3ria pura. O livro foi feito do que vivi e do que inventei\u201d, podemos constatar que embora afirme que exista na obra muito do que viveu, h\u00e1 na outra parte inven\u00e7\u00e3o, fazendo com que a novela realmente tenha um teor ficcional. Garcia (2016) ainda relaciona que nem sempre falar ou escrever sobre mem\u00f3ria necessariamente estaremos fazendo biografia como muitos autores.<\/p>\n\n\n\n<p>O escritor Bartolomeu Campos de Queir\u00f3s levanta a d\u00favida quanto sua obra ser autobiogr\u00e1fica por apresentar algumas caracter\u00edsticas espec\u00edficas, mesmo afirmando que um texto n\u00e3o se constr\u00f3i somente daquilo que viveu, mas tamb\u00e9m daquilo que foi inventado. Uma dessas caracter\u00edsticas \u00e9 o fato de a novela dele trazer uma narrativa em primeira pessoa, assim leva determinado p\u00fablico entender que existe uma autobiografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, quando concebemos uma biografia, imaginamos algo escrito com come\u00e7o, meio e fim. Bourdieu (2012) faz uma cr\u00edtica a essa linearidade quando diz que \u00e9 significativo que o abandono da estrutura do romance como relato linear tenha coincidido com o questionamento da vis\u00e3o da vida como exist\u00eancia dotada de sentido, no duplo sentido de significa\u00e7\u00e3o e de dire\u00e7\u00e3o. Para ele:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cTentar compreender uma vida como uma s\u00e9rie \u00fanica e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro v\u00ednculo que n\u00e3o a associa\u00e7\u00e3o a um \u2018sujeito\u2019 cuja const\u00e2ncia certamente n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o aquela de um nome pr\u00f3prio, \u00e9 quase t\u00e3o absurdo quanto tentar explicar a raz\u00e3o de um trajeto no metr\u00f4 sem levar e conta a estrutura da rede, isto \u00e9, a matriz das rela\u00e7\u00f5es objetivas entre as diferentes esta\u00e7\u00f5es\u201d (BOURDIEU, 2012, p.189-190)<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, \u00e9 comum pensarmos a vida como uma forma unidimensional, mas nem nossa pr\u00f3pria vida segue uma linearidade, mesmo que saibamos das fases da exist\u00eancia humana \u00e9 poss\u00edvel acontecer fatos inimagin\u00e1veis durante o processo vital. Boudieu (2012) vai chamar essa linearidade de ilus\u00e3o ret\u00f3rica, pois se concentra em escrever uma biografia de forma cronol\u00f3gica. Se pegarmos Vermelho Amargo de Queir\u00f3s vamos perceber que foge totalmente dessa caracter\u00edstica apontada.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro <em>Vermelho Amargo<\/em> quase todo par\u00e1grafo equivale a um cap\u00edtulo, como se em cada um fosse prosas po\u00e9ticas abarrotadas de bastante informa\u00e7\u00f5es sobre a hist\u00f3ria. Para o menino narrador a dor de perder sua m\u00e3e \u00e9 uma dor imensur\u00e1vel, tanto que em v\u00e1rias passagens da obra conseguimos sentir ao ler. O menino chega a fazer at\u00e9 compara\u00e7\u00f5es, para ele a dor do parto tamb\u00e9m \u00e9 de quem nasce:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cH\u00e1 que experimentar o prazer para, s\u00f3 depois, bem suportar a dor. Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto \u00e9 tamb\u00e9m de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer \u00e9 afastar-se \u2014 em l\u00e1grimas \u2014 do para\u00edso, \u00e9 condenar-se \u00e0 liberdade. Houve, e s\u00f3 depois, o tempo da alegria ao enxergar o mundo como o mais absoluto e sucessivo milagre: fogo, terra, \u00e1gua, ar e o impiedoso tempo.