Revolução nacional ou continental? O Partido Comunista do Brasil sob o impacto da Revolução Cubana

Patricia Sposito Mechi*

 

Izquiera: Chico Buarque en Roda Viva 1967.


O artigo objetiva discutir uma das recepções da Cuba revolucionária pela esquerda brasileira, focando o estudo das concepções formuladas pelo Partido Comunista do Brasil na década de 60 em torno do debate sobre o caráter da revolução na América Latina. Elegeu-se como principais fontes de análises a “Declaração do Congresso da Organização Latino-Americana de Solidariedade” (OLAS), realizado em Havana no ano de 1967 e “Alguns Problemas Ideológicos na América Latina”, publicado em 1968 pelo PC do B em resposta à declaração da OLAS. O fio condutor da análise é a confrontação dos significados assumidos pelos conceitos que organizam a temática da revolução no documento da OLAS e na resposta dada pelo PC do B, em que temas como o inimigo a se combater; o caráter da revolução; os métodos de luta; o papel do partido de vanguarda da classe operária; e o caráter nacional ou continental da revolução ganham relevância.

 

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Abstract:

 

The article discusses one of the receptions of revolutionary Cuba by Brazilian left, focusing on the study of concepts formulated by the Communist Party of Brazil in the 60s around the debate about the character of the revolution in Latin America. Was elected as main sources of analysis the “Declaration of the Congress of the Organization of Latin American Solidarity” (OLAS), held in Havana in 1967, “Some Ideological Problems in Latin America,” published in 1968 by PC B response to the declaration of OLAS. The common thread of analysis is the comparison of the meanings given by the concepts that organize the theme of revolution in the OLAS document and the answer given by the PC do B, where topics like the enemy to fight, the character of revolution; methods struggle, the role of the vanguard party of the working class, and national or continental character of the revolution gain relevance.

 

Keywords: Communist Party of Brazil. Cuban Revolution. Socialism.

 

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Nos anos 60 o mundo conheceu vigorosos movimentos de contestação que culminaram na explosão revolucionária de 1968.  Atores sociais diversos – trabalhadores, estudantes, homossexuais, negros, feministas, militantes de diversas causas – tomaram as ruas em inúmeras partes do mundo apresentando suas demandas e seus sonhos. Slogans como “Seja realista, exija o impossível”, estampado numa parede de Paris evocava o sentido dessas manifestações: lutava-se contra o capitalismo, contra o autoritarismo e contra a “caretice”. Eram variadas as expressões contra um mundo visto como velho, ultrapassado, injusto.

 

Inspirações não faltavam aos que contestavam e reivindicavam. Entre elas a revolução cubana certamente ocupou um lugar privilegiado. Sobre ela uma das afirmações que mais ganhou destaque foi a de que um punhado de revolucionários – o mítico “Che”, Fidel e Cienfuegos à frente, teriam feito a revolução na pequena ilha, munidos apenas da “vontade revolucionária” dos justos ideais que carregavam. O numeroso campesinato cubano que participou ativamente do processo revolucionário era esquecido quando se tratava de abordar a ilha.

 

Abajo: José Celso Martinez Corrêa

No Brasil, o ano de 1968 começou com a estreia da peça teatral Roda Viva, de Chico Buarque, dirigida por José Celso Martinez Corrêa; alguns meses depois os integrantes da peça foram espancados pelo Comando de Caça aos Comunistas. O ano também foi marcado por grande efervescência do movimento estudantil e pela irrupção das greves operárias de Osasco e Contagem. O desfecho trágico de 1968 foi a decretação do Ato-Institucional nº 5, fechando os poucos canais democráticos ainda abertos durante a ditadura.

 

Em meio a manifestações populares e debates acalorados, discutia-se a revolução cubana. Seu impacto sobre a esquerda brasileira vinha do início da década, e levava muitos militantes a considerá-la uma experiência a ser levada a sério.  A esquerda a recebeu efusivamente; dentre as organizações, o Partido Comunista do Brasil (PC do B) publicava textos nas páginas de seu periódico A Classe Operária, defendendo Cuba, seus revolucionários e sua revolução.

