{"id":3320,"date":"2012-08-08T12:21:14","date_gmt":"2012-08-08T15:21:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?p=3320"},"modified":"2012-08-09T08:02:50","modified_gmt":"2012-08-09T11:02:50","slug":"lutar-contra-a-ditadura-o-imperialismo-e-o-subdesenvolvimento-o-pc-do-b","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/?p=3320","title":{"rendered":"Lutar Contra a Ditadura, o Imperialismo e o Subdesenvolvimento:"},"content":{"rendered":"<h3>O PC do Be a Guerrilha do Araguaia<\/h3>\n<p><strong>no Brasil nas d\u00e9cadas de 60 e 70<\/strong>*<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Patricia Sposito Mechi**<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Luis-Carlos-03.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3322\" title=\"Prestes Luis Carlos 03\" src=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Luis-Carlos-03.jpg\" alt=\"\" width=\"226\" height=\"275\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PC do B nos anos 60\u00a0 e 70 \u00a0procurou refletir sobre a quest\u00e3o camponesa, e este tema era fundamental na acep\u00e7\u00e3o do partido sobre a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. O envolvimento de camponeses numa revolu\u00e7\u00e3o proposta pelos comunistas comp\u00f5e um arsenal te\u00f3rico mais amplo, que envolve o papel do partido, o tipo de revolu\u00e7\u00e3o e a forma de envolvimento dos trabalhadores urbanos e rurais, o envolvimento de outros segmentos sociais, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Derecha: Luis Carlos Prestes (1898-1990)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As concep\u00e7\u00f5es do partido n\u00e3o eram inevit\u00e1veis e n\u00e3o estavam prontas no in\u00edcio dos anos 60. Neste cap\u00edtulo procuraremos apresentar as concep\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-pol\u00edticas desenvolvidas pelo PC do B de modo a revelar a fun\u00e7\u00e3o que cumpre uma luta de car\u00e1ter rural no interior desta concep\u00e7\u00e3o. <!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, para compreender o que foi a guerrilha do Araguaia para o Partido Comunista do Brasil, \u00e9 preciso entender de que maneira o partido chegou at\u00e9 ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partiremos da cis\u00e3o no interior do PCB, que deu origem ao PC do B em 1962, apontando o que a bibliografia acad\u00eamica tem afirmado sobre a cis\u00e3o.\u00a0 A abordagem do momento do surgimento do PC do B e suas pol\u00eamicas com o PCB \u00e9 importante para demarcar quais s\u00e3o os elementos distintivos entre os dois partidos e quais aqueles que eram comuns j\u00e1 que s\u00e3o os elementos que distinguem o PC do B que permitem o tra\u00e7ado de uma rota que os conduziu ao Araguaia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O embate te\u00f3rico e pol\u00edtico com o PCB se estende a toda a d\u00e9cada de 1960 e 1970, mas o momento de maior efervesc\u00eancia se situa entre 1957, quando os grupos que comp\u00f5e os dois partidos ainda est\u00e3o unidos no interior do PCB e 1964, com a deflagra\u00e7\u00e3o do golpe militar, que n\u00e3o permite mais que o debate p\u00fablico entre os comunistas continue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalharemos tamb\u00e9m com a avalia\u00e7\u00e3o do PC do B sobre o golpe e as estrat\u00e9gias de luta que o partido adotou ent\u00e3o. Apesar de uma ret\u00f3rica sobre a luta armada estar presente na documenta\u00e7\u00e3o do partido e, de fato, o partido apresentar esta perspectiva no governo de Jo\u00e3o Goulart, o PC do B s\u00f3 colocou em pr\u00e1tica a estrat\u00e9gia de luta no campo a partir de 1967, ap\u00f3s o golpe, portanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As lutas pela democracia, a resposta ao governo e a luta armada, decorrentes da leitura do partido sobre o golpe que foram se desenvolvendo em meados dos anos 60, tamb\u00e9m ser\u00e3o abordadas neste trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1 \u2013 O PC do B entre 1962 e 1964 e a procura de firmar-se como o verdadeiro partido da classe oper\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Luis-Carlos-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3331 alignleft\" title=\"Prestes Luis Carlos 01\" src=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Luis-Carlos-01.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Luis-Carlos-01.jpg 300w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Luis-Carlos-01-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O partido atualmente denominado Partido Comunista do Brasil, PC do B, tem uma origem controversa. Seus militantes procuram identific\u00e1-lo com o partido fundado em 1922. Esta busca de identifica\u00e7\u00e3o com o partido fundado em 1922 sempre esteve entre as preocupa\u00e7\u00f5es dos militantes do PC do B e perdura at\u00e9 os dias atuais[1]. Contudo, grande parte da bibliografia acad\u00eamica e militante de outras legendas de esquerda localiza a origem do PC do B em 1962. N\u00e3o h\u00e1 consenso entre pesquisadores e militantes sobre a data de surgimento do PC do B. Aos olhos de hoje, mesmo com a insist\u00eancia do PC do B e os recha\u00e7os que o partido recebe em se identificar com o partido de 1922, pode parecer uma quest\u00e3o menor. Mas ela revela o que parte da bibliografia acad\u00eamica chama de \u201ccar\u00e1ter pendular\u201d[2] da pol\u00edtica do partido comunista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano de 1962 demarca uma profunda ruptura entre os comunistas brasileiros, que vinha crescendo ao menos desde 1956. Neste ano, concretiza-se uma cis\u00e3o que d\u00e1 origem a dois Partidos Comunistas no Brasil: o PCB \u2013 Partido Comunista Brasileiro e o PC do B \u2013 Partido Comunista do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas explica\u00e7\u00f5es sobre a cis\u00e3o dos comunistas ganharam maior for\u00e7a na bibliografia especializada. A primeira refere-se, grosso modo, a uma separa\u00e7\u00e3o entre <em>estalinistas<\/em> (que teriam fundado o PC do B) e <em>n\u00e3o estalinistas<\/em>, que teriam permanecido no PCB; a outra indica\u00a0 que pol\u00eamica sobre o caminho para a revolu\u00e7\u00e3o \u2013 se armado ou pela via pac\u00edfica \u2013 teria dado origem a cis\u00e3o. Uma terceira interpreta\u00e7\u00e3o, menos divulgada, \u00e9 a de que a origem da cis\u00e3o residiria na posi\u00e7\u00e3o dos comunistas frente a burguesia. Esta \u00faltima, defendida por Valter Pomar, nos parece mais acertada e procuraremos defend\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1.1. A cis\u00e3o dos comunistas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 o in\u00edcio dos anos de 1960, existia no Brasil apenas um Partido Comunista, que se chamava Partido Comunista do Brasil e possu\u00eda a sigla PCB. Este partido, via no contexto do governo democr\u00e1tico de Jo\u00e3o Goulart a possibilidade de legalizar-se e promoveu algumas modifica\u00e7\u00f5es em seus estatutos, retirando as refer\u00eancias ao marxismo-leninismo e modificando seu nome \u2013 passava a se chamar a partir de ent\u00e3o Partido Comunista Brasileiro, mas mantinha a sigla PCB.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um grupo expressivo no interior do partido, incluindo alguns de seus dirigentes, divulgou documentos em que afirmavam que a retirada da refer\u00eancia ao marxismo-leninismo e a mudan\u00e7a no nome do partido era uma tentativa do grupo revisionista de liquidar o partido e, para preserv\u00e1-lo, organizariam uma confer\u00eancia extraordin\u00e1ria que o reorganizaria. Esta confer\u00eancia marcou a cis\u00e3o entre os comunistas, que passaram a se organizar no dois referidos partidos: o Partido Comunista do Brasil e o Partido Comunista Brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 18 de fevereiro de 1962, ex-dirigentes do PCB, que haviam sido expulsos do partido, realizaram uma Conferencia Nacional Extraordin\u00e1ria, em que decidiram o \u201creorganizar\u201d. Da confer\u00eancia resultou a elei\u00e7\u00e3o de um Comit\u00ea Central de 25 membros, com um Secretariado de cinco membros: Jo\u00e3o Amazonas, Maur\u00edcio Grabois, Pedro Pomar, Carlos Danielli e Calil Chade[3].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo que organizou a Confer\u00eancia Nacional Extraordin\u00e1ria havia sido expulso do partido ap\u00f3s terem divulgado a \u201cCarta dos Cem\u201d, em que dirigiam s\u00e9rias cr\u00edticas ao Comit\u00ea Central do PCB, sendo o foco central da cr\u00edtica a viola\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios partid\u00e1rios, a indisciplina e o comprometimento da unidade do partido. Num extrato da \u201cCarta\u201d, l\u00ea-se:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abO Suplemento de <em>Novos Rumos<\/em>, de 11-8-61, publica o Programa e os Estatutos de um chamado Partido Comunista Brasileiro. O camarada Prestes, em manifesto dirigido ao povo, estampado no mesmo jornal, diz que aqueles documentos ser\u00e3o encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral, visando o registro de tal partido.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abEstes documentos constituem, a nosso ver, viola\u00e7\u00e3o frontal dos princ\u00edpios partid\u00e1rios(&#8230;) ferem a disciplina e atingem a pr\u00f3pria unidade do Partido. O artigo 32 dos Estatutos diz As decis\u00f5es do Congresso s\u00e3o obrigat\u00f3rias para todo o Partido e n\u00e3o podem ser revogadas, no todo ou em parte, sen\u00e3o por outro Congresso.\u00bb [4]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida, no aspecto da viola\u00e7\u00e3o \u00e0s determina\u00e7\u00f5es do Congresso e de o CC agir \u00e0 revelia da base, o grupo dissidente tem raz\u00e3o. Contudo, uma pr\u00e1tica autorit\u00e1ria como esta, n\u00e3o foi problema em outro momento da hist\u00f3ria do partido, a saber, o CC tomar a decis\u00e3o em nome da base, inclusive, no processo de legaliza\u00e7\u00e3o de 1945.