\u201d (QUEIR\u00d3S, 2011, p.5)<\/p>\n\n\n\n<p>Percebemos na obra que essa compara\u00e7\u00e3o que o narrador faz onde a dor n\u00e3o \u00e9 somente da m\u00e3e ao dar \u00e0 luz, mas tamb\u00e9m da crian\u00e7a ao nascer. Em momentos distintos durante a narrativa essa afirma\u00e7\u00e3o vai reverberando. Quando o narrador nos prop\u00f5e a refletirmos sobre esse fen\u00f4meno da natureza que \u00e9 o nascer para a vida, ele quer atrav\u00e9s do seu texto nos revelar sobre a pr\u00f3pria dor de viver com as barreiras que somente a viv\u00eancia humana \u00e9 capaz. E novamente volta a falar sobre essa dor, pois:&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cQue a vida n\u00e3o tinha cura, o tempo me ensinou, e mais tarde. Na inf\u00e2ncia o calend\u00e1rio fora inventado para marcar o Natal, a Semana Santa, as f\u00e9rias da escola, os anivers\u00e1rios. Os dias deslizavam pregui\u00e7osos, repetindo manh\u00e3s e tardes, entremeadas por serenas esta\u00e7\u00f5es. Imposs\u00edvel para uma crian\u00e7a viver a lucidez da ferida que se abre ao nascer, e n\u00e3o h\u00e1 b\u00e1lsamo capaz de cicatriz\u00e1-la vida afora. Nascer \u00e9 abrir-se em feridas.\u201d (QUEIR\u00d3S, 2011, p.8)<\/p>\n\n\n\n<p>A prosa po\u00e9tica <em>Vermelho Amargo<\/em> tem uma escrita muito densa, cheio de figuras de linguagem, com o risco de cair em deslise de interpreta\u00e7\u00f5es err\u00f4neas, mas o texto possui muitas quest\u00f5es que s\u00e3o vis\u00edveis aos olhos dos leitores, como, o sentimento de \u00f3dio e inveja da madrasta, o amor incondicional de um filho para sua m\u00e3e, as mentiras que o pr\u00f3prio narrador (o menino) coloca como sendo uma v\u00e1lvula de escape e aquilo que nos toca profundamente, a saudade da perda de sua m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cMinha m\u00e3e prezava as rendas pelo que havia nelas de fragilidade e trabalho. Todas as suas costuras eram arrematadas com rendas nas margens. Na aus\u00eancia de rendas, ela mesma as tecia, pacientemente, com linhas de seda, trazidas da China, para presentear nossos olhos com mais cortesia. Ela n\u00e3o escolhia os lados. Toda margem, mesmo as do riacho da cidade, merecia seu desvelo. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 somente a flecha da palavra que acorda a mem\u00f3ria de seu estupor. O incenso \u00e9 um perfume que me suscita para a incerteza de Deus. A rara fragr\u00e2ncia da alfazema guia-me para o bem profundo, p\u00e1tria definitiva de minha m\u00e3e. O Lancaster me devolve \u00e0 vaidade que houve. O \u00e1cido perfume do alecrim me abre em viagens por fazer. O odor da mortadela deslancha em mim fragmentos de afagos, rel\u00edquias escassas do pai. O tomate n\u00e3o exala nenhum cheiro. \u00c9 da \u00edndole do tomate manifestar-se apenas em cor e c\u00f3lera.\u201d (QUEIR\u00d3S, 2011, p.8)<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, chegamos ao nosso objetivo que \u00e9 de fato refletir sobre essa imagem em toda a obra, uma imagem memorial\u00edstica desse Vermelho Amargo, representado pelo s\u00edmbolo \u201ctomate\u201d de perder a m\u00e3e. O Tomate como s\u00edmbolo figurativo que n\u00e3o s\u00f3 mostra ao leitor sentimentos negativos, como pelas vezes que foi desempenhado pela madrasta, mas sentimentos bons, mostrado quando a m\u00e3e do menino, ainda viva, cozinhava e cortava-o para as refei\u00e7\u00f5es. Para al\u00e9m disso, a dor amarga de perder a m\u00e3e s\u00f3 quem podia mencionar era ele, e de forma po\u00e9tica diz:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\">\u201cCora\u00e7\u00e3o do outro \u00e9 uma terra que ningu\u00e9m pisa. Minha m\u00e3e