 

O entusiasmo inicial evoluiu ao longo da década para uma posição crítica desse partido em relação a Cuba e seu processo revolucionário. Tanto um como outro definiram nos anos 60 seus perfis: o PC do B, fundado em 1962 passou os anos seguintes traçando qual caminho revolucionário percorrer, enquanto a revolução cubana definia seu caráter socialista, discutia a perspectiva de uma revolução continental e o apoio aos movimentos revolucionários do chamado terceiro mundo.

 

Este artigo pretende recuperar alguns aspectos do itinerário teórico do PC do B no período, indicando o distanciamento que foi se construindo no interior da agremiação política em relação à revolução cubana. Ao fazê-lo, objetiva-se evidenciar as dificuldades de setores da esquerda brasileira de superarem o dogmatismo estalinista e contribuir para a crítica sobre as experiências de luta contra a ditadura brasileira (1964-1985).

 

De maneira direta ou indireta, formal ou informalmente, as experiências revolucionárias internacionais estiveram no centro das preocupações dos comunistas brasileiros. Além do socialismo soviético e chinês, o socialismo cubano animou a militância em suas mais variadas organizações. Apesar das recepções a Cuba revolucionária não terem sido uniformes, cristalizou-se uma versão a respeito de seu processo revolucionário que contribuiu para aprofundar voluntarismo das esquerdas brasileiras.

 

A versão mencionada trazia ao primeiro plano as questões subjetivas da revolução (organização, consciência, disposição para a luta), em detrimento das questões objetivas (armamento, superioridade técnica do inimigo). E trazia explicitamente a ideia de que, tendo compreendido o movimento da história e portadores de uma superioridade moral, os guerrilheiros da Sierra Maestra puderam realizar uma revolução numa pequena ilha, com um número reduzido de combatentes, enfrentando a maior potência bélica, militar e econômica do mundo. Daí o reforço na crença, já presente no seio da esquerda, na vanguarda revolucionária, na teoria do foco guerrilheiro e na inevitabilidade da revolução.

 

Esta leitura da revolução não se sustenta frente a análise mais profunda da experiência cubana. Florestan Fernandes indicava, em fins dos anos 70, que falava-se da guerrilha como se ela tivesse sido um “abre-te sésamo”.[1] Sader, por sua vez, pontua que o apoio massivo da população foi decisivo para o desenvolvimento da revolução. O autor afirma ainda que Sader, que Guevara, analisando a experiência revolucionária de Cuba, debruça-se apenas sobre aquilo que conhece, que é a campanha militar na Sierra Maestra e que, portanto, “seria natural que a fusão entre o núcleo guerrilheiro e as massas do país tenham aparecido desligada de toda a realidade histórica anterior que a preparou”.[2]

 

A versão que exaltava o papel da vanguarda, a figura mítica de Che Guevara, o sucesso do foquismo, a necessidade da exportação da revolução a outros países do mundo e a subjetividade revolucionária se sobrepondo às questões objetivas, foi a mais influente entre as esquerdas brasileiras e de outros países da América Latina durante os anos 60 e 70.  A ideia da realização de uma revolução numa pequena ilha, próxima à maior potência capitalista mundial por uns poucos militantes, era certamente animadora e abria horizontes para a militância de esquerda, obrigando partidos e organizações a refletir sobre essa experiência.

A força dessa versão no Brasil pode ser compreendida a partir de dois aspectos. O primeiro, refere-se à escassa produção acadêmica e científica sobre o processo revolucionário cubano, como demonstrou Wasserman em seu estudo sobre a recepção brasileira à revolução cubana[3]. O segundo, refere-se ao perfil das organizações de esquerda no país a partir do golpe civil-militar de 1964 e mais acentuadamente com a decretação do Ato-Institucional nº 5, que ampliou sobremaneira os poderes da ditadura instalada quatro anos antes. Trata-se de uma militância em grande parte muito jovem e oriunda do movimento estudantil, que se engajou na luta contra a ditadura (de forma armada ou não) ao mesmo tempo em que crescia exponencialmente a repressão do Estado aos trabalhadores do campo e da cidade e suas organizações, e simultaneamente aumentava a repressão contra qualquer forma de oposição. No Brasil não foi possível durante longos anos, que ocorressem manifestações de massa e, quando elas voltaram a ocorrer, em 1968, baixou-se o Ato 5. Dessa forma a oposição radical à ditadura, perseguida e eliminada sistematicamente pela ditadura encontrava-se cada vez mais isolada das massas. Nessa militância as concepções vanguardistas ganhavam força e serviam para alimentar sua continuidade na luta contra a ditadura.