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que os dissidentes fizeram foi elevar \u00e0 categoria de mudan\u00e7a ideol\u00f3gica aquilo que era apenas um subterf\u00fagio para o registro eleitoral. Pomar explica que utilizar subterf\u00fagios n\u00e3o era novidade no PCB, pois em 1945, j\u00e1 havia o feito para tornar-se um partido legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abo que se fez em 1962 foi algo semelhante ao que j\u00e1 se fizera em 1945 &#8211; com o acr\u00e9scimo da mudan\u00e7a de nome: uma s\u00e9rie de \u00abadapta\u00e7\u00f5es\u00bb no programa partid\u00e1rio, na esperan\u00e7a de assim driblar a vigil\u00e2ncia da justi\u00e7a eleitoral\u00a0[5]. (&#8230;) Os dissidentes est\u00e3o formalmente certos quando reclamam que s\u00f3 um Congresso poderia alterar o nome do Partido, seus estatutos e programa. Mas as altera\u00e7\u00f5es feitas em 1945 prescindiram de um Congresso. Fato que o Comit\u00ea Central n\u00e3o podia invocar na sua resposta, uma vez que isso seria admitir que o pedido de registro baseava-se, novamente, em artimanhas jur\u00eddicas &#8211;inclusive a mudan\u00e7a de nome\u00a0[6].\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos documentos em que o grupo dissidente critica o grupo de Prestes e na resposta do grupo de Prestes expulsando os dissidentes, n\u00e3o h\u00e1 qualquer refer\u00eancia a como se desenrolou o processo de legaliza\u00e7\u00e3o em 1945, isto porque elementos importantes de ambos os lados se envolveram no processo de legaliza\u00e7\u00e3o de 1945, que apresentou caracter\u00edsticas semelhantes \u00e0 tentativa de 1961.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pomar recupera o processo de legaliza\u00e7\u00e3o e cassa\u00e7\u00e3o do PCB para demonstrar que a mudan\u00e7a no nome do partido e a confec\u00e7\u00e3o de estatutos para fins legais foi utilizado como pretexto pelos militantes divergentes.\u00a0 Alguns epis\u00f3dios curiosos s\u00e3o apontados pelo autor: o PCB, quando entrou com um pedido para legaliza\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a eleitoral, foi questionado em diversos pontos de seu estatuto e programa em temas como a desapropria\u00e7\u00e3o de terras, a uni\u00e3o nacional e a socializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o. As respostas criativas enviadas pelo partido a justi\u00e7a eleitoral inclu\u00edam, por exemplo, a afirma\u00e7\u00e3o de que,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abNo programa do Partido Comunista do Brasil n\u00e3o se incluem os princ\u00edpios filos\u00f3ficos marxistas leninistas, nem quaisquer outros princ\u00edpios filos\u00f3ficos, mas apenas as proposi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas consideradas pelo Partido fundamentais, dentro da realidade brasileira, para a Unidade, a Democracia e o Progresso de nossa P\u00e1tria \u00ab[7].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das alega\u00e7\u00f5es que trazia a \u201cCarta dos Cem\u201d, a retirada do \u201cmarxismo-leninismo\u201d dos estatutos, j\u00e1 havia acontecido em 1945 e n\u00e3o havia significado naquela ocasi\u00e3o o abandono deste princ\u00edpio pelo partido. Os documentos apresentados pelo PCB e as respostas que o partido apresentou aos questionamentos feitos pelo relator nos levam a inferir que eles foram recebidos como um engodo, contudo n\u00e3o haveria como proibir a exist\u00eancia legal do PCB naquele contexto. O relator n\u00e3o deixa de utilizar uma pitada de ironia em seu parecer que legaliza o PCB:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abSer\u00e1 um partido comunista sui-generis; um comunismo de que se esvaziou toda subst\u00e2ncia ideol\u00f3gica; um comunismo do Brasil; um partido comunista, em suma, sem marxismo, sem leninismo, sem ditadura do proletariado, sem nada do que se compreende por comunismo no mundo inteiro. Mas, um partido do lado oposto, um partido liberal, um partido capitalista, um partido democr\u00e1tico, pelo compromisso escrito de respeito integral aos princ\u00edpios democr\u00e1ticos, \u00e0 brasileira, e respeito aos direitos fundamentais do homem, definidos na Constitui\u00e7\u00e3o, uma democracia, em suma \u00e0 inglesa[8].\u00bb (in: <em>Di\u00e1rio da Justi\u00e7a <\/em>de 2\/2\/1946, citado por Luiz Bicalho, p.99)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guardadas as devidas dist\u00e2ncias, a leitura que o grupo que daria origem ao PC do B fez dos novos estatutos, aponta tamb\u00e9m para um partido comunista \u201csem marxismo, sem leninismo\u201d, ao afirmar que os novos estatutos liquidavam \u201ctradicional partido de vanguarda da classe oper\u00e1ria\u201d e o substitu\u00edam \u201cpor uma organiza\u00e7\u00e3o desprovida de caracter\u00edsticas revolucion\u00e1rias\u201d[9].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta refer\u00eancia, muito mais do que sinalizar para o problema da mudan\u00e7a do nome do partido \u00e0 revelia das resolu\u00e7\u00f5es do Congresso, aponta para as cr\u00edticas que o grupo dissidente vinha fazendo ao grupo de Prestes, que podem ser traduzidas de forma sint\u00e9tica como <em>cr\u00edtica ao revisionismo<\/em>, que cont\u00e9m diversos elementos e que veremos mais adiante. Por ora, para finalizar a quest\u00e3o da falsidade da pol\u00eamica em torno da legaliza\u00e7\u00e3o, citamos outro trecho do documento, onde l\u00ea-se que \u201cA legalidade do Partido n\u00e3o pode ser obtida com manipula\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, nem atrav\u00e9s de concess\u00f5es em mat\u00e9ria de princ\u00edpios, e, muito menos tentando enganar com manobras a justi\u00e7a das classes dominantes\u201d[10]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro meses ap\u00f3s a legaliza\u00e7\u00e3o do PCB em 1945, dois pedidos de cassa\u00e7\u00e3o foram apresentados ao TSE, sob a alega\u00e7\u00e3o de que o partido era uma filial do partido da R\u00fassia. Coube ao Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal investigar o partido e a investiga\u00e7\u00e3o se concentrou em examinar a imprensa do PCB e a \u201cna suposta exist\u00eancia de outro Estatuto e Programa, diferentes daqueles formalmente registrados no Tribunal[11].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado abertamente na imprensa comunista como \u201cProjeto de reforma do Estatuto\u201d, o verdadeiro Estatuto do PCB foi \u201cdescoberto\u201d pelo TRE do Distrito Federal que alegou que \u201ceste \u2018projeto de reforma\u2019 \u00e9 o estatuto verdadeiro, lan\u00e7ando m\u00e3o para isto do regulamento da comiss\u00e3o de finan\u00e7as, que faz diversas refer\u00eancias ao projeto de reforma, demonstrando ser este o estatuto <em>de fato <\/em>do partido\u201d[12].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos signat\u00e1rios da \u201ccarta dos Cem\u201d e que se tornaria nos anos 60 e 70 um dos principais dirigentes do PCdoB, Jo\u00e3o Amazonas, \u00e0s v\u00e9speras da cassa\u00e7\u00e3o do registro do PCB, foi respons\u00e1vel por tentar reverter a \u201cdescoberta\u201d do verdadeiro estatuto do partido, afirmando que:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abtrata-se de projeto de reforma, n\u00e3o dos Estatutos ora em vigor e devidamente registrados, mas dos antigos Estatutos, que tamb\u00e9m estavam regularmente registrados. Os Estatutos atuais, acrescentou, j\u00e1 exprimem aquele Projeto depois de debatido e votado pelos \u00f3rg\u00e3os competentes do Partido. Quanto ao Regulamento da Comiss\u00e3o de Finan\u00e7as, asseverou haver sido elaborado por \u00c1lvaro Soares Ventura, ent\u00e3o Tesoureiro do partido, e a refer\u00eancia [ao \u00abprojeto de reforma\u00bb] resulta de um lapso de sua parte, tanto mais compreens\u00edvel quando se sabe haver partido de um homem simples, de instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, pouco afeto a assuntos desta natureza.\u00bb[13]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 bastante claro que o PCB para obter seu registro legal em 1945 utilizou subterf\u00fagios para que um parlamento majoritariamente burgu\u00eas n\u00e3o tivesse outra sa\u00edda, no contexto do p\u00f3s-guerra, a n\u00e3o ser aceitar o registro do Partido. \u00c9 evidente tamb\u00e9m que n\u00e3o fosse pela manobra jur\u00eddica, de apresentar um \u201cestatuto apenas para fins de registro\u201d, o partido n\u00e3o teria sido legalizado. Nos detivemos nesta quest\u00e3o porque entre os envolvidos nas artimanhas para a legaliza\u00e7\u00e3o em 1945, estava o j\u00e1 citado Jo\u00e3o Amazonas e tamb\u00e9m Maur\u00edcio Grabois, juntamente com Prestes. Estes tr\u00eas nomes foram os que tentaram, ap\u00f3s a cassa\u00e7\u00e3o do partido, tentar fazer com que a agremia\u00e7\u00e3o continuasse funcionando como sociedade civil. Nunca \u00e9 de mais lembrar que dos tr\u00eas nomes, dois constavam da Carta dos Cem que afirmava que \u201cA luta pela legalidade do Partido \u00e9 uma luta pol\u00edtica e n\u00e3o pode ser feita escondendo-se seus objetivos, sua doutrina e suas tradi\u00e7\u00f5es (&#8230;) Assim pensando, n\u00e3o podemos concordar com a altera\u00e7\u00e3o do nome do nosso glorioso Partido[14].\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Grabois-Mauricio.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3342 alignright\" title=\"Grabois Mauricio\" src=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Grabois-Mauricio.jpg\" alt=\"\" width=\"202\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Grabois-Mauricio.jpg 289w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Grabois-Mauricio-216x300.jpg 216w\" sizes=\"auto, (max-width: 202px) 100vw, 202px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Derecha: Mauricio Grabois<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apoiados em alguns dos argumentos que foram aqui apresentados, Pomar afirma que \u201cA mudan\u00e7a de nome constitui uma repeti\u00e7\u00e3o farsesca da exclus\u00e3o de qualquer refer\u00eancia \u00e0 \u2018se\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista\u2019, feita antes com o mesmo prop\u00f3sito[15]. J\u00e1 que n\u00e3o era a primeira vez que o partido lan\u00e7ara m\u00e3o de subterf\u00fagios para conseguir a legalidade. \u201cNesse sentido, a tentativa de 1961 n\u00e3o constitu\u00eda uma novidade, nem para os que a praticavam, nem para os que opunham a ela\u201d[16].