repetia essa ora\u00e7\u00e3o quando recebia a visita de muda melancolia. Meu cora\u00e7\u00e3o estava pisado pelo amor, e s\u00f3 eu sabia. Era um caminhar manso como pata de gato trai\u00e7oeiro. Fugia com meu amor para todas as penumbras. Seis minutos eram suficientes para a saudade me transbordar. Fui, desde pequeno, contra matar a saudade. Saudade \u00e9 sentimento que a gente cultiva com o regador para preservar o cheiro de terra encharcada. \u00c9 bom deix\u00e1-la florescer, v\u00ea-la brotar como cachos de tomates, desde que permane\u00e7am verdes e longe de faca afiada. Nada tem mais a\u00e7\u00facar que um tomate verde.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Notas conclusivas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante do exposto at\u00e9 aqui, esse trabalho analisamos como a imagem memorial\u00edstica est\u00e1 presente nas lembran\u00e7as do menino (personagem principal) da obra. A mem\u00f3ria, tema principal do romance, \u00e9 um recurso que o narrador utiliza ao evocar suas lembran\u00e7as do passado, referente principalmente a saudade de sua m\u00e3e, al\u00e9m de usar o s\u00edmbolo \u201ctomate\u201d como figura representativa de sentimentos bons, ruins, como tamb\u00e9m de sentimento como a dor da perda.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra n\u00e3o apresenta uma autobiografia, ou pelo menos n\u00e3o uma autobiografia pura, pelas pr\u00f3prias palavras do escritor Bartolomeu Campos de Queir\u00f3s, podemos concluir quando o mesmo afirma: \u201cN\u00e3o existe mem\u00f3ria pura. O livro que foi feito do que vivi e do que inventei\u201d. Trata-se, portanto, de uma fic\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a partir dessas discuss\u00f5es, percebemos que o romance <em>Vermelho Amargo<\/em>, ao apresentar as experi\u00eancias do protagonista atrav\u00e9s da imagem memorial\u00edstica, fortaleze a representa\u00e7\u00e3o da dor de perder a m\u00e3e. Sendo assim, os suportes te\u00f3ricos usados contribu\u00edram para a constru\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise dos elementos ligados a imagem dessa mem\u00f3ria que constr\u00f3i uma narrativa delicada e po\u00e9tica no romance em estudo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BACHELARD, Gaston. <strong>A po\u00e9tica do espa\u00e7o<\/strong>. Martins Fontes, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p>BENJAMIN, Walter. <strong>Obras escolhidas<\/strong>: magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Brasiliense,1993. p.36-49<\/p>\n\n\n\n<p>BOURDIEU, Pierre. A ilus\u00e3o biogr\u00e1fica. In: AMADO, Jana\u00edna; FERREIRA, Marieta de Moraes (Orgs). <strong>Usos e abusos da hist\u00f3ria oral<\/strong>. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002, p. 183-191.<\/p>\n\n\n\n<p>DE OLIVEIRA CARVALHO, Katia; FRANCO, Claudia Miranda da Silva Moura; DE MORAES, Mar\u00edlia Gabriela Barros. VERMELHO AMARGO: DOCE AMOR DE M\u00c3E. <strong>VERMELHO AMARGO: DOCE AMOR DE M\u00c3E<\/strong>, p. 1-388\u2013416.<\/p>\n\n\n\n<p><a>HALBWACHS<\/a>, Maurice. <strong>A mem\u00f3ria coletiva<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2003.<\/p>\n\n\n\n<p>GARCIA, Eduardo Veloso. A mem\u00f3ria e o tomate em Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos Queir\u00f3s. <strong>Revista Investiga\u00e7\u00f5es<\/strong>, v. 29, n. 1, p. 174-200.