 

Foi no interior desse contexto que o PC do B se posicionou frente à revolução cubana. Fundado a partir de uma cisão com o PCB (Partido Comunista Brasileiro) quando este último, sob o impacto da revelação dos crimes de Stalin pelo XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética – PCUS, propôs modificações importantes em suas estratégias e táticas revolucionárias. O PC do B, acusando o PCB de revisionista, preservou a influência estalinista em sua organização.

 

Quanto à revolução cubana, o partido a tratou inicialmente com simpatia. Em seus documentos do ano 1962 encontramos algumas passagens referentes à solidariedade e a defesa da revolução cubana, ou afirmações elogiosas por ser Cuba o único país na América Latina livre do imperialismo. Encontramos também aqueles que podem ser identificados como indícios de uma leitura do acerto da revolução cubana:

“Cuba é um exemplo de como um povo oprimido, mas decidido a vencer, pode bater seus algozes e construir uma nova vida”[4].

Apesar de referências como essa não há aprofundamento nas discussões a respeito de seu caráter, suas táticas ou estratégias. Apenas em 1968 o partido apresenta uma reflexão bem acabada sobre o tema, fruto dos estudos elaborados ao longo da década. Nesse ano, a agremiação política, que vinha construindo respostas pontuais para os temas trazidos pela revolução cubana sintetiza suas posições no texto“Alguns problemas ideológicos da revolução na América Latina”. O texto era uma resposta à “Declaração da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS)”, produzida em 1967 por ocasião de seu único congresso, que teve lugar em Havana.

 

Em 1968, tendo acumulado uma série de reflexões sobre a revolução brasileira e, portanto, tendo clarificado o caminho revolucionário a seguir, o PC do B pôde responder à teoria revolucionária corporificada no castro-guevarismo e difundida pela OLAS. A resposta se organizava em torno dos seguintes temas: o inimigo a se combater; o caráter da revolução; os métodos de luta; o papel do partido de vanguarda da classe operária; e o caráter nacional ou continental da revolução.

 

O primeiro dos temas, diz respeito ao inimigo a se combater e o imperialismo, em sua aliança com a oligarquia, aparece como principal em ambos os documentos. O que difere são as análises a respeito das possibilidades de uma composição que incluísse setores da burguesia.

Enquanto o documento da OLAS não distingue nenhum setor que possa vir a ser revolucionário o PC do B aposta na existência de uma burguesia nacional que tivesse interesses antagônicos ao imperialismo e, para dar autoridade a essa argumentação, uma fala de Che Guevara é destacada:  (…) não acreditamos que possa se considerar excepcional o fato de que a burguesia, ou pelo menos uma boa parte dela, se tenha mostrado favorável à guerra revolucionária contra a tirania.[5]

 

Essa fala de Guevara é utilizada para argumentar que Cuba, naquele momento a liderança latino-americana a propor uma revolução socialista, tivera uma “etapa democrático-burguesa bem marcante”.[6]

 

A afirmação da existência desta etapa pode ser identificada em Cuba muito mais como um conteúdo teórico, que não subsiste à revolução, já que o movimento liderado por Fidel Castro se realiza para pôr em prática o programa de Moncada, enunciado em seu texto A história me absolverá, de orientação nacional, democrática e popular. Sader lembra que na constituição do novo poder, a unidade de diversos setores populares provocava, ao mesmo tempo, uma,

 

Diferenciação social cada vez mais aberta entre a revolução e a contra revolução. Nessa dinâmica, a burguesia cubana e também uma parte considerável da classe média foram se opondo ao processo revolucionário com o apoio ativo do governo norte-americano em cujo território operavam abertamente as organizações contrarrevolucionárias.[7]

 

 

O autor enfatiza que a polarização revolução/contrarrevolução se apresentava como uma oposição entre nação/imperialismo e era a expressão da contradição entre burguesia e proletariado. Seguindo o curso dessa argumentação podemos afirmar que nas condições concretas em que se desenvolveu a revolução cubana, a inviabilidade de uma etapa democrático burguesa e a participação da burguesia se devia ao curso dos acontecimentos e não que essa aliança não fosse desejada.