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cCarta dos Cem\u201d teve como resposta um documento publicado na No <em>seman\u00e1rio Novos Rumos<\/em>, que acusava os dissidentes de fracionistas (a fra\u00e7\u00e3o era proibida no PCB) e expulsava uma s\u00e9rie de dirigentes,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abEm defesa da unidade do movimento comunista brasileiro, denunciamos aos comunistas, aos amigos e simpatizantes, aos trabalhadores em geral, a atividade de um pequeno grupo fracionista encabe\u00e7ado por Jo\u00e3o Amazonas, Maur\u00edcio Grabois e Pedro Pomar, que no passado exerceram fun\u00e7\u00f5es dirigentes de \u00e2mbito nacional no movimento comunista. Do grupo fazem parte tamb\u00e9m Jos\u00e9 Duarte, \u00c2ngelo Arroyo, Walter Martins (Pepe), Calil Chade, Carlos Danielli e Lincoln Oeste. Este reduzido n\u00famero de elementos lan\u00e7ou-se a um ataque sistem\u00e1tico contra a unidade e a disciplina do movimento comunista, violou as decis\u00f5es adotadas e entregou-se a uma insidiosa atividade desagregadora, sendo, por isso, expulso de nossas fileiras.\u00bb (&#8230;) \u00abAs origens do grupo remontam a fins de 1956, princ\u00edpios de 1957, quando se travou em nossas fileiras intensa luta interna, a prop\u00f3sito de quest\u00f5es suscitadas em torno do XX Congresso do PCUS\u00bb.[17]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cis\u00e3o, a expuls\u00e3o de parte de seus dirigentes e o surgimento de dois PCs no Brasil refletem quest\u00f5es mais profundas. O grupo que deu origem ao PC do B vinha, desde 1956, travando uma batalha no interior do PCB, combatendo aquilo que identificavam como \u201csurto revisionista\u201d. A interpreta\u00e7\u00e3o oferecida por Mois\u00e9s Vinha corrobora nossa afirma\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00ab(&#8230;) a luta interna que vem sendo travada desde o XX Congresso do PCUS, em 1956, encontra o seu desfecho em fevereiro de 1962, com a ruptura \u00e0 esquerda do grupo que considera inaceit\u00e1vel a virada pol\u00edtica do PCB. O pretexto \u00e9 a mudan\u00e7a do nome para Partido Comunista Brasileiro e a retirada, do programa, da palavra de ordem da &#8216;ditadura do proletariado&#8217;, medidas tomadas pelo Comit\u00ea Central fora de um Congresso do partido, visando facilitar a luta pela legaliza\u00e7\u00e3o.\u00a0[18]\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quatro temas s\u00e3o apontados por Pomar como importantes para compreender a cis\u00e3o do partido comunista: o estalinismo, o mao\u00edsmo, a via pac\u00edfica e a interpreta\u00e7\u00e3o da realidade brasileira. Os temas emergiram para o autor a partir de uma extensa an\u00e1lise realizada sobre a literatura acad\u00eamica, que aborda a cis\u00e3o, ainda que marginalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das interpreta\u00e7\u00f5es sobre a cis\u00e3o aponta que se trataria de um rompimento entre estalinistas e n\u00e3o-estalinistas. Os estalinistas teriam perdido a hegemonia que possu\u00edam na dire\u00e7\u00e3o do partido at\u00e9 1957, ap\u00f3s terem iniciado um debate sobre o relat\u00f3rio Krushev. Pomar descreve assim o epis\u00f3dio:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abA imprensa do PCdoB come\u00e7a, \u00e0 revelia da dire\u00e7\u00e3o, a discuss\u00e3o sobre o Relat\u00f3rio, que logo se torna um debate sobre os princ\u00edpios, a estrat\u00e9gia, a t\u00e1tica e a concep\u00e7\u00e3o de partido vigentes no movimento comunista internacional, e principalmente brasileiro. Alguns meses depois, Prestes em pessoa toma a iniciativa de \u201cpor ordem\u201d no debate. Os cr\u00edticos mais veementes s\u00e3o afastados ou se afastam. Em 1957, os dirigentes supostamente identificados com pr\u00e1ticas \u201cmandonistas\u201d s\u00e3o afastados do Politburo (comiss\u00e3o pol\u00edtica central do Partido) e do secretariado do Partido Comunista. Forma-se um novo n\u00facleo dirigente, este como o anterior ao redor de Prestes[19].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importante observar que os grupos que assumem a dire\u00e7\u00e3o do PCB se organizam sempre em torno de Prestes, que \u201cp\u00f5e ordem\u201d no debate. Um dos aspectos mais conhecidos do estalinismo, o \u201cculto \u00e0 personalidade\u201d, se desenvolveu no interior do PCB em torno da figura de Prestes que, ao \u201ccolocar ordem no debate\u201d tamb\u00e9m se utiliza das pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias e mandonistas de que foi acusada a dissid\u00eancia. Este fato ilustra algo que j\u00e1 foi demonstrado por alguns autores, a saber, as pr\u00e1ticas estalinistas s\u00e3o comuns ao PCB e ao PCdoB[20]. N\u00e3o seria este, portanto, o motivo da cis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1.2 O Partido da Revolu\u00e7\u00e3o e o Partido das Reformas: O PC do B se contrap\u00f5e ao PCB<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Olga.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-3333\" title=\"Prestes -Olga\" src=\"http:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Olga.jpg\" alt=\"\" width=\"210\" height=\"272\" srcset=\"https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Olga.jpg 300w, https:\/\/www.ariadnatucma.com.ar\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Prestes-Olga-231x300.jpg 231w\" sizes=\"auto, (max-width: 210px) 100vw, 210px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o XX Congresso do PCUS, com a tentativa do grupo composto por Jo\u00e3o Amazonas, Maur\u00edcio Grabois e Pedro Pomar, de abrir um debate sobre as t\u00e1ticas, estrat\u00e9gias, princ\u00edpios e concep\u00e7\u00f5es do partido ter sido interrompida por Prestes, o caminho da cis\u00e3o entre os comunistas estava consolidado. As cr\u00edticas ao PCB s\u00e3o retomadas com profundidade\u00a0 a partir de 1962, quando o PC do B j\u00e1 existe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Derecha: Olga Benario, esposa de Prestes. Embarazada fue apresada por los nazis y asesinada en el campo de\u00a0Bernburg en la c\u00e1mara de gas (1908-1942)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estudo destas cr\u00edticas permite captar quais s\u00e3o os elementos distintivos entre os dois partidos, al\u00e9m de evidenciar que o PC do B procurou se firmar como o verdadeiro partido revolucion\u00e1rio, se contrapondo ao PCB que era apresentado como o partido das reformas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1963 o PC do B apresentou os argumentos que comprovariam o car\u00e1ter reformista do PCB. Se remetem a 1957, quando teria come\u00e7ado a haver \u201cpenetra\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias burguesas no Partido, que adquiriram for\u00e7a com o avan\u00e7o do capitalismo no pa\u00eds e com a t\u00e1tica de engodo utilizada pela burguesia\u201d[21] .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PC do B apontava como temer\u00e1ria foi a aproxima\u00e7\u00e3o dos comunistas com o governo, que vinha se processando desde o segundo mandato de Vargas, estendendo-se ao governo de JK, ora com discretas cr\u00edticas, ora com discretos apoios e, finalmente, \u00e0 uma aproxima\u00e7\u00e3o mais efetiva e aberta do PCB ao o governo de Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dirigentes eram responsabilizados diretamente por esta aproxima\u00e7\u00e3o, considerados reformistas e liderados por Lu\u00eds Carlos Prestes, que aplicariam\u00a0 \u201cm\u00e9todos conden\u00e1veis na condu\u00e7\u00e3o da luta ideol\u00f3gica\u201d[22] (idem), ou seja, se utilizariam de pr\u00e1ticas mandonistas e m\u00e9todos autorit\u00e1rios. Ainda que n\u00e3o mencionem explicitamente, trata-se de uma cr\u00edtica \u00e0s pr\u00e1ticas estalinistas do grupo de Prestes[23]. \u00a0Em raz\u00e3o disto, o grupo conclui que principais causas da cis\u00e3o foram de \u201cordem interna\u201d (ibidem), ou seja, foi a luta ideol\u00f3gica no interior do partido que teria provocado a cis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se atribu\u00eda aos fatores externos um peso determinante na cis\u00e3o, mas apenas reconhecia-se que eles de alguma forma contribu\u00edram para o rompimento, particularmente o XX Congresso dos PCUS. Este congresso \u00e9 apresentado como o de maior repercuss\u00e3o nas fileiras do partido, e teria aprovado \u201cteses bastante discut\u00edveis\u201d e lan\u00e7ado a \u201cconfus\u00e3o a respeito do culto \u00e0 personalidade\u201d teria estimulado os \u201doportunistas de todos os matizes\u201d, al\u00e9m de estimular tamb\u00e9m \u201caqueles que combatiam a exist\u00eancia de um partido independente da classe oper\u00e1ria, autenticamente revolucion\u00e1rio\u201d[24].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O XX Congresso do PCUS teria provocado um surto revisionista, cujo porta-voz seria Agildo Barata. O revisionismo teria sido no PCB combatido pela grande maioria dos militantes, inclu\u00eddo Prestes que, contudo, mudaria de posi\u00e7\u00e3o em 1957, aderindo \u00e0s id\u00e9ias do grupo liderado por Barata. Nesta virada, Prestes voltaria a ser \u201cum ardoroso apologista do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, com entusiasmo maior do que em 1945\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se delineou para os militantes descontentes foi a conjun\u00e7\u00e3o de fatores internos, cujo principal perigo era a penetra\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias burguesas no partido, com fatores externos, respons\u00e1vel por um \u201csurto revisionista\u201d no PCB.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que se depreende da avalia\u00e7\u00e3o do PC do B sobre a cis\u00e3o \u00e9 que j\u00e1 haveria, desde o segundo governo de Vargas, um grupo que ia se aproximando da burguesia e das estruturas de poder estatal e esta tend\u00eancia teria sido impulsionada e legitimada pelo XX Congresso dos PCUS. Ou seja, o Congresso apresentava recomenda\u00e7\u00f5es e diretrizes que vinham de encontro ao que o chamado \u201cgrupo revisionista\u201d j\u00e1 vinha fazendo desde 1957.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma bibliografia bastante extensa sobre os caminhos e descaminhos do PCB nos anos 50 e 60 e severas cr\u00edticas ao partido por sua inoper\u00e2ncia frente ao golpe militar, que n\u00e3o cabe recuperar agora. Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio frisar que o PCB, com erros, respondeu da maneira poss\u00edvel \u00e0 conjuga\u00e7\u00e3o de fatores internos e externos. Se, por um lado, o partido n\u00e3o foi capaz de avaliar a escalada da direita e a prepara\u00e7\u00e3o para o golpe, sendo pego de surpresa em 31 de mar\u00e7o de 1964, por outro, o partido avaliou a necessidade de apoiar as reformas de base e de organizar os trabalhadores no pr\u00e9-64.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contudo, na avalia\u00e7\u00e3o do PC do B, n\u00e3o era a conjuntura do governo de Jo\u00e3o Goulart que determinava a aproxima\u00e7\u00e3o dos comunistas, mas sim o incentivo recebido pelo XX Congresso. \u00c9 not\u00f3rio entre os estudiosos que o XX Congresso instaura uma nova tend\u00eancia no movimento comunista internacional, impactando os partidos comunistas pelo mundo todo. A revela\u00e7\u00e3o dos crimes de St\u00e1lin, a divulga\u00e7\u00e3o das farsas dos processos de Moscou, a divulga\u00e7\u00e3o das atrocidades stalinistas provocaram uma profunda crise entre comunistas do mundo todo.\u00a0 Mas para o PC do B, apesar da relev\u00e2ncia do Congresso na crise interna do PCB, ela apenas acentuou uma tend\u00eancia que j\u00e1 existia no partido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o PC do B o objetivo do V Congresso do PCB realizado em 1960, era isolar os militantes que combatiam o revisionismo o grupo de Prestes, j\u00e1 que este congresso teria sido \u201ctendenciosamente preparado\u201d, com \u201cinterfer\u00eancias ind\u00e9bitas\u201d nas Confer\u00eancias e Assembleias partid\u00e1rias visando \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da linha pol\u00edtica oportunista e \u00e0 escolha de delegados que estivessem de acordo com tal linha\u201d No congresso, \u201cinsignificante era a representa\u00e7\u00e3o dos elementos divergentes\u201d e \u201cn\u00e3o refletiu a vontade do Partido\u201d[25].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PC do B avaliou, ent\u00e3o, que o principal objeto do V Congresso era isolar do Comit\u00ea Central aqueles que discordavam da linha pol\u00edtica adotada pelo partido, j\u00e1 que foram afastados \u201cdoze dos seus membros efetivos, num conjunto de 25, al\u00e9m de v\u00e1rios suplentes\u201d[26].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A consolida\u00e7\u00e3o das diverg\u00eancias no V Congresso do PCB<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que o V Congresso do PCB expressa de fato \u00e9 uma nova orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com implica\u00e7\u00f5es para a atua\u00e7\u00e3o dos comunistas a partir de ent\u00e3o. No congresso se avaliava que o Brasil apresentava condi\u00e7\u00f5es para a ado\u00e7\u00e3o de um caminho pac\u00edfico para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira e se identificava os principais inimigos a serem combatidos como\u00a0 o imperialismo, principalmente o imperialismo estadunidense e os latifundi\u00e1rios. Para combater estes inimigos, o PCB propunha a forma\u00e7\u00e3o de uma Frente \u00danica, que congregasse as \u201cv\u00e1rias for\u00e7as interessadas na emancipa\u00e7\u00e3o e no progresso do Brasil\u201d[27].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o brasileira era avaliada como favor\u00e1vel \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um governo de coaliz\u00e3o que representasse as for\u00e7as nacionalistas e democr\u00e1ticas, incluindo os comunistas; apontava-se para a necessidade do fortalecimento do partido na organiza\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o das lutas populares. Estas lutas populares, de car\u00e1ter antimperialistas, seriam o passaporte de entrada para os trabalhadores participarem do governo de coaliz\u00e3o, na medida em que esta atua\u00e7\u00e3o fortaleceria uma burguesia nacional e democr\u00e1tica, incapaz de enfrentar sozinha o imperialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta conjuntura, em que entreabria-se a possibilidade de participa\u00e7\u00e3o num governo popular e democr\u00e1tico, a concep\u00e7\u00e3o do partido como uma pequena organiza\u00e7\u00e3o, voltada para agita\u00e7\u00e3o e propaganda era considerada um est\u00e1gio superado. Era necess\u00e1rio que o partido se tornasse efetivamente um partido de massas, \u201cpoderoso do ponto de vista num\u00e9rico e organizativo, consciente e firme do ponto de vista pol\u00edtico e ideol\u00f3gico\u201d[28].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, o PCB apresenta no V Congresso modifica\u00e7\u00f5es profundas na linha pol\u00edtica do partido, abandonando a perspectiva de uma tomada violenta do poder e propondo a participa\u00e7\u00e3o dos comunistas no jogo eleitoral e no governo, como forma de promover a revolu\u00e7\u00e3o antimperialista e antifeudal. A nova pol\u00edtica foi veementemente combatida pelo grupo que daria origem ao PC do B.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.1.3 \u2013 O Partido da Revolu\u00e7\u00e3o e o Partido das Reformas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos seus primeiros documentos o PC do B passou a se apresentar como a ant\u00edtese do PCB. Destacaremos algumas dessas posi\u00e7\u00f5es, reproduzindo trechos de um documento bastante elucidativo produzido pelo PC do B, intitulado \u201cPartido da Revolu\u00e7\u00e3o e Partido das Reformas\u201d:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL luta pela derrubada do atual regime de latifundi\u00e1rios e grandes capitalistas e pela instaura\u00e7\u00e3o de um regime efetivamente popular, \u00fanico capaz de realizar as transforma\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis ao progresso do pa\u00eds, ao bem-estar do povo e \u00e0 obten\u00e7\u00e3o da completa independ\u00eancia nacional. O Partido Comunista Brasileiro n\u00e3o combate o regime vigente, mas apenas propugna transforma\u00e7\u00f5es parciais na estrutura do pa\u00eds, nos marcos desse mesmo regime, sob o pretexto de que elas abrir\u00e3o caminho para mudan\u00e7as radicais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL luta por um governo popular revolucion\u00e1rio que represente as classes e camadas progressistas da sociedade brasileira e que substitua o poder dos latifundi\u00e1rios e grandes capitalistas. O Partido Comunista Brasileiro tem como objetivo a conquista de um chamado governo nacionalista e democr\u00e1tico que seria alcan\u00e7ado com o afastamento do governo dos ministros entreguistas e a designa\u00e7\u00e3o de outros considerados nacionalistas e democratas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL luta irreconciliavelmente contra o governo de latifundi\u00e1rios e grandes capitalistas, desmascara suas manobras, n\u00e3o inculca ilus\u00f5es nas massas a respeito do car\u00e1ter do governo de Goulart. O Partido Comunista Brasileiro estabelece como tarefa do povo lutar simplesmente contra a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o com o imperialismo e o latif\u00fandio realizada pelo atual governo a fim de conseguir que este se torne um governo nacionalista e democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL, com o prop\u00f3sito de realizar a revolu\u00e7\u00e3o nacional-libertadora, democr\u00e1tica e popular, empenha-se na forma\u00e7\u00e3o de uma frente \u00fanica de todas as for\u00e7as revolucion\u00e1rias da sociedade brasileira, tendo como n\u00facleo fundamental os oper\u00e1rios e os camponeses. O Partido Comunista Brasileiro, visando unicamente \u00e0 conquista de reformas parciais, esfor\u00e7a-se para formar a denominada frente \u00fanica nacionalista e democr\u00e1tica que inclui toda a burguesia e mesmo setores de latifundi\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL julga que, na presente situa\u00e7\u00e3o, as classes dominantes tornam invi\u00e1vel o caminho pac\u00edfico da revolu\u00e7\u00e3o e, por isso, o povo, sem deixar de utilizar todas as formas de luta legais, deve se preparar para a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pac\u00edfica. O Partido Comunista Brasileiro, sem qualquer apoio na realidade nacional, engana o povo afirmando que a revolu\u00e7\u00e3o antiimperialista e antifeudal pode ser conduzida a seus objetivos por um caminho pac\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL apresenta um programa revolucion\u00e1rio, proclama seus fins socialistas, afirma abertamente sua ades\u00e3o aos princ\u00edpios do marxismo-leninismo e do internacionalismo prolet\u00e1rio, n\u00e3o esconde seu nome nem sua natureza de classe. O Partido Comunista Brasileiro renega o velho Partido, renuncia ao programa revolucion\u00e1rio, oculta seu nome, deixando, em realidade, de ser o Partido do proletariado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Enfim, o PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL \u00e9 o Partido da revolu\u00e7\u00e3o. O Partido Comunista Brasileiro \u00e9 o partido das reformas. O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL luta para assegurar a hegemonia do proletariado na revolu\u00e7\u00e3o. O Partido Comunista Brasileiro marcha a reboque das classes dominantes, ajudando a burguesia a enganar as massas trabalhadoras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma s\u00e9rie de elementos s\u00e3o apresentados para caracterizar o PC do B como o \u201cverdadeiro partido da revolu\u00e7\u00e3o\u201d, contraposto ao PCB, o \u201cPartido das reformas\u201d. O primeiro ponto retoma a cr\u00edtica ao governo Goulart, apresentando uma posi\u00e7\u00e3o de enfrentamento e prop\u00f5e sua derrubada, contraposto ao que conclama o PCB, que pretendia controlar o governo Jango, empurrando-o para \u00e0 esquerda. Na acep\u00e7\u00e3o do PC do B, tratava-se de uma orienta\u00e7\u00e3o social-democrata, com semelhan\u00e7as ao revisionismo proposto por Berstein, na medida em que o PCB se propunha a participar do governo com vistas a conquistas parciais para o operariado, numa perspectiva evolucionista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O segundo tema se refere \u00e0 natureza do governo. O PC do B prop\u00f5e um \u201cgoverno popular revolucion\u00e1rio\u201d, e o PCB lutaria por um governo \u201cnacionalista e democr\u00e1tico\u201d. Morais sustenta que<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00aba despeito de sustentarem interpreta\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis sobre a hierarquiza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o de formas de luta e alian\u00e7as de classe, os comunistas brasileiros e os comunistas do Brasil mantiveram a mesma concep\u00e7\u00e3o de fundo sobre as transforma\u00e7\u00f5es que a sociedade brasileira exigia:\u00a0 elimina\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio e da domina\u00e7\u00e3o imperialista.