<\/p>\n\n\n\n<p>LE GOFF, Jacques. <strong>Hist\u00f3ria e mem\u00f3ria<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o Bernardo Leit\u00e3o&#8230; [et al.] \u2013 Campinas: SP. Editora da UNICAMP, 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>NAVAS, D.; RAMOS, A. M. <strong>Literatura juvenil dos dois lados do Atl\u00e2ntico<\/strong>. S\u00e3o Paulo: EDUC, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>NORA, Pierre et al. Entre mem\u00f3ria e hist\u00f3ria: a problem\u00e1tica dos lugares. <strong>Projeto Hist\u00f3ria: Revista do Programa de Estudos P\u00f3s-Graduados de Hist\u00f3ria<\/strong>, v. 10, 1993.<\/p>\n\n\n\n<p>POLLAK, Michael. <strong>Mem\u00f3ria e identidade social<\/strong>. Revista estudos hist\u00f3ricos, v. 5, n. 10, p. 200-215, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p>SANTOS, Andrea Soares; XAVIER, Joelma Rezende. MEM\u00d3RIA E PARTILHA DO SENS\u00cdVEL NA NARRATIVA DE VERMELHO AMARGO, DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIR\u00d3S. <strong>VERBO DE MINAS<\/strong>, v. 15, n. 25, p. 19-27, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nota<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>* Paulo Geovane Sousa Almeida es Mestrando na \u00e1rea de Literatura e Cultura, na linha de pesquisa: Literatura, Historiografia e mem\u00f3ria cultural, pela Universidade Estadual do Piau\u00ed \u2013 UESPI.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:40px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"796\" src=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ATRL-Logo-2025-bloque-1-1024x796.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7543\" srcset=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ATRL-Logo-2025-bloque-1-1024x796.jpg 1024w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ATRL-Logo-2025-bloque-1-300x233.jpg 300w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ATRL-Logo-2025-bloque-1-768x597.jpg 768w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ATRL-Logo-2025-bloque-1.jpg 1325w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><\/td><\/tr><tr><td>ATRLA N\u00ba 15\/16 &#8211; Enero 2023 &#8211; Marzo 2025<\/td><\/tr><tr><td><\/td><\/tr><tr><td><strong><em>N\u00fameros anteriores <\/em><\/strong><\/td><\/tr><tr><td><\/td><\/tr><tr><td><a href=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-admin\/post.php?post=7505&amp;action=edit\">ATRLA N\u00ba 13\/14 Marzo 2019 &#8211; Diciembre 2022<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6275\">ATRLA N\u00ba 11\/12 Marzo 2016 &#8211; Febrero 2019<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6270\">ATRLA N\u00ba 10 Marzo 2015 &#8211; Febrero 2016<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6200\">ATRLA N\u00ba 9 Marzo 2014 &#8211; Febrero 2015<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6186\">ATRLA N\u00ba 8 Marzo 2013 &#8211; Febrero 2014<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6177\">ATRLA N\u00ba 7 Marzo 2012 &#8211; Febrero 2013<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6159\">ATRLA N\u00ba 6 Marzo 2011 &#8211; Febrero 2012<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6138\">ATRLA N\u00ba 5 Marzo 2010 &#8211; Febrero 2011<\/a><\/td><\/tr><tr><td>\ufeff<\/td><\/tr><tr><td><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=5921\">ATRLA N\u00ba 1 a 4 2006 &#8211; 2009<\/a><\/td><\/tr><tr><td><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n<\/div><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=6661\">Qui\u00e9nes somos<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?page_id=809\">Normas de publicaci\u00f3n<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo O presente artigo analisou as lembran\u00e7as afetivas atrav\u00e9s da rememora\u00e7\u00e3o na obra Vermelho Amargo. 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