 

O que tornou a experiência cubana singular foram as saídas criativas, desprendendo-se da rigidez do marxismo-leninismo, para responder aos problemas e às demandas da revolução. Sader aponta, nesse sentido, dois elementos que iam sendo redescobertos e recriados pela prática revolucionária: “o caráter popular da luta democrática, que se choca com o Estado burguês, requerendo uma solução revolucionária, e o da aliança operário-camponesa como eixo das forças sociais democraticamente consequentes”.[8]

 

Uma diferente avaliação do papel das burguesias levou a concepções de inimigos a combater diferenciadas: para a OLAS não há um antagonismo entre os interesses imperialistas e as burguesias nacionais, por serem estas últimas portadoras de uma debilidade estrutural. Elas seriam tão incapazes, que sequer a contradição entre os interesses nacionais e imperialistas se desenvolveria. Avaliando que o capitalismo latino-americano teve o seu desenvolvimento entravado pelo surgimento dos Estados Unidos como potência imperialista e que as burguesias do continente padeciam de uma “fraqueza orgânica”, para a OLAS “seria absurdo supor que, em tais condições, a chamada burguesia latino americana pudesse desenvolver uma ação política independente da oligarquia e do imperialismo, em defesa dos interesses e aspirações da nação”.[9]

 

Já o PC do B postulava que teríamos uma burguesia débil, incapaz de conduzir um processo revolucionário. Todavia, como a etapa nacional-democrática da revolução seria uma etapa historicamente necessária, considerava um erro alijar a burguesia, posto que seus setores nacionais seriam os grandes beneficiários do processo revolucionário e, portanto, manifestariam interesse na aliança com o proletariado. Consolidada essa etapa seria possível a criação das condições objetivas e subjetivas para o socialismo.

 

A discussão a respeito da revolução cubana permite compreender a difusão pela OLAS, sobre a inexistência de um papel à burguesia e a impossibilidade da realização de uma revolução de talhe democrático-burguês. Novamente a argumentação a respeito da incapacidade das burguesias latino-americanas se manifesta. Não tendo condições de realizar aquelas que seriam as necessidades para o fortalecimento do capitalismo autônomo e considerando a burguesia, em bloco, como aliada do imperialismo a OLAS propõe, então, uma revolução socialista, sem passar pela etapa democrático-burguesa.

 

Postular uma revolução socialista seria, na visão do PC do B, pernicioso pois ter o socialismo como objetivo da revolução naquele momento “seria entravar o avanço do processo revolucionário,  porque restringiria grandemente o campo de ação. Afirmavam que “(…) nas atuais circunstâncias o movimento é essencialmente democrático”[10]. O tipo de revolução pensada pelo partido permite afinar mais ainda o papel e o lugar da burguesia em sua aliança com o operariado:

 

Ao apresentar as exigências democráticas e anti-imperialistas, que uma vez satisfeitas atingem de morte aqueles inimigos, o proletariado pode aliar-se temporariamente com uma parte da burguesia, mesmo que vacilante, neutralizar outra e golpear apenas os setores burgueses ligados ao imperialismo[11].

 

Há um ponto de contato entre a avaliação presente nos dois textos que é a presença de restos feudais na América. Latina. No Brasil, Caio Prado Jr. Combateu essa visão no interior do PCB, e pensava a partir do caráter capitalistas das relações de classe apontando, contudo, para a incompletude desse capitalismo. Conforme ressalta Virgínia Fontes:

 

Prado Jr. combateu a tese da transplantação do feudalismo para a colônia, ressaltando a importância da escravidão, considerada, porém, como uma modalidade de escravidão capitalista, (…)Consequentemente, ao longo do século XX, as dificuldades não residiriam na existência de restos feudais ou pré-capitalistas, posto que o caráter capitalista derivaria dos primórdios da colonização, mas adviriam de um capitalismo colonizado, incompleto[12].

 

 

Apesar dos esforços de Caio Prado Jr. a tese do feudalismo permaneceu arraigada. Uma visão esquemática e etapista da história permitia ao partido pensar não ser possível a realização de uma revolução socialista porque não havia se processado na América Latina, em toda a sua inteireza, uma revolução burguesa. Subsistia a tese do transplante da experiência europeia que Prado Jr. combatera e que possibilitava a amplos setores da esquerda fazer a defesa da revolução democrático-burguesa, em nome da superação dos restos feudais.