\u00bb[29]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema da luta contra os \u201clatifundi\u00e1rios e grandes capitalistas\u201d e da revolu\u00e7\u00e3o \u201cnacional-libertadora\u201d revela que a avalia\u00e7\u00e3o do papel da articula\u00e7\u00e3o com a burguesia e outras for\u00e7as sociais tem diferen\u00e7as grandes entre os dois partidos e se vincula novamente \u00e0 derrubada do governo de Jo\u00e3o Goulart. O PC do B afirma lutar \u201cirreconciliavelmente contra o governo de latifundi\u00e1rios e grandes capitalistas; enquanto o PCB apenas \u201cluta contra a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o com o imperialismo e o latif\u00fandio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PC do B defendia a forma\u00e7\u00e3o de uma \u201cfrente\u201d; o PC do B afirmava que a \u201csua\u201d \u00e9 uma frente composta pelas for\u00e7as revolucion\u00e1rias, cm um n\u00facleo central formado por oper\u00e1rios e camponeses enquanto o PCB, \u201cvisando unicamente \u00e0 conquista de reformas parciais\u201d tentava formar uma frente \u00fanica nacionalista e democr\u00e1tica, que incluiria \u201ctoda a burguesia e mesmo setores latifundi\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a mais marcante, contudo, \u00e9 a quest\u00e3o da luta armada. Enquanto o PCB j\u00e1 havia explicitado o \u201ccaminho pac\u00edfico\u201d, o PC do B afirma que as classes dominantes inviabilizavam o caminho pac\u00edfico, e alertavam o povo para a prepara\u00e7\u00e3o para um \u201ccaminho n\u00e3o pac\u00edfico\u201d. Ainda n\u00e3o se usava explicitamente a express\u00e3o \u201cluta armada\u201d e ainda n\u00e3o havia defini\u00e7\u00e3o quanto ao seu car\u00e1ter. Contudo, a cr\u00edtica ao caminho pac\u00edfico evidencia que o caminho das armas j\u00e1 estava sendo cogitado, mas que s\u00f3 seria efetivamente adotado ap\u00f3s o golpe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, depois de apresentadas as diverg\u00eancias entre os dois partidos, o PC do B conclui ser o \u201cpartido da revolu\u00e7\u00e3o\u201d, contraposto ao PCB, o \u201cpartido das reformas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.2 \u2013\u00a0 Os problemas brasileiros, seus agentes e as solu\u00e7\u00f5es propostas pelo partido<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A avalia\u00e7\u00e3o sobre o golpe militar e as estrat\u00e9gias de luta do PC do B<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o golpe, o PC do B levantou quest\u00f5es diferentes sobre o governo Jango, omitindo as cr\u00edticas feitas anteriormente. N\u00e3o mais afirmou que Goulart era o \u201cchefe de um governo entreguista\u201d[30] e se concentrou em aspectos que at\u00e9 ent\u00e3o tinha omitido em seus documentos. Vejamos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Os trabalhadores da cidade e do campo podiam legalmente organizar e levantar suas reivindica\u00e7\u00f5es. As massas populares, os estudantes, a intelectualidade travavam intensos debates em torno dos problemas nacionais e apresentavam suas solu\u00e7\u00f5es (&#8230;) Espraiava-se no pa\u00eds um movimento em favor de mudan\u00e7as radicais na sociedade brasileira. A reforma agr\u00e1ria era exigida vigorosamente. Erguiam-se protestos contra a desenfreada espolia\u00e7\u00e3o imperialista[31]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A movimenta\u00e7\u00e3o das massas no pr\u00e9-64 foi finalmente apontada pelo PCdo B que, neste caso n\u00e3o podia culpar o PCB por n\u00e3o organiz\u00e1-las e n\u00e3o dirigir o movimento, j\u00e1 que tamb\u00e9m n\u00e3o o fez. Jango, o chefe do governo entreguista, passou a ser visto como um pol\u00edtico que n\u00e3o inspira \u201cconfian\u00e7a na rea\u00e7\u00e3o e no imperialismo\u201d (p.61) Ao comentar a inviabilidade do caminho pac\u00edfico, Jango \u00e9 apresentado como pol\u00edtico nacionalista, que se apoiava no \u201cmovimento sindical e nos comandos militares mais importantes\u201d[32].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O golpe, que pegou a esquerda despreparada, obrigou as organiza\u00e7\u00f5es e partidos a reavaliarem suas posi\u00e7\u00f5es e suas estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o, afinal, n\u00e3o se tratava mais de uma conjuntura em que os canais democr\u00e1ticos de participa\u00e7\u00e3o popular estivessem, pela for\u00e7a da a\u00e7\u00e3o das massas, se abrindo. Pelo contr\u00e1rio, a tend\u00eancia que se verificou depois foi de fechamento absoluto. O PC do B concluiu que os acontecimentos de abril demonstravam a inviabilidade do caminho pac\u00edfico, e confirmavam a leitura do partido que p\u00f4de desenvolver com mais profundidade a quest\u00e3o da luta armada. Apontaram a linha pacifica defendida pelo PCB como criminosa, j\u00e1 que ela teria sido respons\u00e1vel pelo desdobrar dos acontecimentos que culminaram no golpe; os defensores da linha pac\u00edfica s\u00e3o tamb\u00e9m apontados como \u201cos respons\u00e1veis principais\u201d pois se \u201ctivesse prevalecido a linha revolucion\u00e1ria, outro teria sido o curso dos acontecimentos\u201d (p.64).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o da luta armada recebeu maior problematiza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de reafirmar que as classes dominantes e o imperialismo norte-americano\u00a0 tornavam invi\u00e1vel a solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica, o PC do B aprofunda a an\u00e1lise sobre o papel das For\u00e7as Armadas no pa\u00eds:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Em toda a hist\u00f3ria do Brasil, desde a independ\u00eancia, o Ex\u00e9rcito tem sido chamado para sufocar os anseios e lutas de car\u00e1ter popular e para defender uma minoria exploradora que domina o pa\u00eds (&#8230;) \u00e9 permanente a atividade antidemocr\u00e1tica dos altos escal\u00f5es das For\u00e7as Armadas\u00a0 (&#8230;) agora a oficialidade retr\u00f3grada n\u00e3o somente dep\u00f4s o governo como se apoderou da m\u00e1quina governamental, inclusive da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica[33].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa trajet\u00f3ria antidemocr\u00e1tica das For\u00e7as Armadas que culminou no golpe de abril, leva o partido a perguntar \u201cEm tais condi\u00e7\u00f5es, como admitir o caminho pac\u00edfico?\u201d A resposta que encontrou o partido para afirmar a luta armada \u00e9 que mesmo que o movimento popular avan\u00e7asse na conquista de posi\u00e7\u00f5es e que houvesse uma ascens\u00e3o das lutas sociais, \u201csen\u00e3o contar com meios para enfrentar a viol\u00eancia das classes dominantes, acabar\u00e1 sendo batido\u201d. O partido recuperava assim a justificativa pela defesa da luta armada durante o governo de Jo\u00e3o Goulart, que deve ser nuan\u00e7ada, j\u00e1 que o que o PC do B evidencia no pr\u00e9-64 \u00e9 a capacidade de defesa frente \u00e0 viol\u00eancia das camadas dominante que, efetivamente se apresentariam ap\u00f3s o golpe. O que se depreende da\u00ed \u00e9 que a luta armada era\u00a0 uma op\u00e7\u00e3o para o PC do B desde a sua funda\u00e7\u00e3o, mas que se desenvolveu de maneiras diferentes no pr\u00e9 e no p\u00f3s-golpe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">a ideia de que o povo brasileiro necessita responder \u00e0 repress\u00e3o armada dos reacion\u00e1rios internos e dos imperialistas ianques com a luta armada, de que precisa estar preparado para isso \u00e9 hoje quest\u00e3o b\u00e1sica que deve nortear o pensamento e a a\u00e7\u00e3o de todos os verdadeiros revolucion\u00e1rios[34].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2.3 \u2013 As formas de luta para supera\u00e7\u00e3o do atraso: lutas populares pela democracia, resist\u00eancia ao governo e luta armada <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante os anos 60 e 70 em diversos pa\u00edses do mundo, vivia-se um sentimento de que o capitalismo estava prestes a ruir, que suas contradi\u00e7\u00f5es seriam insuper\u00e1veis e uma transi\u00e7\u00e3o para o socialismo estava na ordem do dia. Afinal de contas cerca de um ter\u00e7o da humanidade j\u00e1 vivia sob o signo da igualdade e justi\u00e7a social e isso deveria espalhar-se pelo mundo, liberando todos os povos da opress\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u201cesp\u00edrito da \u00e9poca\u201d motivou grandes movimentos de massa, que reivindicavam o \u201cimposs\u00edvel\u201d. O ano de 1968 talvez seja a s\u00edntese do que almejavam diversos segmentos sociais no mundo todo durante estas d\u00e9cadas. In\u00fameras explos\u00f5es e revoltas, como lembram Antunes &amp; Ridenti, selavam o \u201cfim dos anos dourados\u201d[35] e oper\u00e1rios, negros, homossexuais, estudantes ambientalistas e feministas, entre outros, se punham na cena p\u00fablica e apresentavam suas demandas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil tamb\u00e9m viveu, com especificidades, o movimento global de 1968. Mas as agita\u00e7\u00f5es populares come\u00e7aram muitos anos antes, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. Vivia-se um intenso processo de mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, que se colocavam como atores no cen\u00e1rio das lutas por um projeto social que os contemplasse e que possibilitasse o desenvolvimento de outras formas de sociabilidade, outras formas de inser\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o, de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, enfim, um cen\u00e1rio em que se questionavam as rela\u00e7\u00f5es sociais ent\u00e3o vigentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivia-se sob o governo do trabalhista Jo\u00e3o Goulart, apoiado