 

 

Talvez o aspecto mais polêmico no curso do debate entre o PC do B e a revolução cubana seja a respeito do método de luta, porque as diferenças são sutis e há, em ambos os textos, um descompasso entre a teoria e a prática.

 

 

Para o castro-guevarismo o método de tomada do poder por excelência é uma guerra de guerrilhas iniciada no campo. Sua deflagração é conduzida pela vanguarda revolucionária, através da instalação de um foco guerrilheiro já que “(…) a guerrilha – como embrião dos exércitos de libertação – constitui o método mais eficaz para iniciar e desenvolver a luta revolucionária na maioria dos países”[13].

 

O PC do B, respondendo a isso, tem em comum o destaque dado ao campo na revolução e a utilização do método de guerrilha, mas criticava a teoria do foco. Na concepção do partido era necessário um intenso e prolongado trabalho de massas, de convencimento, de educação popular e, a partir daí se comporia um exército popular revolucionário, inspirado na experiência chinesa e que se estruturava a partir das concepções do maoismo.

 

Elementos como esses permitiram ao partido pensar uma experiência de luta social, com origem no campo, caso da Guerrilha do Araguaia. Pensar a questão do método nessa experiência do PC do B é caminhar por um terreno pantanoso porque não existe uma produção extensa sobre tema da guerrilha[14], a não ser aquela vinculada organicamente ao partido. O discurso do partido é claro em apontar para a implementação de uma Guerra Popular Prolongada, como já mencionamos mas, na prática, como alerta Gorender:  “paradoxal era que a guerrilha, planejada para desfechar a guerra popular prolongada segundo o modelo maoista, reproduzisse, no essencial, a tática do foquismo castro-guevarista”[15]. O argumento de Gorender também é corroborado por Ridenti[16] estes autores postulam que, do ponto de vista da teoria, propunha-se uma guerra popular com ampla participação de massas mas na prática o que se desenvolveu no Araguaia era aquilo que o partido tanto criticara, um foco revolucionário.

 

Outro ponto importante é a questão da condução da revolução pelo partido. A proposta da OLAS era a de criação de um organismo internacional e suprapartidário, que coordenasse os movimento revolucionários pela América Latina e seu papel seria o de viabilizar a construção desse organismo. O PC do B apresentava uma concepção que insistia no papel central do partido com base na ideia de que ele é a instituição que deve conduzir a revolução. Trata-se da ideia de que são os operários mais capazes e mais avançados, organizados no partido, que tomam a direção do processo. Inspirada no marxismo-leninismo, essa concepção de vanguarda revolucionária não era, como se sabe, exclusividade do PC do B sendo amplamente adotada pela esquerda brasileira.

 

Um princípio de fundo, inabalável na concepção do PC do B, como de diversos outros partidos e organizações latino-americanos, quando questionado, provocava uma violenta reação em que os detratores do partido eram acusados de revisionistas:

 

Também são nocivas “teorias” pretensamente marxistas do neotrotsquismo, ultraesquerdista em palavras e ultradireitistas na prática. Por sua vez, o fidelismo, tão em voga na América Latina, embora se proclame marxista-leninista, indica soluções que não se  coadunam com a realidade do Hemisfério e tenta rever os postulados básicos da doutrina fundada por Marx e Engels.[17]

 

Se está claramente posto que a OLAS prescindia da existência de um partido, é igualmente clara a necessidade da presença de uma vanguarda revolucionária na condução do processo. A recriação e reelaboração daqueles aspectos que eram considerados perniciosos no marxismo-leninismo não significavam o seu total abandono e a defesa da vanguarda como elemento fundamental na revolução denota essa característica.

 

 

Por fim, em relação ao do caráter nacional ou continental da revolução, como desdobramento do que se apresentou anteriormente, a OLAS propõe uma revolução de caráter continental, enquanto o PC do B propõe uma revolução nacional. Para o partido, os países da América Latina apresentavam muitas similaridades, mas as diferenças nacionais impediriam a proposta de uma revolução continental.

 

O PC do B argumentava que sendo uma revolução democrático-burguesa, seria imprescindível a presença de uma burguesia nacional. Ainda que a burguesia não tivesse forças para fazer a sua própria revolução, a revolução seria para realizar aquelas que eram as tarefas de uma burguesia democrática e anti-imperialista e neste caso, o anti-imperialismo, só poderia ser a defesa intransigente do nacionalismo e realizada em um só país, como convinha à tradição estalinista.