pelo PCB, que procurava fazer reformas estruturais sem romper com o capitalismo, mas que apontavam para uma sa\u00edda da tutela imperialista. Pensava-se em um desenvolvimento capitalista aut\u00f4nomo, n\u00e3o mais subordinado aos pa\u00edses centrais do capitalismo; procurava-se uma rota de desenvolvimento que pudesse promover uma <em>atualiza\u00e7\u00e3o capitalista<\/em> que incorporasse grandes massas de trabalhadores aos benef\u00edcios do consumo e do mercado, procurando acabar com a condi\u00e7\u00e3o de miserabilidade em que vivia a imensa maioria dos trabalhadores do campo e da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A op\u00e7\u00e3o pelo trabalhismo era vista por setores da classe dominante como a porta de entrada para a sovietiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, para a preval\u00eancia da doutrina marxista-leninista e para a comuniza\u00e7\u00e3o do Brasil. Mas o temor mais imediato era ter os seus interesses junto ao capital estrangeiro afetados, num processo que inibisse a \u00fanica potencialidade da burguesia brasileira, ou seja, desenvolver-se de forma subordinada e associada ao imperialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u00fanica coisa que a burguesia brasileira podia vislumbrar era se manter subordinada, como s\u00f3cia menor, ao capital estrangeiro. Era incapaz de enxergar a possibilidade de se desenvolver sem ser tutelada e era incapaz de se integrar a um projeto de desenvolvimento aut\u00f4nomo. Uma burguesia que n\u00e3o p\u00f4de, por suas debilidades intr\u00ednsecas, se colocar como progressista em nenhum momento na hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentido seus interesses amea\u00e7ados pela onda crescente de mobiliza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, pelos debates que publicamente se faziam em torno das mudan\u00e7as estruturais que o pa\u00eds necessitava, setores da classe dominante se organizaram para atuar naquilo que Ren\u00e9 Dreifuss t\u00e3o bem conceituou como \u201cConquista do Estado\u201d[36] que, como lembra Quartim de Moraes, envolveu um amplo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00abespectro de interesses dominantes, todos empenhados em salvar, num s\u00f3 golpe, a propriedade, Deus, a fam\u00edlia e a liberdade: latifundi\u00e1rios enfurecidos, testas de ferro de trustes, ruidosas \u201cmarchadeiras\u201d (de ambos os sexos), militares adestrados para ca\u00e7ar comunistas, ao lado de conformistas assustados de todos os matizes\u00bb[37].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde os anos 50, come\u00e7ou-se a conspirar para impor ao pa\u00eds uma ditadura, que pudesse conter os avan\u00e7os evidentes que poderiam empurrar o pa\u00eds para um outro modelo de desenvolvimento, conspira\u00e7\u00e3o\u00a0 que foi\u00a0 destrinchada j\u00e1 nos anos oitenta pela monumental obra de Dreifuss, que demonstra a montagem feita pelas entidades patronais (o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais &#8211; IPES e o Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica \u2013 IBAD) na mobiliza\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria que conduziu ao golpe de 1964[38].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conspira\u00e7\u00e3o foi feita por militares e civis, os primeiros no\u00a0 papel de bonapartes, isto \u00e9, assumiriam em nome da burguesia a fun\u00e7\u00e3o de controle e repress\u00e3o das demandas dos trabalhadores e abririam as possibilidades institucionais para o mais amplo desenvolvimento da burguesia subordinada e para o capital estrangeiro. Esta ficaria fora da esfera do estado, n\u00e3o se responsabilizaria diretamente pela sua condu\u00e7\u00e3o e pela escalada do terror que seria imposta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o brasileira, nem sequer pelas medidas tomadas em favor de seu desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1964 veio o golpe, para por termo ao processo de ascens\u00e3o dos movimentos de massa e impor \u00e0 sociedade a solu\u00e7\u00e3o desejada pela burguesia associada e pelo capital internacional: a perman\u00eancia de um desenvolvimento atr\u00f3fico, sem incorporar as demandas populares e fazendo recair sobre os trabalhadores o fardo do desenvolvimento acelerado, da superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e da apropria\u00e7\u00e3o dual da mais valia[39].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, nesse compasso, perderam a possibilidade de expressarem seus posicionamentos de forma p\u00fablica, pois o debate democr\u00e1tico havia sido silenciado pela for\u00e7a das armas. Diversos dos personagens mais expressivos do cen\u00e1rio do pr\u00e9-64, foram cassados, perseguidos, torturados e assassinados. O cerco foi se fechando em torno daqueles que demandavam modifica\u00e7\u00f5es profundas nas estruturas do pa\u00eds, fossem elas comunistas, socialistas ou reformistas. A \u00fanica op\u00e7\u00e3o para a repress\u00e3o crescente que se abatia sobre as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda era a luta clandestina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A luta armada n\u00e3o se apresentou como uma op\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica antes de 1968 para a maioria das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda. Ela era objeto de debate, de teoriza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o havia ainda se reduzido \u00e0 \u00fanica possibilidade no enfrentamento \u00e0 ditadura militar. Com exce\u00e7\u00e3o do PC do B, como j\u00e1 afirmamos, que em seu manifesto-programa, de 1962, explicitava:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL julga que, na presente situa\u00e7\u00e3o as classes dominantes tornam invi\u00e1vel o caminho pac\u00edfico da revolu\u00e7\u00e3o e, por isso, o povo, sem deixar de utilizar todas as formas de luta legais, deve se preparar para uma solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pac\u00edfica[40]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trecho denota a inten\u00e7\u00e3o de desenvolver a luta armada j\u00e1 no governo de Jo\u00e3o Goulart, ponto que diferencia o PC do B das demais organiza\u00e7\u00f5es de esquerda do per\u00edodo que, conforme foi dito, s\u00f3 viram a op\u00e7\u00e3o pelas armas como a \u00fanica poss\u00edvel, a partir de 1968. No PC do B a luta armada tinha ainda uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com a quest\u00e3o agr\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo que deu origem ao PC do B vinha teorizando sobre a quest\u00e3o camponesa no Brasil, mesmo quando ainda estavam no interior do PCB, al\u00e9m de participarem de lutas pela terra no Brasil desde os anos 40. A luta armada, para esse grupo, teria origem no campo, numa regi\u00e3o estrategicamente escolhida para dar in\u00edcio \u00e0 uma Guerra Popular Prolongada, de inspira\u00e7\u00e3o mao\u00edsta, em que os campos cercariam as cidades. O campon\u00eas armado e dirigido pelo partido comporia o ex\u00e9rcito que faria a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nome de que se faria a revolu\u00e7\u00e3o no Brasil? Em nome de uma democracia burguesa, capaz de retirar os \u201centraves feudais\u201d da nossa estrutura social e realizar os avan\u00e7os revolucion\u00e1rios que a burguesia europeia havia realizado quase duzentos anos antes. Numa vis\u00e3o que era compartilhada por grande parte da esquerda, a revolu\u00e7\u00e3o se faria por etapas e a etapa daquele momento seria a \u201cdemocr\u00e1tico-burguesa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ideias trazidas de fora e sem correspond\u00eancia \u00e0 realidade brasileira foram dogmaticamente aplicadas por amplos setores da esquerda. O PC do B manteve os aspectos fundamentais da avalia\u00e7\u00e3o que fazia o PCB sobre os problemas brasileiros e modificava apenas na estrat\u00e9gia para o caminho da revolu\u00e7\u00e3o: um caminho armado desde a funda\u00e7\u00e3o do partido e, refor\u00e7amos, sob o governo democr\u00e1tico de Jo\u00e3o Goulart o que sugere que o dogmatismo e esquematismo de que sofria grande parte da esquerda atingia propor\u00e7\u00f5es exacerbadas neste partido, incapaz de vislumbrar possibilidades de avan\u00e7o durante o governo Jango.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era corrente a id\u00e9ia de que o Brasil teria um passado marcado pelo feudalismo, e os historiadores explicavam nosso passado colonial a partir das premissas do passado feudal europeu. Comparava-se a economia colonial \u00e0 economia feudal, o escravo ao servo, os propriet\u00e1rios rurais aos senhores feudais.\u00a0 Bastava a n\u00f3s entender e identificar o que se passou por l\u00e1 e saber captar em nosso atrasado pa\u00eds as correspond\u00eancias corretas com os fen\u00f4menos europeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vis\u00e3o distorcida da pr\u00f3pria realidade que n\u00e3o foi exclusividade da esquerda, mas que grassava em todos os segmentos sociais. A centralidade europ\u00e9ia era a pedra de toque de importantes intelectuais no mais amplo espectro pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. Mas havia exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pela esquerda Caio Prado J\u00fanior produziu algumas das mais importantes reflex\u00f5es sobre o pa\u00eds, colocando o dedo na ferida e demonstrando que a esquerda conduzia suas a\u00e7\u00f5es sobre uma realidade que de fato n\u00e3o existia. Foi um grande cr\u00edtico da estreiteza das avalia\u00e7\u00f5es do PCB e eivou imensos esfor\u00e7os para dirimir os equ\u00edvocos que se sucediam na vis\u00e3o do partido. Sua obra monumental, que elucidou diversos aspectos de nossa realidade, que deixou claro a acento do passado colonial em nossas institui\u00e7\u00f5es, abriu o campo para aprofundamentos posteriores, mas n\u00e3o teve o impacto devido no interior do partido do qual era militante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vis\u00e3o do PCB, compartilhada pelo PC do B e por outras organiza\u00e7\u00f5es, os restos de nosso passado feudal deveriam ser varridos por uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa. N\u00e3o fora assim na Europa? Procurava-se encontrar uma burguesia revolucion\u00e1ria, capaz de ir a fundo nas possibilidades dessa classe, agindo em toda a sua radicalidade. Procuravam-se jacobinos na burguesia brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguma percep\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia de uma burguesia revolucion\u00e1ria foi captada pela esquerda, que resolveu p\u00f4r o operariado \u00e0 frente da revolu\u00e7\u00e3o burguesa. O racioc\u00ednio era simples: a nossa burguesia nacional \u00e9 fr\u00e1gil, necessita de um impulso para realizar suas tarefas hist\u00f3ricas. O impulso caberia \u00e0 vanguarda do operariado, ao partido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O PCB passou por uma profunda crise, que originou diversos rachas e dos rachas surgiram diversas \u201cvanguardas\u201d da classe oper\u00e1ria. O problema com que se deparavam todas elas \u00e9 que a doutrina dizia que haveria apenas uma vanguarda. Todos os partidos grupos e grup\u00fasculos tinham uma cren\u00e7a real de que eram os verdadeiros representantes da vanguarda. Alguns deles com diferen\u00e7as menores e epis\u00f3dicas, n\u00e3o conseguiram recuperar a unidade da esquerda desfeita com a crise do PCB e a fragmenta\u00e7\u00e3o se tornou a t\u00f4nica da esquerda brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o apenas \u00e0s debilidades pr\u00f3prias da esquerda se deveu a fragmenta\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es. A partir de 1964 a ditadura come\u00e7ou a por em pr\u00e1tica um projeto de exterm\u00ednio dos opositores, que se intensificou a partir de 1968. A tortura foi racionalizada, aprendida na Escola das Am\u00e9ricas pelos oficiais brasileiros e difundidas a outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Aqui, a ditadura que j\u00e1 foi cinicamente chamada de \u201cditabranda\u201d, produziu, al\u00e9m das v\u00edtimas, os professores da tortura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ferocidade com que foram reprimidas as organiza\u00e7\u00f5es de esquerda gerou lembran\u00e7as tristes e grotescas das sev\u00edcias a que foram submetidos diversos lutadores por um mundo mais justo, muitos deles muito jovens, outros j\u00e1 idosos. As cenas da pris\u00e3o e tortura p\u00fablica de Greg\u00f3rio Bezerra, antigo militante comunista com mais de sessenta anos quando foi preso, demonstravam para a popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 onde podia chegar a pervers\u00e3o do regime que apenas se iniciava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a pervers\u00e3o correu solta \u00e0 medida em que ia sendo posto em pr\u00e1tica o plano de exterm\u00ednio de militantes. A\u00a0id\u00e9ia era o exterm\u00ednio f\u00edsico e moral dos militantes, a morte do ide\u00e1rio que defendiam, n\u00e3o no plano do debate democr\u00e1tico e no exerc\u00edcio do convencimento, algo que teve curt\u00edssima dura\u00e7\u00e3o num pa\u00eds de longa trajet\u00f3ria de rep\u00fadio \u00e0 democracia. A domin\u00e2ncia das formas autocr\u00e1ticas de comando do estado impuseram sempre solu\u00e7\u00f5es violentas, mas a viol\u00eancia sistem\u00e1tica, \u201ccient\u00edfica\u201d se tornou corrente e fez escola, disseminou seus frutos por outros pa\u00edses e fincou ra\u00edzes s\u00f3lidas que perduraram e perduram ap\u00f3s a institucionaliza\u00e7\u00e3o da autocracia burguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Impedidos de terem uma vida legal, os militantes foram obrigados \u00e0 clandestinidade. Nomes falsos, mudan\u00e7as constantes de endere\u00e7o e uma amea\u00e7a de tortura e morte constante fez parte do dia a dia de homens e mulheres marcados e perseguidos pelos \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na clandestinidade, entre o sil\u00eancio e a a\u00e7\u00e3o, muito optaram por continuar lutando contra a ditadura. A luta armada era a \u00fanica possibilidade de militantes que n\u00e3o viam outro canal de atua\u00e7\u00e3o. Os debates sobre a forma como deveria se empreender a luta se sucediam em pequenos aparelhos em condi\u00e7\u00f5es bastante adversas. O campo era o local ideal para a imensa maioria das organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das possibilidades vistas pela esquerda era o desencadeamento de uma luta popular, que se iniciasse no campo, que contasse com o amplo contingente de camponeses, mas que tivesse seu comando assumido pelo operariado no momento certo. Outra das op\u00e7\u00f5es era inspirar-se no exemplo cubano, na teoria do foco guerrilheiro, em que, postas as condi\u00e7\u00f5es objetivas, se criariam as condi\u00e7\u00f5es subjetivas, atrav\u00e9s de grupos de pequenos guerrilheiros com um preparo f\u00edsico e moral exemplares, capazes de se tornarem um \u201cpequeno motor\u201d que colocaria em funcionamento o \u201cgrande motor\u201d que geraria a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o que se iniciasse com os camponeses dirigidos pela vanguarda da classe oper\u00e1ria foi teorizada, discutida e algumas tentativas de implanta\u00e7\u00e3o de campos de treinamento guerrilheiro foram realizadas. Nenhuma delas alcan\u00e7ou grande express\u00e3o e foram desmanteladas pela ditadura. A exce\u00e7\u00e3o coube ao PC do B e sua guerrilha do Araguaia. A maioria das organiza\u00e7\u00f5es se concentrou em a\u00e7\u00f5es urbanas, de levantamento de fundos e propaganda, sem passar \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para a guerrilha rural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No PC do B a guerrilha rural foi priorizada, e o partido n\u00e3o participou de a\u00e7\u00f5es urbanas. A revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico burguesa que o partido acreditava ser capaz de desencadear, deveria come\u00e7ar no campo e deveria ser realizado um longo trabalho de prepara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns militantes foram enviados a China, para aprender as t\u00e9cnicas de guerrilha utilizadas por Mao-Ts\u00e9-Tung. Uma intensa prepara\u00e7\u00e3o militar e te\u00f3rica fez parte dos planos do partido para desenvolver no Brasil uma <em>Guerra Popular Prolongada<\/em>. A inspira\u00e7\u00e3o chinesa foi assumida claramente pelo partido em 1969, quando produziu o documento \u201cGuerra Popular Prolongada: caminho para a luta Armada no Brasil\u201d, a base te\u00f3rica mais acabada do partido que o subsidiou \u00e0 atua\u00e7\u00e3o no Araguaia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">GALDINO, Ant\u00f4nio. <em>O P<\/em><em>artido Comunista do Brasil e o movimento de luta armada nos anos 60<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado) Campinas, IFCH\/Unicamp, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">POMAR, Valter. <em>Comunistas do Brasil: Interpreta\u00e7\u00f5es sobre a cis\u00e3o de 1962<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado). S\u00e3o Paulo, FFCLH\/USP, S\u00e3o Paulo, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BICALHO, Luiz de Carvalho. <em>PCB: processo de cassa\u00e7\u00e3o de registro (1947).<\/em> Belo Horizonte, Aldeia Global, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VINHAS, Mois\u00e9s.<em>O partid\u00e3o.<\/em> <em>A luta por um partido de massas (1922-1974).<\/em> S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MORAIS, Jo\u00e3o Quartim de &amp; DEL ROIO, Marcos.\u00a0 <em>Hist\u00f3ria do Marxismo no Brasil: vis\u00f5es do Brasil.<\/em> Campinas, Editora da Unicamp, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. <em>PCB: Vinte Anos de Pol\u00edtica (1958-1979)<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ci\u00eancias Humanas, 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL, <em>Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro: documento do PC do Brasil, 1960-2000<\/em>, S\u00e3o Paulo, Anita Garibaldi, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>* <\/strong> El presente trabajo ha sido presentado en el Congreso Internacional de la Asociaci\u00f3n de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe (ADHILAC Internacional) \u201cLa formaci\u00f3n de los Estados latinoamericanos y su papel en la historia del continente\u201d realizado del 10 al 12 de octubre de 2011 en el Hotel Granados, Asunci\u00f3n, Paraguay, organizado por Repensar en la historia del Paraguay, Instituto de Estudios Jos\u00e9 Gaspar de Francia, Asociaci\u00f3n de Historiadores Latinoamericanos y del Caribe, Centro Cultural de la Cooperaci\u00f3n \u201cFloreal Gorini\u201d (Argentina). Entidad Itaip\u00fa Binacional. Mesa:\u00a0<em>Vida cotidiana, mentalidades, identidad y diversidad y su reflejo en los Estados latinoamericanos y caribe\u00f1os.<\/em><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>**<\/strong> Professora de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea na Universidade Federal do Tocantins. Brasil. Membro do Grupo de Estudos sobre Trabalho, Ideologia e Poder. NETHIPO. PUC-SP. Doutoranda na PUC-SP<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[1] Recentemente Anita Leoc\u00e1dia Prestes enviou uma carta \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do PC do B para \u201c(&#8230;) externar minha estranheza e minha indigna\u00e7\u00e3o com a utiliza\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita da imagem dos meus pais, Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, em Programa Eleitoral desse partido (&#8230;)N\u00e3o posso aceitar que se pretenda comprometer a trajet\u00f3ria revolucion\u00e1ria dos meus pais com a pol\u00edtica atual do PCdoB, que, certamente, seria energicamente por eles repudiada. Cabe lembrar que, ap\u00f3s a anistia de 1979 e o regresso de Luiz Carlos Prestes ao Brasil, durante os \u00faltimos dez anos de sua vida, ele denunciou repetidamente o oportunismo tanto do PCdoB quanto do PCB, caracterizando a pol\u00edtica adotada por esses partidos como reformista e de trai\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria. (&#8230;) Por respeito \u00e0 mem\u00f3ria de Prestes e de Olga, o PCdoB deveria deixar de utilizar-se do ineg\u00e1vel prest\u00edgio desses dois revolucion\u00e1rios comunistas junto a amplos setores do nosso povo, numa tentativa deplor\u00e1vel de impedir o desgaste, junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, de dirigentes desse partido acusados de poss\u00edvel envolvimento em atos de corrup\u00e7\u00e3o. PRESTES, Anita Leoc\u00e1dia. \u201cCarta de Anita Prestes ao PCdoB\u201d. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.pcb.org.br\/portal\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=3164:carta-de-anita-prestes-ao-pcdob&amp;catid=36:diversos , acessado em: 20 de novembro de 2011.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[2] Valter Pomar afirma que: \u201cH\u00e1 um reconhecimento generalizado, na literatura consultada, especialmente a produzida nos anos 80 e 90, sobre o car\u00e1ter pendular da pol\u00edtica do Partido Comunista\u201d(p. 41). O car\u00e1ter pendular do PC seria a oscila\u00e7\u00e3o entre posi\u00e7\u00f5es de direita e esquerda ou ultra-esquedistas, tomadas de forma abrupta. Conforme Wladimir Pomar \u201cAt\u00e9 1956, o PC \u00e9 pr\u00e1tica e reconhecidamente a \u00fanica<\/p>\n<p>organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica considerada como vanguarda da classe oper\u00e1ria. Os pequenos grupos e dissid\u00eancias surgidos no curso de sua hist\u00f3ria jamais conseguiram causar-lhe danos de monta. (&#8230;) As modifica\u00e7\u00f5es de linha pol\u00edtica entre 1946 e 1954, passando de posi\u00e7\u00f5es de direita para posi\u00e7\u00f5es ultraesquerdistas<\/p>\n<p>e vice-versa, al\u00e9m de dissid\u00eancias espor\u00e1dicas de elementos de certo prest\u00edgio, n\u00e3o chegaram a causar<\/p>\n<p>fraturas \u00e0 estrutura aparentemente monol\u00edtica do Partido.\u00bb POMAR, W. <em>apud <\/em> POMAR, Valter. Comunistas do Brasil: Interpreta\u00e7\u00f5es sobre a cis\u00e3o de 1962. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado). S\u00e3o Paulo, FFCLH\/USP, S\u00e3o Paulo, 2000, p. 40-41.<\/p>\n<p>[3] GALDINO, Ant\u00f4nio. <em>O P<\/em><em>artido Comunista do Brasil e o movimento de luta armada nos anos 60<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado)Campinas, IFCH\/Unicamp, 1994, p. 48.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[4]PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL. \u201cEm defesa do Partido (carta dos cem)\u201d. dispon\u00edvel em: www.vermelho.org.br. Acessado em 10\/01\/2007.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[5] POMAR, Valter. <em>Comunistas do Brasil: Interpreta\u00e7\u00f5es sobre a cis\u00e3o de 1962<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado). S\u00e3o Paulo, FFCLH\/USP, S\u00e3o Paulo, 2000, p. 87.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[6] Idem, p. 159.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[7] BICALHO, Luiz de Carvalho. <em>PCB: processo de cassa\u00e7\u00e3o de registro (1947).<\/em> Belo Horizonte, Aldeia Global, 1980, p. 99.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[8] \u201cDi\u00e1rio da Justi\u00e7a<em> <\/em>de 2\/2\/1946\u201d <em>apud<\/em> BICALHO, Luiz de Carvalho. <em>PCB: processo de cassa\u00e7\u00e3o de registro (1947).<\/em> Belo Horizonte, Aldeia Global, 1980, p. 99.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[9] PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL. \u201cEm defesa do Partido (carta dos cem)\u201d. dispon\u00edvel em: www.vermelho.org.br. Acessado em 10\/01\/2007.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[10] Idem.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[11] BICALHO, Luiz de Carvalho. <em>PCB: processo de cassa\u00e7\u00e3o de registro (1947).<\/em> Belo Horizonte, Aldeia Global, 1980, p. 100-101.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[12] Idem, p. 102.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[13] Idem, 102-103.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[14] PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL. \u201cEm defesa do Partido (carta dos cem)\u201d. dispon\u00edvel em: www.vermelho.org.br. Acessado em 10\/01\/2007.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[15] POMAR, Valter. <em>Comunistas do Brasil: Interpreta\u00e7\u00f5es sobre a cis\u00e3o de 1962<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado). S\u00e3o Paulo, FFCLH\/USP, S\u00e3o Paulo, 2000, p.159.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[16] Idem, p. 158.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[17] <em>Novos Rumos<\/em> \u00abEm defesa da Unidade do Movimento Comunista\u201d n\u00ba 152,de 5 a 11 de janeiro de 1962.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[18] VINHAS, Mois\u00e9s.<em>O partid\u00e3o.<\/em> <em>A luta por um partido de massas (1922-1974).<\/em> S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1982, p.187-188.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[19] POMAR, Valter. <em>Comunistas do Brasil: Interpreta\u00e7\u00f5es sobre a cis\u00e3o de 1962<\/em>. (Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado). S\u00e3o Paulo, FFCLH\/USP, S\u00e3o Paulo, 2000, pp. 217-218.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[20] Por exemplo, MORAIS, Jo\u00e3o Quartim de. \u201cO Programa Nacional-Democr\u00e1tico:\u00a0 Fundamentos e Perman\u00eancia\u201d <em>in<\/em>: MORAIS, Jo\u00e3o Quartim de &amp; DEL ROIO, Marcos.\u00a0 <em>Hist\u00f3ria do Marxismo no Brasil: vis\u00f5es do Brasil.<\/em> Campinas, Editora da Unicamp, 2007.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[21] PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL \u201cResposta a Kruschev\u201d, Rio de Janeiro, 27 de julho de 1963, (Resolu\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central do Partido Comunista do Brasil, publicada no jornal <em>A Classe Oper\u00e1ria<\/em>, 1\u00ba a 15 de agosto de 1963).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[22] Idem.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[23] A cr\u00edtica \u00e0s pr\u00e1ticas estalinistas era corrente neste momento nos dois PCs, em que um acusava o outro de recorrer a estes m\u00e9todos.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[24] PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL \u201cResposta a Kruschev\u201d, Rio de Janeiro, 27 de julho de 1963, (Resolu\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central do Partido Comunista do Brasil, publicada no jornal <em>A Classe Oper\u00e1ria<\/em>, 1\u00ba a 15 de agosto de 1963).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[25] Idem.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[26] Idem.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[27]PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. <em>PCB: Vinte Anos de Pol\u00edtica (1958-1979)<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ci\u00eancias Humanas, 1980, p. 50.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[28] Idem, p. 69.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[29]MORAIS, Jo\u00e3o Quartim de. \u201cO Programa Nacional-Democr\u00e1tico:\u00a0 Fundamentos e Perman\u00eancia\u201d <em>in<\/em>: MORAIS, Jo\u00e3o Quartim de &amp; DEL ROIO, Marcos.\u00a0 <em>Hist\u00f3ria do Marxismo no Brasil: vis\u00f5es do Brasil.<\/em> Campinas, Editora da Unicamp, 2007, p. 158.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[30]PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL \u201cResposta a Kruschev\u201d, Rio de Janeiro, 27 de julho de 1963, (Resolu\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Central do Partido Comunista do Brasil, publicada no jornal <em>A Classe Oper\u00e1ria<\/em>, 1\u00ba a 15 de agosto de 1963).<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[31] PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL, \u201cO Golpe de 1964 e seus ensinamentos\u201d <em>in<\/em> <em>Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro: documento do PC do Brasil, 1960-2000<\/em>, S\u00e3o Paulo, Anita Garibaldi, 2000, p. 55.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[32] Idem, p. 63.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[33] Idem, pp. 64-65.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[34] Idem, p. 66.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[35] ANTUNES, Ricardo &amp; RIDENTI, Marcelo. \u201cOper\u00e1rios e Estudantes Contra a Ditadura: 1968 no Brasil\u201d. In: <em>Dossi\u00ea 40 anos de maio de 68. Revista Media\u00e7\u00f5es<\/em>, Londrina, Universidade Estadual de Londrina, v. 12, n. 2, p. 78. Jul\/Dez. 2007.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[36] DREIFUSS, Ren\u00e9 Armand. <em>1964: A Conquista do Estado \u2013 A\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica, Poder e Golpe de Classe<\/em>. Petr\u00f3polis, Vozes, 1981.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[37] MORAES, Jo\u00e3o Quartim de. \u201cO efeito desmistificador de A Conquista do Estado na an\u00e1lise das bases sociais da contra-revolu\u00e7\u00e3o\u201d. <em>in: E-premissas: Revista de Estudos Estrat\u00e9gicos. Dossi\u00ea Dreifuss<\/em>. N\u00ba 01 \u2013 junho\/ dezembro \u2013 2006.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[38] Idem.<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<p>[39] A esse respeito vale a pena ler consultar a obra de MARINI, Ruy Mauro. Dial\u00e9tica da Depend\u00eancia. Petr\u00f3polis: Vozes\/ Buenos Aires: Clacso, 2000. Ediciones Era, M\u00e9xico, 1991a.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify;\">[40] PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL.<em> Em defesa dos trabalhadores e do povo brasileiro: documentos do PC do Brasil de 1960 a 2000<\/em>. S\u00e3o Paulo: Anita Garibaldi, 2000, p. 49.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><em>Ariadna Tucma Revista Latinoamericana. N\u00ba \u00a07. Marzo 2012-Febrero 2013 \u2013 Volumen III<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Publicado por \u00a9www.ariadnatucma.com.ar<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contacto: info@ariadnatucma.com.ar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O PC do Be a Guerrilha do Araguaia no Brasil nas d\u00e9cadas de 60 e 70* &nbsp; Patricia Sposito Mechi** &nbsp; O PC do B nos anos 60\u00a0 e 70 \u00a0procurou refletir sobre a quest\u00e3o camponesa, e este tema era fundamental na acep\u00e7\u00e3o do partido sobre a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. 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