 

Outra chave de análise para pensar o caráter nacional da revolução para o PC do B, é verificar até que ponto a tradição revolucionária latinoamericana fazia algum sentido para o universo de referências do PC do B. A análise da documentação sugere que não há. O que parece fazer sentido para setores da esquerda latino-americana, que é a ascendência revolucionária exercida por Martí ou por Bolívar, para o PC do B não está além do discurso de superfície. O olhar do partido está na Ásia, na Europa, na Rússia, na China e na Albânia e não na América Latina.

 

A proposta da OLAS,  para o PC do B, de uma revolução latino-americana, de caráter continental, socialista, sem a condução da vanguarda do partido da classe operária, seria um desserviço à revolução se configuraria num novo tipo de revisionismo, tão pernicioso quanto o revisionismo soviético, porque conteria erros fundamentais e desvirtuariam o marxismo-leninismo.

 

A revolução na América Latina, então, seria restrita ao espaço do Estado-nação, de caráter democrático-burguês, conduzida pelo partido de vanguarda da classe operária e iniciada no campo. Posicionar-se frente ao debate induzido pela OLAS permitiu ao partido sintetizar a essência de sua proposta revolucionária.

 

O que sobressai da análise do debate sobre a revolução a partir das questões e temas aqui levantados é um arraigado dogmatismo estalinista presente no PC do B – que rompeu com o PCB quando este fazia uma crítica e abandonava, ainda que de forma incompleta, o estalinismo. Mesmo vinculando-se posteriormente à China e à Albânia e mesclando estratégias de luta de guerrilha inspiradas no maoísmo, a grande referência interpretativa para realidade brasileira permaneceu sendo o Partido Comunista da União Soviética anterior à 1955, ou seja, anterior à divulgação dos crimes de Stalin.

 

Tais interpretações impediram qualquer vínculo entre esta agremiação e a revolução cubana nos anos 60 e 70, diferente do que ocorreu com outras organizações da esquerda no período como as Ligas Camponesas, o Grupo dos 11 de Leonel Brizola e a Aliança Libertadora Nacional, ALN – esta última enviando diversos militantes para treinar em Cuba no início dos anos 70. Mesmo dizimado pela ditadura durante a guerrilha do Araguaia e na chacina da Lapa[18], o PC do B manteve-se fiel às interpretações que desenvolveu ao longo da década de 60, não realizando a necessária autocrítica Abandonou a perspectiva da luta armada no campo em fins dos anos 70 sem rever os erros e acertos de seus posicionamentos tanto em relação à guerrilha do Araguaia, quanto a outros temas, entre eles, sua interpretação da revolução cubana.

 

Referências

 

 

FERNANDES, Florestan. Da Guerrilha ao Socialismo: a Revolução cubana, Florestan Fernandes, 1979, Coleção Assim Lutam os Povos, Editora Expressão Popular, 2007, p. 88.

 

FONTES, Virgínia. “Autores clássicos e questões clássicas – o capitalismo no Brasil e Caio Prado Jr.”. Revista Espaço Acadêmico, Maringá, n.º70, fevereiro de 2007. Disponível em: <www.espacoacademico.com.br> acessado em 22 de julho de 2008.

 

GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. São Paulo, Ática, 1990.

 

LOWY, Michel. O Marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. São Paulo, Perseu Abramo, 1999.

 

MECHI, Patricia S. Protagonistas do Araguaia: representações, trajetórias e práticas de camponeses, militantes e militares na guerrilha (tese de doutorado). Programa de Pós-Graduação em História Social da PUC-SP. São Paulo, 2012.

 

PARTIDO COMUNISTA do BRASIL. Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro. São Paulo, Anita Garibaldi, 2000.

 

RIDENTI, Marcelo, O Fantasma da Revolução Brasileira. São Paulo, Editora da Unesp, 1993.

 

SADER, Eder (org) Che Guevara – Política. São Paulo, Expressão Popular, 2004.

 

SALES, Jean Rodrigues. “O Partido Comunista do Brasil nos anos sessenta: estruturação orgânica e atuação política”. Cadernos AEL. Tempo de Ditadura. Campinas, Arquivo Edgard Leuenroth/IFCH/Unicamp, v. 8, n. 14/15, 2001.

WASSERMAN, Cláudia. “Historiografia sobre a revolução cubana no Brasil”. Historia Caribe, nº. 12, Barranquila (Colômbia) 2007, pags. 57-76.

 

NOTAS

 

* Professora de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Doutora em História Social pela PUC-SP, pesquisadora do Centro de Estudos da América Latina da PUC-SP e líder do Centro de Estudos da América Latina – Tocantins.  Atua principalmente nos seguintes temas: ditadura civil-militar brasileira, lutas sociais no Brasil e na América Latina no século XX.

 

[1] FERNANDES, Florestan. Da Guerrilha ao Socialismo: a Revolução cubana, Florestan Fernandes. São Paulo, Coleção Assim Lutam os Povos, Editora Expressão Popular, 2007, p. 88.

 

[2] SADER, Eder (org) Che Guevara – Política. São Paulo, Expressão Popular, 2004, p. 23.

[3]WASSERMAN, Cláudia. “Historiografia sobre a revolução cubana no Brasil”. Historia Caribe, nº. 12, Barranquilla (Colômbia),  2007, pags. 57-76.

[4] PARTIDO COMUNISTA do BRASIL. “Manifesto-programa”. In: Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro. São Paulo, Anita Garibaldi, 2000, p. 41.

[5] PARTIDO COMUNISTA do BRASIL. “Alguns Problemas Ideológicos da Revolução na América Latina”. In: Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro. São Paulo, Anita Garibaldi, 2000, p. 125.

[6]Ibidem.

 

[6] SALES, Jean Rodrigues. “O Partido Comunista do Brasil nos anos sessenta: estruturação orgânica e atuação política”. Cadernos AEL. Tempo de Ditadura. Campinas, Arquivo Edgard Leuenroth IFCH/ Unicamp, vol. 8, nº 14/15, 2001.

[7] SADER, E (org) Che Guevara – Política. São Paulo, Expressão Popular, 2004, p. 25-26.

[8] PARTIDO COMUNISTA do BRASIL. “Alguns Problemas Ideológicos da Revolução na América LatIna” In: Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro. São Paulo, Anita Garibaldi, 2000, p. 124-125.

[9] LOWY, Michel. “A declaração da OLAS” In: O Marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. São Paul,: Perseu Abramo, 1999, p. 306.

[10] PARTIDO COMUNISTA do BRASIL. “Alguns Problemas Ideológicos da Revolução na América Latina” In: Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro. São Paulo, Anita Garibaldi, 2000, p. 125.

[11]Ibidem, p. 124.

[12] FONTES, Virgínia. “Autores clássicos e questões clássicas – o capitalismo no Brasil e Caio Prado Jr.”

Revista Espaço Acadêmico. Maringá, fevereiro de 2007, n.º 70. disponível em: <www.espacoacademico.com.br> acessado em 22 de julho de 2008.

[13] LOWY, Michel. “A declaração da OLAS” In: O Marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. São Paulo: Perseu Abramo, 1999, p. 313.

 

[14] Exemplo de um estudo não vinculado ao PC do B pode ser encontrado em MECHI, Patricia S. Protagonistas do Araguaia: representações, trajetórias e práticas de camponeses, militantes e militares na guerrilha (tese de doutorado). Programa de Pós-Graduação em História Social da PUC-SP. São Paulo, 2012.

 

[15] GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas. São Paulo, Ática, 1990, 4.ª ed, p.76.

 

[16] RIDENTI, Marcelo, O Fantasma da Revolução Brasileira. São Paulo, Editora da Unesp, 1993, p. 231.

[17] PARTIDO COMUNISTA do BRASIL. “Alguns Problemas Ideológicos da Revolução na América Latina”.  In: Em Defesa dos Trabalhadores e do Povo Brasileiro. São Paulo, Anita Garibaldi, 2000, p. 116.

 

[18] Em 1976, no bairro paulistano da Lapa, parte das lideranças do PC do B foram assassinadas pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Felury. Cf. POMAR, Pedro E. da Rocha. Massacre na Lapa – Como o Exército Liquidou o Comitê Central do PCdoB (São Paulo, 1976). São Paulo, Perseu Abramo,2006.

 

Ariadna Tucma Revista Latinoamericana. Nº 9. Marzo 2014 – Febrero 2015. Volumen I

 

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